A Sustentabilidade e a Complexidade Circular

Crónica sobre economia circular por Diogo Almeida Alves.

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Vivemos numa sensação constante de apocalipse planetário. Vivemos num mundo que enfrenta crises agrícolas, aquíferas e energéticas, é assolado com a poluição atmosférica, a destruição florestal e a subida das temperaturas ou com a ocorrência cada vez maior de tufões e sismos. E em todos esses cataclismos, há uma palavra-chave que se apresenta como sendo a solução (pelo menos na teoria). E esse termo é sustentabilidade. A dura realidade é que uma prática sustentável é algo que tem, forçosamente, de ser visto de uma forma holística e sob múltiplos prismas uma vez que esta só será possível se houver uma combinação de fatores que promovam a mesma. E uma abordagem sustentável implica desenhar sistemas que permitam atingir esse objetivo, modificando os modelos de negócio e de sociedade para atacar problemas globais, de um ponto de vista politico, económico, social e ambiental.

Tal constatação está na origem daquilo que se designa por modelos de negócio circulares ou circular business models. Tal como Al Gore nos diz na sua sequela inconveniente “A Verdade ao Poder”, a revolução da sustentabilidade associa a escala da revolução industrial à velocidade da revolução digital. E num mundo tão conectado e em constante mutação como o atual, o sentido e missão da economia circular vai muito além dos 3Rs (reciclar, reutilizar e reduzir) que nos foram ensinados em tenra idade, dada a complexidade dos processos, tecnologias e temas transversais à mesma.

Segundo a Fundação Ellen MacArthur que tem como missão acelerar a transição para uma economia circular, esta tem três princípios fundamentais: atacar o desperdício e a poluição, manter produtos e materiais em uso e regenerar sistemas naturais. A realidade é que esta gestão do ciclo não é trivial, uma vez que implica minimizar a utilização de recursos, ao mesmo tempo que se procura aumentar eficiência, adaptar o ritmo da produção e desmaterializar soluções produtivas que permitam ajudar em toda esta dinâmica. Embora a definição seja bastante abrangente, a verdade é que a sua execução prática varia bastante consoante o local onde é aplicada.

No mês passado, a mesma fundação apresentou no encontro anual de ciência e tecnologia do Fórum Económico Mundial em Tianjin, na China, no qual tive a oportunidade de participar como representante de Portugal, um relatório que apresenta a oportunidade da economia circular para a inovação industrial e urbana do mesmo país. A sua visão foca-se, essencialmente, em 5 pilares: reduzir o impacto ambiental relacionado com os edifícios, em temas como o seu desgaste ou a poluição; promover uma politica de mobilidade que possa utilizar materiais reciclados e ir na direção de uma lógica de emissão zero de carbono; aplicar medidas de regeneração de sistemas de produção alimentar; utilizar recursos mais eficientes na produção têxtil; e aplicar metodologias de reciclagem e re-manufactura no mercado de bens de consumo eletrónicos.

Também este ano, a Comissão Europeia lançou um plano de ação que: procura reduzir o impacto do uso de plásticos, com um claro foco nos plásticos encontrados nos mares e oceanos; melhorar a legislação no que toca à ligação entre a produção, os químicos e os desperdícios; e promover uma melhor utilização de matérias primas. Por outro lado, definiu ainda uma framework de progresso com 10 indicadores-chave no âmbito da economia circular tendo em conta as suas principais fases bem como outros aspetos relevantes, como o investimento na mesma ou a promoção da inovação na sua aplicação.

Da análise das politicas e medidas enunciadas nos dois casos apresentados, é importante referir que os sistemas de economia circular refletem realidades com prioridades e desafios comuns mas também diferenciados. E é desta comprovação que a abordagem multi – stakeholder celebrizada pelo Fórum Económico Mundial ganha uma nova dimensão. Para se entender o real impacto e eventuais soluções para os desafios que a economia circular pode resolver, é necessária uma interligação entre os diferentes agentes do tecido económico, empresarial e social uma vez que só com todos estes sentados à mesma mesa é que teremos uma fiel representação das várias áreas essenciais à formulação e desenho do sistema circular, seja na produção, na reutilização, na reciclagem ou no consumo.

Diogo Almeida Alves é Vice-Presidente na A2D Consulting, que se dedica à transformação digital de grandes empresas e à capacitação do capital humano para enfrentar a era digital. Está a escrever um livro que se foca na origem, evolução e intersecção dos 4 elementos da natureza com a humanidade e a tecnologia.

É ainda Professor Convidado na Universidade Católica Portuguesa onde leciona Empreendedorismo e Inovação, Director da Associação Federal Alemã de Sustentabilidade e Global Shaper do Fórum Económico Mundial. Viveu e trabalhou em quatro continentes durante cerca de uma década. Estudou em Lisboa, Paris, Hong Kong e Londres e tem um Master of Science in Business Administration.

Ao longo dos próximos meses, e nas próximas edições desta crónica sobre a economia circular, o autor irá retratar várias áreas fundamentais sobre a mesma, bem como exemplos e casos de estudo inovadores e inspiradores sobre o tema.