OPCO e a Aeronáutica em Portugal

A Revista Pontos de Vista conversou com Pedro Silva, Managing Partner da OPCO, que nos deu uma visão sobre o setor da aeronáutica em Portugal. Mas pode o nosso país entrar na Europa e no mundo da aeronáutica? Para o nosso entrevistado a resposta é clara, “sim, claro. Terá é que haver a vontade, não só das empresas, mas principalmente dos políticos, em colocar Portugal nesse mundo”.

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OPCO surge em 2006 como uma startup ligada à consultoria. No entanto, em 2015, apresenta-se no mercado de forma independente do grupo original. Porquê esta mudança?

A mudança teve a ver essencialmente com a necessidade de darmos um outro rumo àquilo que vinha sendo a estratégia da empresa, de nos concentrarmos em algumas, poucas, áreas-chave e apostar no desenvolvimento de relações externas, fosse com colaboradores ou com clientes. Acima de tudo, dar um rumo mais assertivo e focado à estratégia da empresa, reforçando tudo aquilo que já fazíamos bem, eliminando a dispersão por outros temas ou por outras áreas e concentrando os recursos nas nossas atividades principais.

Hoje, passados três anos, podemos afirmar que essa foi, sem dúvida, uma aposta ganha?

Sem qualquer dúvida que sim. Nestes três anos a empresa cresceu, certificou-se, estabeleceu novas parcerias e prepara-se para apresentar outras novas ao mercado. fez crescer consideravelmente a sua base de especialistas, cimentou de forma definitiva a OPCO junto da sua base de clientes e junto dos seus parceiros internacionais, como por exemplo a VDA QMC. Podemos dizer que não é por acaso que a OPCO tem sido convidada a participar em várias atividades, em Portugal e no estrangeiro, como por exemplo, a conferência regional da VDA, realizada este ano no Porto.

Inicialmente com uma forte ligação à indústria automóvel, hoje a OPCO dá cartas no mercado da indústria aeronáutica. Que principais desafios ou preocupações acarreta este setor em Portugal?

Diria que, de forma diferente do atual estado do setor automóvel, na área da aeronáutica há ainda um caminho a percorrer. O setor tem crescido, principalmente depois da vinda da Embraer e, principalmente, com a participação de entidades portuguesas no projeto KC-390, mas há ainda que consolidar conhecimento, competências, ter nome e estrutura para poder ombrear, por exemplo, com a realidade de Espanha, completamente diferente da nossa. Claro que há sempre um caminho a percorrer, ao entrar numa nova área, e essa verdade aplica-se também à nossa realidade no mundo aeronáutico.

A OPCO tem vindo a apostar na formação para o setor aeronáutico. Portugal é um país maduro neste setor?

Não, não se pode dizer que seja. Como anteriormente referido, há ainda muito a desenvolver nesta área, seja a nível de competências nas áreas da qualidade, nas áreas dos serviços de apoio, sejam serviços de engenharia ou de, por exemplo, construção de ferramentaria. Para além das entidades que participam no projeto KC-390 e das multinacionais já instaladas em Portugal, ainda não se pode dizer que exista massa crítica suficiente. Para dar apenas um exemplo, existem em Portugal pouco mais de 220 entidades certificadas pela IATF16949. A nível da EN 9100 estamos a falar de um universo de cerca de 20 empresas certificadas. Toda esta diferença se reflete, claro, em todos os serviços associados e na disponibilidade e oferta de pessoal qualificado ou de formação reconhecida.

Qual é o futuro das qualificações e do trabalho na indústria aeronáutica? Que papel a OPCO pretende assumir neste âmbito?

O futuro passa pelo multiplicar da oferta de pessoal qualificado e será nessa área que as universidades, as associações do setor e as entidades governamentais terão um papel decisivo a desempenhar. Em termos de conhecimento, temos claramente as fontes do mesmo disponíveis, temos agora que olhar para a capacidade de aplicar esse conhecimento, de transformar o conhecimento técnico em valor, através da aplicação do mesmo. É nesse sentido que digo que as universidade, associações e entidades governamentais têm um papel fundamental, de modo a se adaptarem, de modo a passarem de uma realidade de necessidades industriais gerais para algo específico, neste caso, da indústria aeronáutica, e assim poderem, de forma cada vez mais objetiva, providenciar aquilo que as empresas necessitam.

Neste setor, Portugal pode afirmar-se como uma porta de entrada para a aeronáutica na europa?

Não diria uma porta de entrada, colocaria a questão numa perspetiva diferente, pode Portugal entrar na Europa e no Mundo da aeronáutica? E a resposta seria sim, claro. Terá é que haver a vontade, não só das empresas, mas principalmente dos políticos, em colocar Portugal nesse mundo. Compare-se, por exemplo, o atual momento de desenvolvimento, ligado ao projeto KC-390, e o que poderia ter sido a continuidade de Portugal, anos atrás, no projeto do Airbus A-400. Onde poderíamos estar agora?