A Mercadona é líder no segmento de supermercados em Espanha. Que razões levaram a Mercadona a alcançar esta posição no mercado?

A Mercadona tem um Modelo de gestão próprio, muito bem definido, conhecido por todos os colaboradores, que nos permite estar todos orientados no mesmo sentido: satisfazer as necessidades dos nossos “Chefes”, como chamamos aos nossos clientes. É o Modelo de Qualidade Total, composto por cinco componentes, onde em primeiro lugar está o Chefe, que é como chamamos internamente ao cliente. Depois está o Colaborador, o Fornecedor, a Sociedade e, finalmente, o Capital. São todos igualmente importantes, mas com uma ordem sequencial, estando muito focados no Chefe, ou seja, no cliente.

Outro aspeto que nos caracteriza é o facto de na Mercadona seguirmos uma lógica inversa: primeiro perguntamos ao cliente que produto gostaria de ter e depois avançamos para a produção. O cliente é que nos diz o que devemos fazer, e é também por isso que lhe chamamos “Chefe”. Assim, envolvemo-lo no processo de inovação, e trabalhamos diretamente com os interfornecedores e fornecedores especialistas para introduzir novos produtos e melhorias nos produtos já existentes. É devido a este modelo circular, conhecido como Modelo de Coinovação, que os produtos comercializados pela Mercadona são desenhados à medida do “Chefe”, o que faz com que tenham mais s
ucesso e, portanto, fiquem mais tempo no mercado. De acordo com o estudo “O Valor da Inovação Conjunta” (entre a Mercadona e os seus interfornecedores), realizado pelo Institut Cerdà, a taxa de sucesso dos novos produtos lançados pela Mercadona é de 82%, enquanto a média do  é de 24% (dados de Nielsen).

Faz parte da estratégia comercial da Mercadona apelar ao consumo responsável? De que forma?

O consumo responsável está inerente à estratégia da Mercadona. São várias as políticas que adotamos nesse sentido: desde medidas contra o desperdício alimentar, pesca sustentável, projetos de colaboração com o setor primário, identificação dos nossos fornecedores nos rótulos de todos os nossos produtos (inclusive na marca própria), ampla gama de produtos sem glúten, entre tantas outras medidas. Queremos que os nossos clientes sejam conscientes e façam compras responsáveis, para isso desenvolvemos estas políticas, para garantir que qualquer produto que seja comprado na Mercadona não tenha comprometido nem prejudicado, nenhum elo da sua cadeia de produção.

O que é o consumo responsável e porque é importante, nos dias de hoje, a sua promoção?

O consumo responsável, de forma muito sucinta, trata-se de consumir produtos que no decurso de toda a sua produção e comercialização, foram respeitados todos os componentes da Cadeia Agroalimentar: matéria prima, setor primário, indústria, distribuição e consumidores, assim como os trabalhadores envolvidos, o meio ambiente, entre outros.

É muito importante que todos os consumidores percebam que o produto que está na prateleira do supermercado, tem todo um processo para trás que envolveu pessoas, fábricas, matérias primas. Não podemos olhar para o produto e dar-lhe valor apenas pelo preço que está na etiqueta. Existe toda uma cadeia de valor desde a matéria prima até ao produto final colocado na prateleira que necessita de ser respeitada e à qual se deve dar o devido valor.

Na Mercadona optámos por não fazer promoções e desenvolver a estratégia Sempre Preços Baixos (SPB), que nos permite ter preços constantes garantindo sempre a máxima qualidade. O SPB permite-nos dar maior estabilidade à cadeia agroalimentar, sem as tensões que provocam as promoções, o que também faz com que o desperdiço seja inferior. Permite também que estes fornecedores possam ter margens para os seus investimentos e possam produzir produtos com a máxima qualidade respeitando todos os intervenientes do processo de fabrico, permitindo ainda, que se foquem na inovação.

Por tudo isto somos da opinião que o consumo responsável deve ser promovido, para que todos sejamos conscientes do que envolve o trabalho conjunto de toda a Cadeia Agroalimentar e lhe demos o seu devido valor.

Desde que anunciou a entrada em Portugal, a premissa da Mercadona tem sido “em Portugal, queremos ser portugueses”. Como está a ser feita esta preparação da loja eficiente que a Mercadona vai trazer para Portugal?

A preparação das lojas tem corrido muito bem. Vamos implementar o nosso Novo Modelo de Loja Eficiente, o mesmo que tem sido implementado em Espanha desde 2016 e que continuamos a implementar. Na construção das lojas temos desenvolvido projetos muito interessantes de Responsabilidade Social da Empresa. Temos os exemplos do Canidelo, em Vila Nova de Gaia, onde, em colaboração com a Câmara Municipal de V. N. Gaia e da Junta de Freguesia do Canidelo, conseguimos proporcionar um novo estádio e todas as condições favoráveis à prática desportiva do Sport Clube do Canidelo, no qual cerca de 350 crianças desenvolvem as suas competências desportivas.

Noutra vertente de Responsabilidade Social, a recuperação do património arquitectónico, conseguimos devolver a Matosinhos, o edifício da Antiga Fábrica de Conservas Vasco da Gama, um edifício que se encontrava devoluto e que ganha uma nova vida. Neste edifício, preservamos a fachada principal, onde está o brasão original da conserveira, e a característica chaminé desta fábrica, que foram alvo de uma intervenção. São estes projetos que nos enchem de orgulho e que no próximo ano, quando abrirmos as nossas lojas, queremos que todos os portugueses partilhem este mesmo sentimento connosco.

Passados mais de dois anos desde o anúncio da internacionalização para Portugal, a empresa anunciou a abertura de oito a dez supermercados no próximo ano, indo além do objetivo inicial das quatro lojas, anunciado em 2016. Que fatores contribuíram para esta decisão?

Efetivamente vamos abrir dez lojas no segundo semestre de 2019, nos distritos do Porto, Braga e Aveiro. Chegou o momento em que nos apercebemos que o projeto estava a ser muito bem aceite pelos portugueses e por isso, fruto do progresso alcançado desde que comunicámos a nossa entrada em Portugal, há dois anos, que se deve, em grande parte, à aprendizagem do funcionamento do mercado português e também ao compromisso da equipa da Mercadona, que decidimos dar um passo maior e abrir dez lojas já em 2019.

Desde junho de 2016, quando anunciámos a nossa internacionalização para Portugal, dedicámo-nos a estudar o mercado e os consumidores portugueses para nos podermos adaptar a uma realidade que era nova para nós.

Como exemplo disso, temos o nosso Centro de Coinovação, que opera em Matosinhos desde setembro de 2017, onde as nossas equipas de Prescrição estudam detalhadamente os gostos e hábitos de consumo do Chefe Português (como a Mercadona chama aos clientes).

Elena Aldana é Head of European Affairs & External Relations na Mercadona em Portugal. Que desafios acarreta um cargo desta complexidade, profissional e pessoalmente?

Acarreta muitos desafios, pois é uma grande responsabilidade. Em conjunto com o Departamento de Obras e Expansão, fomos os primeiros a vir para Portugal e fui a primeira a viver cá – digamos que fui a “ponta de lança”. Na época, tivemos de desenvolver tudo desde zero: conhecer a Sociedade portuguesa, as instituições, os meios de comunicação, mas também ajudar os diferentes departamentos que precisavam de informação. A adaptação a Portugal tem sido um trabalho muito intenso e profundo, tudo isto porque na Mercadona somos conscientes de que devemos ser humildes e aprender antes de avançar. Agora podemos ver a luz, já estamos perto da abertura das primeiras lojas em Portugal e temos todos uma enorme vontade de que chegue o grande dia.

Em Bruxelas, estou no Board da EuroCommerce e também na ERRT: associações da Distribuição a nível europeu. É uma honra representar a Mercadona a nível europeu e acarreta também uma grande responsabilidade. Ainda não há muitas mulheres a ocupar estes postos mas esperemos que isso aconteça num futuro próximo.

Existem cada vez mais mulheres a liderar empresas em Portugal, no entanto, apesar dos progressos conquistados nos últimos anos, Portugal ainda está longe da paridade de géneros. A Elena Aldana passou por obstáculos relacionados com a desigualdade de género?

Considero que, infelizmente, no percurso profissional todas tivemos alguma experiência deste tipo. Por vezes temos a sensação de que as mulheres, em geral, necessitam de demonstrar muito mais para conseguir chegar ao mesmo lugar do que um homem. Infelizmente, quando as mulheres defendem os seus direitos, parece que estão contra os homens e não tem nada a ver. Dou imenso valor aos profissionais, sejam homens ou mulheres, no entanto as mulheres representam 50% da população mundial e ainda (em 2018) não estão em igualdade de condições.

Afirma-se que existem diferenças, vantagens e perspetivas que aportam as mulheres em posições de liderança, trazendo ganhos efetivos às organizações. Concorda? Que características são fundamentais para se ser um bom líder?

Concordo totalmente. Quando temos uma equipa diversificada em termos de género, idade, cultura, entre outros, quem ganha é a própria empresa, porque consegue ter um espectro mais amplo, ao estudar como avançar ou desenvolver determinadas estratégias.

Considero que um bom líder deve ser acessível, saber escutar, ser uma referência e o primeiro a dar o exemplo, mas também deve visualizar e prever possíveis problemas que possam surgir. Por outra parte, falamos sempre de “bons líderes” mas não de «bons colaboradores» e isto também deveria ser analisado: proatividade, responsabilidade e respeito, devem ser características nas duas direções. É assim que funciona uma boa equipa.