“O maior desafio enquanto líder é nunca deixar de ser mulher primeiro”

Ana Rito é Presidente da Direção do Centro de Estudos e Investigação em Dinâmicas Sociais e Saúde (CEIDSS) e, em entrevista à Revista Pontos de Vista, fala-nos sobre a importância do CEIDSS para a comunidade e sobre o seu papel enquanto mulher e líder.

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O CEIDSS é uma instituição experiente que centra a sua atividade no estudo e investigação em saúde e nutrição abordando os aspetos sociais e as desigualdades em saúde. Tem tido um papel muito ativo em projetos científicos na área da malnutrição infantil (onde se inclui a obesidade) a nível Nacional e Internacional.

Em Portugal centramos a nossa ação na proteção e promoção da saúde e prevenção da doença através de programas de base comunitária de nutrição, saúde e intervenção social. Ao nível Internacional destacamos o recente projeto Europeu CO-CREATE (Confrontando Obesidade: co-criando políticas com jovens) onde, em parceria com outras 13 Instituições de alto nível, desenvolveremos um projeto inovador que  trabalhará com adolescentes para criar, informar e disseminar políticas para combater a obesidade.

Afirma que tem sido “um absoluto privilégio dirigir um Centro de Estudos que se dedica a beneficiar a comunidade promovendo a saúde dos grupos mais em risco”. É o que a motiva diariamente?  

Certamente. Vivemos num país onde a obesidade é a doença mais prevalente na infância o que está intimamente relacionado com ambientes desfavoráveis e de risco. É para e com estes grupos que dirigimos a nossa atenção. Permito-me considerar que o CEIDSS consegue traduzir a ciência e a orientação política em ação e difunde bem a cultura científica. Estamos no meio, mas não estamos sozinhos. Aliás, trabalhamos muito bem com vários níveis da sociedade em plataformas intersetoriais. Só assim conseguimos o sucesso que alcançamos. Trabalhamos com e para quem governa, trazendo informação, mostrando a evidência científica que origina política e traduzimos os programas e orientações nacionais em projetos práticos e simples, mas bem fundamentados, no seio da comunidade. É por isso que trabalhamos bem com municípios, com escolas e com famílias, pois o nosso trabalho só faz sentido se identificarmos em conjunto as necessidades de quem vive e conhece essa realidade.

Quem é Ana Rito enquanto mulher, profissional e líder?

Dinamismo. É talvez a característica com que me identifico mais. Um dinamismo cuidado mas cauteloso, sempre em busca do aperfeiçoamento pessoal e profissional. Como mulher, mãe e filha, a família tem sido a estrutura multidirecional que necessito. Uma família em constante movimento e viagens forçando a um acompanhamento diário muito qualitativo e certeiro. A soma de experiências pessoais e profissionais que tive por ter vivido em 4 países (Portugal, Inglaterra, Brasil e Dinamarca) sendo liderada por pessoas, principalmente grandes mulheres de todos os níveis, culturas e disciplinas, tem contribuído muito para o meu crescimento como mulher, como profissional e como líder. Permite-me uma visão mais real, mais abrangente, mais rica, mais compreensiva que tento aplicar no mundo de trabalho. A minha equipa jovem, normalmente de mulheres e todas nutricionistas, recebe e interage melhor com esta dinâmica. Insisti desde sempre que o meu tempo e o da minha equipa seja organizado pelo cumprimento de objetivos onde a tecnologia é a maior aliada pois traz a liberdade de realizarmos atividades profissionais e pessoais em qualquer lugar e em qualquer momento.

A desigualdade de género continua a estar muito presente em Portugal. Esta é uma realidade para si? Sendo mulher, que desafios acarreta a liderança?

Creio que no trabalho a desigualdade de género tem vindo a diminuir, mas muito à custa de um organizado investimento e polivalência, característico de muitas mulheres, que provaram e provam diariamente o seu valor e se assumem em força no mundo profissional. Ao nível da Nutrição em Portugal, há seguramente mais mulheres que homens, sem contudo representar que sejam estas as que desempenham na maioria lugares de destaque. Mas estamos no bom caminho. Ser mulher e líder é um desafio constante, ter a sorte de trabalhar com muitas mulheres de várias gerações é uma aprendizagem enriquecedora. Ser líder implica dedicação, compromisso, organização, equilíbrio, apoio e compreensão da família e um malabarismo de situações constante com respostas rápidas mas cuidadas. Mas ser líder e mulher dá um outro sentido a tudo isto. Há uma atenção e um cuidado especial. Há uma forma de pensar mais emocional, mais partilhada, mais cuidada e por isso mais sustentável e sobretudo resiliente quando os problemas chegam. Oferece um dinamismo diferente por que traz a sua alma feminina e uma inteligência emocional mais apurada, mas de necessidade de crescimento e enriquecimento constante. Pelo que o maior desafio enquanto líder é nunca deixar de ser mulher primeiro.