É mesmo mais caro consumir 100% biológico?

É comum encontrar a justificação de não se consumir mais produtos biológicos por serem mais caros. Ora, enquanto fizermos uma comparação de preços direta, esta afirmação pode ser verdadeira, o que é certo é que o processo para se passar a “consumir biológico” é muito mais do que uma simples substituição de uns produtos por outros idênticos, mas com o certificado Bio. É sim, um caminho a percorrer tendo em conta uma mudança de estilo de vida, mais do que uma substituição “pura e dura” do cabaz de compra.

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Vejamos o exemplo de um consumidor que esteja num nível de consciência 100% bio: muito provavelmente já não consome semanalmente refeições de carne de novilho cuja gama baixa custe em média 5€/kg num hipermercado comum, e talvez substitua por pratos de lentilhas bio que vendidas a granel que custam em média 4€/kg num supermercado biológico por se ter tornado vegetariano com o tempo, ou pelo menos reconhece que não precisa de tantas refeições de carne por semana.

É um consumidor que aprendeu a evitar desperdícios, pelo que poupa muito dinheiro a não “deitar fora” alimentos que acabaram por se estragar por não haver tempo ou disponibilidade emocional para cozinhar quando se chega a casa. Como prefere introduzir na sua alimentação alimentos com valores nutricionais altos e baixos em calorias, opta por vários super alimentos como bagas goji, chia ou cacau cru, reduzindo assim naturalmente as doses diárias de alimentos pobres do ponto de vista nutricional como “fast food” entre outros.

Reduzindo as quantidades, reduz também o volume de compras semanais por que percebe que não é necessário “comer tanto” para manter uma alimentação completa e saudável.

Como o seu estilo de vida lhe permite ter mais tempo para cozinhar em casa, provavelmente opta por levar para o escritório uma refeição bio pronta que pode custar pouco mais de 2€ a confecionar em vez despender todos os dias em média 10€ para almoçar fora de casa. Irá evitar produtos muito transformados e de valor acrescentado por alimentos mais simples, baratos e naturais, e quem sabe, poupar no futuro em despesas de saúde porque uma predisposição para uma alimentação bio implica zero tóxicos no corpo e costuma vir acompanhada também de bons cuidados com a saúde física proporcionando um bem-estar consolidado e menos doenças em geral.

Além disso, sabe onde comprar: evita grandes superfícies onde os produtos biológicos se vendem com preços muitas vezes especulados e compram em supermercados biológicos ou mercados locais onde se praticam preços mais justos e acessíveis.

Feitas as contas, o verdadeiro consumidor bio, vai naturalmente fazer substituições de items mais caros no cabaz tradicional por outros mais simples, menos transformados e mais baratos bio, poupar evitando desperdícios, consumir melhor e mais natural, e certamente gastar menos no seu conjunto.

Claro que a alteração de estilo de vida é sempre a adaptação mais difícil e talvez a mais demorada em todo o processo, pelo que neste tipo de tópicos mais complexos, as comparações diretas nem sempre espelham o caminho real a percorrer para que a mudança para um verdadeiro consumo “bio” aconteça.

Por isso, é preciso compreender que muito para além das questões de poder de compra, preço de mercado ou o premium price geralmente associado a um produto certificado, o que verdadeiramente importa avaliar é a capacidade de mudança para um tipo de consumo biológico que implica muito mais do que uma básica troca de cabaz de compra.

Implica uma alteração a fundo de mentalidade e força para se alterar padrões de comportamento base como por exemplo este downsizing que acontece em geral na vida de quem decide começar a comprar de forma mais responsável, para si e para o mundo.

É caso para relembrar e reforçar a velha máxima: “less is more”.

Bárbara Leão de Carvalho, Diretora Executiva da Cooperativa Biovilla