Gestão em saúde: Análise e melhoria de processos na prestação de cuidados

Filipa Breia Fonseca, investigadora, professora assistente e gestora da saúde no Nova SBE Health Economics and Management Knowledge Center, em entrevista à Revista Pontos de Vista, fala sobre a qualidade dos serviços de saúde prestados em Portugal.

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A Filipa Breia Fonseca é investigadora em Gestão de Saúde. Para contextualizar o leitor, que aspetos abrange este conceito?

O conceito de gestão de saúde é bastante abrangente e envolve alguma complexidade. Como investigadora na área da gestão da saúde verifico que os profissionais que operam nestas duas áreas, têm que ser dotados de muita formação, treino e atualização de competências dentro das suas profissões. A gestão em saúde está dependente da integração da contribuição individual de cada um dos profissionais para um objectivo comum. O desafio é sobretudo gerir as inúmeras situações que acontecem em simultâneo acrescidas de uma dose de imprevisibilidade. No fundo, para gerir bem em saúde será necessário garantir que os bons profissionais e a sua expertise sejam facilitadas e capacitadas por bons sistemas e processos eficientes para que se consiga um bom desempenho. Os gestores precisam de expandir a sua atenção, não só sobre o que os indivíduos fazem individualmente, como também não descurar como é que as várias peças dos processos se unem e se inter-ligam.  Nunca esquecendo que o objectivo maior será sempre a vida do paciente.

 

Que principais desafios se enfrenta numa área de investigação desta complexidade?

As organizações de saúde independentemente do seu tamanho são e serão sempre complexas. Como investigadora verifico que os serviços de saúde apresentam incontestáveis contradições. Por um lado temos pessoas excepcionalmente bem treinadas, com formação e motivadas, com a melhor ciência e tecnologia à sua disposição que se esforçam diariamente para curar, tratar, e aliviar a dor e o sofrimento dos pacientes. Por outro lado, o seu esforço colectivo é marcado por custos altos, baixa qualidade, falta de recursos humanos, fraca remuneração e uma frustração implacável para os colaboradores e para os pacientes.

Uma forma de responder aos desafios em saúde significa criar as rotinas diárias de detecção de problemas que impedem a eficácia, resolvê-los para que eles não sejam recorrentes e partilhar os erros que aconteceram localmente para que se consiga um impacto positivo no sistema. Sabemos que não existe uma solução mágica para conseguir fechar as lacunas sobre aquilo que é conseguido hoje e aquilo que é teoricamente possível fazer.

Hoje em dia as iniciativas em torno da segurança do doente, consistem até mais em resoluções organizacionais e numa abordagem de sistemas devidamente enquadradas numa cultura local de segurança, do que em esforços centrados em agentes diretos de prestação. Para além disso, o papel das equipas e das organizações e a melhoria de processos para obter melhores níveis de segurança é algo fundamental.

 

Abordou, numa apresentação no âmbito da sessão “Segurança: uma Chave do Sistema de Saúde” os problemas e propostas no que diz respeito à gestão da segurança do doente. Fale-nos um pouco sobre esta intervenção.

Tenho tido a oportunidade de falar deste tema em diversas conferências  nacionais e internacionais. Para além disso, durante este ano o Nova SBE Health Economics and Management Knowledge Center, do qual faço parte, ofereceu vários cursos nas áreas da gestão e economia da saúde. Num deles também abordei esta temática.

Relativamente à questão que me coloca gostaria de salientar que a segurança do doente, tem sido desde os anos 60  até aos nossos dias um assunto de muita pesquisa e debate.

Na “6th Annual World Patient Safety, Science and Technology Summit” em Fevereiro deste ano, o Diretor geral da WHO alertava para o facto de 10 em cada 100 pacientes na Europa terem problemas com eventos adversos nos hospitais, isto é, ocorrências indesejáveis que causaram danos ao paciente.

Existem inúmeros obstáculos que prejudicam a segurança do doente, posso dar-lhe dois ou três exemplos simples. O ego por exemplo, ou seja uma perturbadora atitude ego protetora que ocorre quando o staff rejeita inovações que têm que ser implementadas, que fazem com que tornem as suas competências menos relevantes. Sabemos que muitas das vezes os profissionais de saúde séniores ativamente se opõe a métodos mais seguros. Outro exemplo é o jogo da culpa, isto é, a grande dificuldade que existe nos profissionais em não assumir o erro, culpando automaticamente o outro pelo sucedido. Outro obstáculo ainda é perceber a lacuna que existe entre o trabalho que é percebido pelos gestores e o trabalho que é executado pelo front-line staff nos hospitais. Este intervalo é endémico no top down da condução da segurança.  A segurança do doente é também muitas das vezes prejudicada pela falta de transparência. Creio ser vital os profissionais de saúde reportarem os incidentes nos sistemas de reporte de erros de forma transparente e sem receio de represálias.

Um dos sistemas de informação mais usual para detectar os erros, é baseado no reporte voluntário e confidencial das ocorrências, promovendo assim a sensibilidade aos mesmos e aos riscos no local de trabalho. Através da investigação local de incidentes e da análise de diversos incidentes agregados, pode gerar-se informação útil e criar programas para identificar e corrigir as fraquezas e os problemas.

Quando falamos de segurança do doente e como melhorar a mesma, estamos a falar de que aspetos, em concreto?

Existem vários factores a por em prática que podem melhorar a segurança do doente, nomeadamente: i) A notificação, isto é, quanto maior for a eficácia do sistema de notificação, maior a probabilidade de existir uma maior segurança do paciente. ii) Garantir uma maior visibilidade do erro e das suas implicações aos mais variados níveis através de relatos, auditorias, listas, revisão de processos e participação dos doentes. iii) Usar os resultados da análise de dados para formular recomendações para executar alterações no sistema e no próprio processo: criação de bases de dados de fácil registo e acesso, com informação relacionada com a segurança dos doentes; (ex: infecção hospitalar, erros de prescrição).

 

Em Portugal, a segurança do paciente é um assunto suficientemente debatido ou valorizado?

Deveria ser um assunto mais debatido, mas sim hoje em dia é muito valorizado. Muitos dos hospitais portugueses fazem a análise de erros e incidentes e isto origina muitas das vezes a revisão de vários processos e a melhoria dos mesmos.

O que acontece é que as próprias equipas de saúde são chamadas a cuidar dos processos e procedimentos do seu local de trabalho, da mesma forma como cuidam dos seus doentes. Diferentes métodos têm sido utilizados para este fim. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido e o Institute for Healthcare Improvement nos Estados Unidos adaptaram e disponibilizaram várias destas técnicas para os projetos de melhoria contínua em saúde. Por exemplo, na criação de grupos de trabalho para dar resposta ao fluxo permanente de informação de segurança, na melhoria de processos nas passagens de turnos, nas normas de prescrição manual, nos armários de medicação e nos próprios programas de treino.

Será contudo necessário divulgar o sucesso que alguns hospitais apresentam nestes programas de melhoria, para que possam inspirar outros a adoptar e a implementar os mesmos.

 

O que é importante saber ou realçar relativamente à gestão de saúde e gestão da segurança do doente?

No que diz respeito à gestão de saúde penso que gestores e profissionais desta área  deverão estudar o fluxo de trabalho para melhorar as tarefas individuais; ser encorajados a não omitir e transpor nenhum procedimento que seja considerado perigoso; a ação do gestor deverá ser “go and see for yourself”, isto é, tentar resolver os problemas localmente. Isto será uma forma padronizada para os executivos de visitar as enfermarias e falar diretamente com o staff sobre os riscos de segurança.

No que diz respeito à segurança do doente e para que exista uma forte cultura de segurança é necessário que cada colaborador que trabalhe na área da saúde se comprometa com a sua instituição e faça da segurança a prioridade número um.

Nesse sentido, as medidas que respondem a qualquer erro reportado devem ser usadas como processos de aprendizagem. O erro com mais potencial para causar dano ao doente deverá ser mais visível para os profissionais e eventualmente para os próprios doentes. Para isso deverão ser criados processos de detecção precoce ao erro.

Nenhuma das ferramentas criadas e adaptadas para a segurança do paciente, isto é, relatos de incidentes, auditorias, “care bundles”, listas, revisão de processos, “triggers”, deve ser considerada como supérflua e dispensável na prática clínica.

Existem na verdade muitas formas de melhorar a segurança do paciente, mas para que o progresso seja equilibrado, será importante não esquecer que os profissionais da saúde são humanos.