O direito de errar

De onde vos escrevo, vejo um condutor que buzina ferozmente porque uma senhora fez uma manobra menos ortodoxa. De seguida, um jovem desmonta da sua potente mota e ameaça, de dedo espetado e capacete na cabeça, um senhor de respeitável idade porque o seu cão correu atrás da dita potente mota, quando iniciou a marcha. Enquanto vocifera sobre o senhor, a formosa namorada, de capacete na cabeça, aguarda junto da potente mota que o seu namorado descarregue toda a sua testosterona sobre o senhor.

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Olho ao meu redor e vejo grupos de pessoas que conversam alegremente enquanto comem um gelado ou bebem uma bebida fresca.

Isto para dizer que existem comportamentos certos e comportamentos errados. Estes, quando ganham a forma de decisões, afetam a dinâmica da empresa. O óbvio é premiar as decisões certas, sem dúvida. Infelizmente, nem sempre acontece porque os colaboradores “devem fazer o que lhes compete”. Mas, o que fazer quando alguém toma uma decisão errada?

A primeira grande variável diferenciadora reside no facto do erro ser cometido pelo chefe ou pelo empregado. A dimensão do erro depende fortemente da capacidade de “mandar” da pessoa que o comete.

Sabendo que a história está repleta de decisões certas e erradas, consciente que já tomei decisões certas, mas que também já optei por meios que não teriam sido os mais eficazes (note-se a diferença da terminologia para o certo e o errado), dedico o resto do texto a um tema que me é particularmente querido, a Gestão do Erro.

O primeiro pressuposto é o de que todos erramos, em determinado momento da nossa vida, pese embora algumas pessoas ainda hoje insistam em viver no vazio intelectual de que nunca erraram.

O erro pode ser consciente ou ser tomado com a convicção de que estaríamos a fazer bem. Por outro lado, o erro pode resultar do nível de risco com que tomamos decisões: quanto maior for o risco, maior a probabilidade de errar, de que algo corra mal. E, questionava alguém: quais os níveis de produtividade de quem nunca correu riscos?

A Gestão do Erro é a estratégia que utilizo junto das minhas equipas, onde estímulo as pessoas a tomarem decisões. Seja por pouca experiência ou por terem no seu passado um ambiente profissional castrador, as pessoas hesitam quando são chamadas a decidir, muitas vezes em matérias de menor relevância.

Existem diversas estratégias para desenvolver a capacidade de decisão nas equipas. Uma delas é ensinar como se tomam decisões certas. Liderar pelo exemplo é uma metodologia muito comum, onde conseguimos um resultado final onde todos tomarão as decisões que lhes foram ensinadas, leia-se que seriam tomadas por quem dá o exemplo. Isto (quase) não é uma crítica. Existem situações em que é importante mostrar como se faz.

Dar pistas que conduzam a uma decisão é outra alternativa para que, no final as pessoas encontrem o caminho certo. Esta é já uma zona em que se estimula o pensamento estratégico e o desenvolvimento de um plano ode se avaliam os meios para se chegar a um fim.

Sem me alongar sobre as inúmeras formas de gerir e gerar processos de decisão, dar às equipas a responsabilidade de tomar decisões, lançando o desafio de “faz como achares melhor” de elaborar um pensamento criativo que sustente a sua decisão, de o discutir, identificando pontos fortes e pontos fracos, é a forma mais complexa mas mais autêntica de obter das pessoas o melhor que têm para dar, de obter ideias novas, disruptivas, inovadoras, umas boas, outras nem tanto.

E deixar espaço para errar. Um dos grandes momentos de Gestão e Liderança consiste no espaço dado às pessoas para tomarem decisões que, ainda que sabendo que não são as mais certas, não causam danos irreversíveis na organização e permitem aos colaboradores experimentar em nome próprio a necessidade de repensar e fazer de novo.

Não é um erro de Gestão nem tão pouco um comportamento sádico deixar alguém errar, quando temos a certeza de que, estando a Gerir o Erro por forma a contribuir para o crescimento da pessoa, estamos a construir grandes profissionais, com competências comportamentais de grande humildade e reconhecimento de que podemos sempre melhorar.

Obrigado a todos aqueles que me deram o espaço para errar, perceber o erro, “baralhar e dar de novo”.