“O capacete, as botas e o colete nunca me intimidaram”

Lurdes Neves é Diretora de Obra na Famaconcret. Desde que se formou em Engenharia Civil soube que o trabalho que queria desenvolver seria no terreno “onde estão as pessoas”. Com uma experiência notável, Lurdes Neves, conta o que a motiva numa área em que a lama, o capacete, as botas e o colete são o outfit perfeito.

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Engenharia civil não era a sua área de eleição, mas as boas notas a matemática fizeram-na escolher o caminho da engenharia. “Entrei na faculdade completamente às escuras, sem saber para o que ia. Depois, com o decorrer do tempo fui-me apaixonando pela área. Quando terminei o gosto foi ainda maior. Tudo o que era teórico ficou para trás e passei a conhecer, a sentir as coisas e a lidar com as pessoas”.

Lurdes Neves trabalha em direção de obra há quase 16 anos e passando por várias empresas. Sair do país, apesar dos tempos conturbados que passou, nunca foi uma opção porque acredita que o país precisa de pessoas com garra e que queiram fazer o que fazem bem por cá. A teimosia em ficar levou-a a ter de se deslocar para Trás-os-Montes e até em Lisboa morou.

Chegou a criar a sua própria empresa mas por culpa da crise socioeconómica que Portugal sofreu acabou por vendê-la. Olhar para trás também não foi opção e recorda essa decisão como “a melhor medida a ser tomada na época”. Depois, voltou ao mercado que já conhecia tão bem.

“Ser mulher nunca foi um problema. Adoro ir para a obra”

“A maioria das mulheres que tiraram o curso na mesma altura que eu foram trabalhar para gabinete, fiscalização ou projeto mas eu sempre soube que queria estar no terreno porque é lá que a ação acontece, é lá que estou próxima das pessoas”.

“O capacete, as botas e o colete nunca me intimidaram para mim o importante é colocar a mão na massa, sentir as pessoas e com elas aprender e ver o trabalho desenvolvido na prática. Sempre gostei de aprender com os trabalhadores, quando saímos da faculdade não sabemos nada de prática e é no terreno que crescemos”, declara.

Soube que uma postura humilde lhe traria os melhores frutos e por isso perguntas do género “como é que acha que se faz?” ou pedidos “ensine-me, por favor” seriam a chave para que as pessoas confiassem e se abrissem.

“Depois destes anos todos, é muito gratificante perceber a empatia que consegui criar com todas as pessoas com que trabalhei em obra. Cada pessoa é uma cabeça, uma família e que tem os seus próprios problemas e isso tem de ser tido em conta.

Ao sermos compreensivos recebemos respostas muito positivas. Trabalhar em obra é dar muito e receber também. Igualar as pessoas é muito importante e uma forma de conseguir resultados positivos”.

Bom senso e espírito de humanidade são as características que a nossa interlocutora elege como fundamentais para se trabalhar na área “os trabalhadores é que fazem de nós bons ou maus profissionais, o relacionamento interpessoal não pode ser descurado”.

O que mais gosta no seu trabalho?

“Gosto muito de fazer direção de obra, de ser acompanhada, valorizada, fico muito mais entusiasmada quando sinto o reconhecimento pelo meu trabalho, como qualquer pessoa. Para mim, o gabinete serve para pôr a papelada em ordem e, por isso, o terreno é a minha grande paixão. Nestes anos aprendi a lidar com conflitos e a valorizar as pessoas no momento certo. Por norma, os trabalhadores sentem um sentimento de inferioridade e para mim isso não faz qualquer sentido. Não custa nada cumprimentar as pessoas, saber o nome das delas, afinal, todos, formamos uma equipa e ter outra atitude que não esta é completamente errado”.

Que conselho poderia dar a uma jovem engenheira civil que esteja a começar carreira?

“Muita dedicação e trabalho. Em qualquer profissão, só seremos boas profissionais se praticarmos muito. O Cristiano Ronaldo é um ótimo exemplo disso mesmo. Dedicação e trabalho são a chave para o sucesso. É como se diz ‘enquanto os outros dormirem, estuda ou trabalha para poderes ser melhor’. Estamos numa fase complicada quer para engenheiros experientes, quer para recém-licenciados. Se por um lado, os com mais experiência são mais caros, os recém-licenciados precisam de experiência. São financeiramente mais apetecíveis, no entanto a falta de experiência não ajuda na garantia da boa execução dos trabalhos”.