People walk with their belongings as they flee the rebel-held town of Hammouriyeh, in the village of Beit Sawa, eastern Ghouta, Syria March 15, 2018. REUTERS/Omar Sanadiki TPX IMAGES OF THE DAY

Por outro lado, a poucos dias do fim do prazo para a concretização do acordo para a criação de uma zona desmilitarizada na província de Idlib, último bastião da Oposição ao regime sírio, a AI apelou aos países envolvidos para que evitem uma nova catástrofe humanitária nesta zona.

“O que vi em Raqa chocou-me no íntimo. Edifícios bombardeados, água corrente e eletricidade quase inexistentes e um odor a morte no ar. Que alguém consiga viver aqui desafia a lógica e é um testemunho da notável resiliência da população civil”, disse o novo secretário-geral da organização, Kumi Naidoo, citado num comunicado da AI.

Kumi Naidoo devia falar hoje numa conferência de imprensa em Beirute, no Líbano, para dar conta dos resultados de uma deslocação ao terreno, mas um problema com os vistos impediu a sua presença.

O responsável da AI adianta que os ataques da coligação liderada pelos Estados Unidos, há quase um ano, “mataram centenas e deslocaram milhares de civis”.

Muitos destes, acrescentou, estão a regressar à cidade em ruínas, enquanto outros “definham” em campos de deslocados.

Kumi Naidoo sustentou ainda que a “mesma terrível realidade” é vivida por sobreviventes em outras cidades, onde as forças russas e sírias, “destruíram hospitais e instalações médicas, escolas e infraestruturas”, privando as populações de “direitos básicos”.

Com o prazo para a implementação de uma zona desmilitarizada na província de Idlib – 15 de outubro – a chegar ao fim, o responsável da AI expressou, por outro lado, receios pela proteção dos civis, especialmente os que vivem fora da referida zona.

“Como o Presidente Bashar al-Assad disse nas suas mais recentes declarações públicas, este acordo é temporário, o que significa que os civis não estarão protegidos muito tempo, especialmente aqueles que vivem fora da zona desmilitarizada”, alertou.

“O povo da Síria habituou-se a falsas promessas de segurança, especialmente da Rússia e do governo da Síria. Monitorizaremos a implementação da zona desmilitarizada para continuar a denunciar as violações das leis humanitárias internacionais cometidas contra civis por todas as partes em conflito”, disse.

Kumi Naidoo assegurou que “os olhos” da AI estão em Idlib, instando a comunidade internacional a “não olhar para o lado”.

“Os nossos receios pela população civil em Idlib baseiam-se no registo de completo desprezo pelos princípios fundamentais de humanidade do governo da Síria”, sublinhou.

A Amnistia Internacional documentou dezenas de ataques ilegais a civis por parte, quer do governo sírio, com o apoio da Rússia e do Irão, quer de grupos armados da Oposição, apoiados pela Turquia e outros países.

Dezenas de milhares de civis foram mortos e mutilados, dezenas de milhares foram submetidos a desaparecimentos forçados, arbitrariamente detidos e torturados.

Milhões de civis foram deslocadas internamente e privados de alimentos e de outras necessidades básicas, milhares deles depois de terem sido alvo de ataques pelas forças do Governo e, em menor medida, por grupos da Oposição.

“Todas as partes, incluindo o Governo sírio e seus aliados e a coligação liderada pelos EUA, devem facultar às vítimas e suas famílias uma reparação completa”, considerou o secretário-geral da AI.

O responsável acusou o Governo sírio de continuar a cometer “crimes de guerra que incluem ataques a civis em Ghouta e Daraa orientais, deslocação forçada de milhares e bloqueio da ajuda das agências humanitárias.

Pelo menos 3.273 pessoas morreram, incluindo 1.287 civis, em Raqa durante os mais de quatro messes (entre 5 junho e 17 de outubro) da ofensiva contra o grupo Estado Islâmico (EI) por parte de uma coligação liderada pelos Estados Unidos da América e que integrava as Forças Democráticas Sírias (FDS), uma aliança de combatentes curdos e árabes apoiada por Washington.