Era este o percurso que ambicionava para si?

Interessei-me pela área de Gestão muito cedo. De certa forma, o mundo empresarial sempre me fascinou pelo seu dinamismo, desafio e complexidade.

Quanto estava no 12º ano comecei a pesquisar sobre as saídas profissionais possíveis e deparei-me com a área dos Recursos Humanos. Felizmente em 1998 o ISCTE lançou o primeiro curso de Gestão de Recursos Humanos e eu entrei no ano a seguir. Considerei de imediato que poderia ser uma mais-valia, pois ainda existiam poucas pessoas especializadas na área no país.

A Consultoria está presente na minha vida desde cedo também. Lembro-me de ser presença assídua nas apresentações das “Big Four” que visitavam o ISCTE, as quais se deslocavam às universidades para promover o sector e contratar estagiários. Ficava sempre fascinada com o que ouvia, com as brochuras que recebia e imaginava-me a trabalhar numa delas. Tinha esta ambição pois queria construir uma carreira no seio de uma empresa multinacional que me permitisse construir uma carreira internacional.

Nos últimos 15 anos tenho desenvolvido toda uma carreira internacional em torno da Gestão de Recursos Humanos. Já trabalhei em empresas nacionais e multinacionais, tendo trabalhado e vivido em Portugal e Angola. Recentemente abracei um novo desafio em Timor-Leste.

Posso afirmar que tudo aquilo que ambicionei aconteceu, e sou muito feliz por isso. Escolhi o meu caminho e corri sempre atrás dos meus objetivos.

No dia 25 de outubro lançou a sua própria marca. Em que momento da sua vida surge este projeto de consultoria? Porquê uma reviravolta no seu percurso profissional?

Todo o meu percurso profissional foi feito em torno da consultoria de Gestão de Recursos Humanos, exceto nos últimos três anos em que assumi a liderança de uma Direção de Recursos Humanos, acumulando também a posição de Board Member numa empresa de retalho alimentar e não alimentar.

Após 13 anos a viver em Angola em Maio regressei a Portugal. Durante 5 meses estive a viajar por África, Europa e Ásia e numa dessas viagens apercebi-me de que o meu recomeço em Portugal seria difícil pois o país não está preparado para receber alguém que esteve a trabalhar mais de uma década no continente africano. As empresas não dão o devido valor a quem esteve a trabalhar num mercado tão distinto de Portugal, apesar de ser muito mais exigente a vários níveis. Por esse motivo, e à medida que o tempo foi passando, fui ficando cada vez mais convencida de que o meu futuro não passava por Portugal.

Timor-Leste nasceu como uma escolha natural, já que os meus pais nasceram neste país e eu também tenho a nacionalidade. Estive em Díli, em Junho, a convite da União Europeia para participar numa conferência sobre o papel da Mulher timorense na nação. Durante os dez dias em que estive em Díli rapidamente constatei sobre as oportunidades existentes, mas também as necessidades de um país que só conheceu a sua independência há 16 anos atrás. Dadas às relações que tenho ao país, a minha decisão de criar um projeto que ajudasse Timor-Leste a crescer e a desenvolver foi quase automática.

Nasceu em Lisboa, mas esteve ausente do país durante 13 anos. Que desafios surgem quando se regressa a um país em tudo diferente da realidade que viveu até então?

Apesar de nunca ter perdido o contacto com Portugal nos 13 anos que vivi em Angola, Luanda passou a ser o lugar a que passei a chamar de casa. E mesmo fazendo inúmeras viagens por ano a Portugal, a verdade é que quando regressei a Lisboa senti-me deslocada. Os amigos já não eram os mesmos, as rotinas já não existiam, as conversas já não se enquadravam na minha realidade. Em termos profissionais apercebi-me de que as empresas não valorizam quem teve uma experiência dedicada a África. Apesar das relações e dos negócios existentes entre Portugal e os países lusófonos, essa experiência não é considerada para as empresas que se encontram sediadas em Portugal, quer sejam empresas nacionais ou multinacionais.

No entanto, a nova empresa será lançada em Díli, Timor-Leste, devido às suas origens. Qual será a estratégia e as facetas do projeto para singrar neste mercado?

Naturalmente que ser timorense, conhecer a cultura e os costumes é uma vantagem competitiva que me permitiu entrar no mercado facilmente. Ao longo dos últimos meses fui falando com diversas pessoas (nacionais e estrangeiras) que estavam ou estiveram em Timor para perceber os desafios, as dificuldades e as limitações do tecido empresarial, de forma a garantir que iria montar um projeto diferenciador e adequado à realidade do país. À medida que fui criando uma ideia mais consistente em torno do que pretendia que fosse o meu projeto, as ideias tornavam-se mais claras. Em Setembro contactei um amigo e pedi-lhe ajuda para montar o meu negócio, aproveitando os seus conhecimentos e experiência em startups. Desde o momento da ideia até ao lançamento da FORSAE em Díli, no passado 25 de Outubro, passaram 5 semanas. Felizmente tive a melhor equipa de estratégia e branding a trabalhar comigo. Definimos a estratégia de entrada no mercado, a marca, a identidade, o plano de comunicação e o lançamento. Para tal, contei com a ajuda fantástica da equipa da Zenki Group e da BUS – Creative Agency.

As mulheres empreendedoras têm vindo crescer e a conquistar o seu espaço. Mas é suficiente? Existem as mesmas oportunidades para mulheres e homens?

É verdade, cada vez mais as mulheres têm ocupado um lugar mais significativo no mundo empresarial, na criação de novos negócios. Em Portugal, não sei se será suficiente, mas claramente em Timor-Leste não é. Na cultura timorense a Mulher ainda assume essencialmente o papel de mãe e mulher. São poucas as mulheres que trabalham, e menos ainda as que se tornam empresárias ou que ocupam cargos de destaque no Governo. Por isso, acredito que desde a minha participação na Conferência da União Europeia a mentalidade do mercado timorense tenha mudado ligeiramente e que as mulheres irão gradualmente a alterar a sua condição de Mulher no país. É um grande desafio, que irá levar muito tempo para consolidar a mudança pretendida. Esta mudança de paradigma implica a alteração de valores e costumes muito fortes existentes na cultura timorense.

De igual forma, a presença feminina é cada vez maior no mundo dos negócios. É fácil ser-se mulher no mundo dos negócios? Alguma vez sentiu dificuldades ou enfrentou obstáculos pelo facto de ser mulher?

Felizmente nunca senti que tivesse um tratamento diferenciado por ser Mulher, no mundo empresarial. Sempre tive a sorte de trabalhar em empresas que respeitam e valorizam a igualdade de géneros, assim como, sempre trabalhei com parceiros e clientes em que ser Mulher nunca foi um problema ou obstáculo.