A ponte entre academia e empresas em Portugal

Portugal está a formar cada vez mais doutorados, mas a taxa de integração destes em empresas é escassa.

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Fazer um doutoramento em Portugal é cada vez mais um exercício complexo e ao mesmo tempo interessante de se fazer. Entender o contexto de ter um doutoramento também. Com a massificação e alguma desvalorização das licenciaturas e dos mestrados pós-bolonha, realizar um doutoramento é hoje uma forte alternativa e forma de diferenciação curricular e profissional num mercado de trabalho muito complicado e de difícil entrada.

Educação, formação, ensino superior de excelência, crescimento e qualificação pessoal e profissional, produção científica e inovação são bandeiras de um país desenvolvido e em crescimento, também associadas a um doutoramento. As universidades portuguesas formam mais doutorados que nunca, 3000 novos doutores por ano – valor de louvar – mas ainda abaixo dos valores totais recomendados pela OCDE no seu relatório preliminar em 2017. No entanto, o panorama deixa de ser tão positivo quando se percebe que alguns doutorados podem estar nos sítios errados e com as suas qualificações subaproveitadas.

Portugal tem uma clara escassez de doutorados integrados no tecido empresarial nacional, evidenciada em diversos estudos ao longo dos anos e reforçado pela OCDE. Apenas cerca de 4% dos doutorados em Portugal trabalham numa empresa (dados Advencis 2015), estando mais de 80% nas universidades e nos centros de investigação, muitos em situação laboral precária e a viver num pós-doutoramento de bolsa em bolsa. Estes valores reduzidos levam ainda a maior apreensão quando comparados com taxas de integração em empresas superiores a 30% em países como a Bélgica, Holanda e Dinamarca, ou mesmo com os distantes 40% nos Estados Unidos da América.

O tecido empresarial português é formado por 98% de pequenas e médias empresas (PME’s), que apresentam ainda alguma impermeabilidade e relutância à integração de doutorados nos seus quadros, tanto pela falta de recursos financeiros e massa crítica como pela cultura empresarial nacional não reconhecer ainda plenamente a mais valia de um doutorado. O crescimento e melhoramento da qualidade das empresas, associado a modernização, inovação e sofisticação está dependente de profissionais mais qualificados, e os doutorados não estão a entrar nesse circuito. A economia nacional tem a ganhar com uma maior fixação de doutorados no tecido empresarial e com o desenvolvimento de programas específicos para trazer o conhecimento especializado às empresas e por consequência à sociedade.

As parcerias entre academia e empresas continuam a ser reduzidas e devem ser incentivadas através de doutoramentos em empresas e instituições não académicas, quer através de Programas Doutorais quer através de bolsas individuais de doutoramento, ambos através da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Mas o fomentar desta sinergia não recai apenas na tutela da FCT. É necessário aproximar universidades e empresas, aumentar a comunicação, falar a mesma ‘’língua’’, reduzir o desfasamento de interesses que ainda existe entre a realidade académica e a realidade empresarial. É fundamental que doutorados altamente especializados façam parte do sistema produtivo português.

No seguimento destas necessidades nacionais, Coimbra recebeu a primeira edição do Simpósio Drugs R&D. Este simpósio internacional foi organizado pelos doutorandos da 1ª edição do Programa Doutoral FCT em empresas, em Investigação e Desenvolvimento do Medicamento (Drugs R&D), da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

O evento decorreu nos passados dias 27 e 28 de Setembro e conseguiu reunir 12 empresas farmacêuticas e de biotecnologia, desde multinacionais a empresas start-up, 5 Universidades portuguesas e figuras de relevo no panorama socio-económico e cientifico nacional. Ao longo dos 2 dias de evento, 25 oradores apresentaram as suas perspetivas e participaram em debates com foco na colaboração entre academia e empresas e na translação de ciência do laboratório até ao mercado. É importante realçar a lotação esgotada do evento, com 320 participantes que tiveram a oportunidade de ver e ouvir os intervenientes desta sinergia essencial para a economia portuguesa.

Incentivar ciência e investigação básica e fundamental é também essencial, até pela necessidade continua do aumento de doutorados nos quadros das universidades e centros de investigação. No entanto, o dever de garantir que as gerações mais qualificadas de sempre do nosso país, resistentes às dificuldades económicas da última década, participem e sejam absorvidas pelo sistema produtivo é real e imperativo. A competitividade do tecido empresarial depende em parte deste paradigma, com benefícios claros para os trabalhadores, para as universidades, para as empresas, para a ciência e para o país. Felizmente, sairíamos todos a ganhar.

João Calmeiro, Investigador e Presidente da Comissão Organizadora do 1st Drugs R&D PhD Symposium