Helena Almeida: Uma obra em movimento sempre acompanhada pelo marido

O trabalho da artista Helena Almeida, que morreu hoje, aos 84 anos, em Lisboa, regressa sempre aos gestos primordiais da Humanidade, como andar e abraçar, movimentos que o marido, o arquiteto e escultor Artur Rosa, retratou durante mais de 50 anos.

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© Impala

Quando, em 2013, realizou uma das maiores exposições sobre a sua obra, no espaço BES Arte & Finança, em Lisboa, Helena Almeida falou sobre o seu processo de trabalho, em conjunto com o marido.

Com obras que recuavam até 1977, e um conjunto de inéditos em Portugal, a exposição revelava, por exemplo, “Andar, abraçar”, um vídeo inédito, de 2010, de 19 minutos, no qual a artista aparece com o marido, o arquiteto e escultor Artur Rosa, e liga uma das pernas de cada um com um fino cabo elétrico.

Com esta ligação, agarrados pelas pernas, percorrem o ateliê da artista, até o chão negro ficar riscado de branco.

Questionada pela Lusa, na altura, sobre o papel do marido, Artur Rosa, ao longo da sua obra, já que ele fotografou todo o seu trabalho, e foi a única pessoa, além da artista, a participar nas composições, Helena Almeida comentou: “Eu iria estranhar se fosse outra pessoa”.

“Eu estranharia se fosse alguém com quem não tivesse intimidade. Para mim não é importante que seja um grande fotógrafo. Interessa-me que fotografe aquilo que eu quero. É o fundamental”, salientou.

“O Artur percebia bem o que eu queria, e estava sempre disponível. Quando éramos novos ele tinha muito trabalho de arquitetura, mas mesmo assim vinha para o ateliê e trabalhávamos”, recordou ainda Helena Almeida.

Artur Rosa, por seu turno, também presente na visita à exposição, disse à Lusa que nunca teve de fazer nada mais do que aquilo que Helena pedia: “Eu fui sempre conduzido”, resumiu.

Uma das principais características do trabalho de Helena Almeida reside no facto de a artista aparecer sempre nas imagens, vestida de preto, por vezes com objetos ou móveis que fazem parte do seu estúdio.

“Foi o Delfim [Sardo, curador da exposição] que descobriu que eu fazia muito isto do andar e abraçar na minha obra. O meu trabalho pode ser abordado de muitas maneiras. Ele abordou desta maneira, que é interessante”, disse a artista à agência Lusa.

Delfim Sardo, curador da mostra, apontou que andar e abraçar são “gestos que pertencem a um léxico humano primeiro”, são “fundadores da Humanidade”.

Já este ano, em janeiro, quando a artista ficou em destaque, com a exibição fotografia e desenho, na Tate Modern, em Londres, Helena Almeida disse à Lusa ter ficado “radiante” com a exposição de obras suas naquele museu, durante todo este ano.

A criadora de “Tela Habitada” e da série “Desenho (com pigmento)”, que pertencem à coleção da Tate Modern, disse ter ficado muito satisfeita, porque o museu “recebe milhares de visitantes”.

A exposição encontra-se patente no espaço In the Studio, da Tate Modern, que apresenta ciclicamente núcleos dedicados a vários artistas, para dar aos visitantes uma experiência do processo criativo.

Na mesma sala estão obras dos artistas Mark Rothko, Bridget Riley e Gerhard Richter, a quem Helena Almeida teceu elogios: “São artistas ótimos, e é muito bom ter o meu trabalho ao lado deles”.

A Tate Modern possui no seu acervo cerca de 40 obras de Helena Almeida, que já foi anteriormente alvo de exibição no museu.

“Recebemos a comunicação do museu e não estava nada à espera”, comentou ainda a artista, nascida em Lisboa, que representou Portugal na Bienal de Veneza em 1982 e em 2005, e recebeu os prémios PhotoEspaña, em 2003, e BESphoto, em 2005.

Helena Almeida, nascida em Lisboa, é uma das artistas portuguesas com maior projeção internacional, representada em diversas coleções estrangeiras, e a sua prática artística abrange a fotografia, o vídeo e o desenho, evoluindo a partir de uma interrogação permanente da linguagem da pintura.

O seu trabalho encontra-se representado em coleções como The Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque, Tate Modern, em Londres, no Museu Nacional de Arte Reina Sofía, em Madrid, e nas coleções Gulbenkian, Berardo e Serralves.

A exposição “Do Tirar Pelo Natural – Inquérito ao Retrato Português”, patente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, abre exatamente com uma obra de Helena Almeida, disposta a toda a largura do átrio de acesso, com a sombra da artista em movimento constante: “Ouve-me”.

LUSA