“A palavra-chave da transformação digital é simplificação”

Com um sonho de criar um laboratório de inovação e com o objetivo de ajudar as empresas a alavancarem os seus negócios através da utilização inteligente da tecnologia, surge, em 2015, a Nau21. Rui Monteiro, CEO da Nau21,conta-nos mais sobre o propósito da empresa. Neste contexto e em colaboração com uma empresa luxemburguesa, a Nau21 focou, inicialmente, a sua atividade no desenvolvimento de soluções inovadoras de sistemas de pagamentos.

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Hoje podemos afirmar que a missão da Nau21 está a ser cumprida? Que posição assume atualmente no mercado?

Sim, a Nau21 mantém-se fiel ao princípio da sua fundação, acreditando que a inovação tecnológica é a principal “arma” que as empresas podem utilizar para assumirem papéis de relevo no mercado. As StartUps tecnológicas estão literalmente a revolucionar o mundo nas mais diversas áreas. Podemos ver alguns exemplos como  Lemonade, TROV, Slice. leaselock , dropin , N26 bank, Bitcoin, B3i, Uber, Airbnb, Netflix, as portuguesas Farfetch e Venia e a lista continuaria. Independentemente da área em que atuam há um ponto comum em todas elas, são todas empresas tecnológicas e revolucionaram o negócio na sua área de atuação.

Atualmente, conscientes que não seria possível sermos consequentes atuando em várias áreas de negócio em simultâneo, no início de 2018 efetuámos uma reflexão sobre quais as áreas de negócio e quais as tecnologias onde poderíamos acrescentar valor e contribuir de forma efetiva para uma mudança positiva. Decidimos focar-nos numa área específica – serviços financeiros -, nomeadamente em Seguros e com recurso à tecnologia Blockchain.

A empresa reforçou os seus quadros com um conjunto de consultores com uma elevada experiência na área de seguros e reconhecidos no mercado quer a nível de negócio quer a nível tecnológico.

Que desafios acarreta “navegar pelos mares” de um mercado global cada vez mais competitivo, onde a transformação digital e a inovação imperam?

Apenas uma pequena referencia ao nome da empresa, que espelha na perfeição a nossa
missão. Nau é o nome de um barco desenvolvido pelos Portugueses no séc. XIV, talvez a principal inovação portuguesa, e que criou melhores condições de navegabilidade, proporcionando a Portugal vantagens competitivas em relação a outras nações na era dos descobrimentos.

A escolha estratégica de exploração de uma tecnologia muito recente com muito poucas referências de utilização, com a exceção do bitcoin, acarreta um enorme desafio na medida em que mais do que navegar por mares competitivos estamos a navegar em mares desconhecidos. Por outro lado, o nosso sucesso irá permitir estar na vanguarda no desenho e desenvolvimento de soluções em blockchain.

É assim que a inovação assume um papel estratégico na nossa missão e tem merecido especial atenção, com a criação da área de Discovery Labs. Neste contexto, em parceria com instituições de investigação tecnológica e com incidência nas principais plataformas de suporte à implementação de “smart contracts”, temos analisado a aplicabilidade da tecnologia na área dos seguros, trazendo benefícios aos principais intervenientes no setor (as seguradoras, os segurados, os agentes, as resseguradoras e os brokers) através da implementação de modelos de negócio disruptivos, otimização dos processos de negócio e combate à fraude.

A Nau21 procura descobrir novas formas e novas soluções para impulsionar os negócios dos seus clientes. Quais são os maiores desafios e preocupações do tecido empresarial?

As empresas têm preocupações diferentes, consoante o seu estágio de desenvolvimento, nível de maturidade, ambiente envolvente e área de negócio em que operam.

As seguradoras debatem-se hoje com vários desafios, além do já referido aparecimento contínuo de novos players tecnológicos no setor, as seguradoras operam num complexo ambiente regulatório com reveladas necessidades de capital e num desfavorável contexto macroeconómico, com taxas de juro muitos baixas, que limita consideravelmente as opções de gestão de ativos. Por outro lado, vivem com a pressão de um consumidor cada vez mais conhecedor, mais exigente, mais impaciente, mais conectado.

A retenção e interação com os seus clientes é uma real e estrondosa oportunidade de negócio. Companhias digitais de topo como Facebook e Amazon já demostraram que a informação e interação com os seus clientes são os seus principais ativos e não se deram muito mal com isso.

Segundo a consultora McKinsey, nas companhias de seguros cerca de 50% dos seus custos resultam dos departamentos de IT e Operações. Nesse sentido a otimização dos custos operacionais é um ponto comum na agenda de todas as seguradoras.

Qual é o verdadeiro impacto da transformação digital no setor de seguros?

Creio que a palavra-chave da transformação digital é simplificação. A digitalização das operações de negócio, transversalmente a toda a cadeia de valor, vai aproximar cada vez mais os clientes à sua seguradora, com as consequências que daí advêm.

Por um lado, os clientes vão esperar serviços e ofertas mais rápidos, mais simples e personalizados, muito à semelhança da experiência que já vivenciam noutras áreas como o retalho e a banca, onde já se encontram implementados avançados sistemas de vendas online. É esperada também uma simplificação dos processos de contratação e de participação de sinistros.

Por outro lado, esta proximidade e melhor conhecimento, dos seus clientes traz para a Seguradora uma maior fidelização dos seus clientes e consequentemente boas oportunidades de explorar up-selling e cross-selling dos seus produtos e serviços. Também a automatização dos seus processos de negócio irá reduzir significativamente os seus custos operacionais e, assim, permitir a oferta de preços mais competitivos.

O mercado de seguros precisa de investir, cada vez mais, em inovações tecnológicas. Quais são as vantagens para as empresas e para os seus clientes?

Inovação é o que mantém as empresas vivas. Desde logo, o simples facto de uma empresa estagnar é uma questão de tempo até desaparecer no mercado ou ser “atropelado” pela entrada de novos players mais ágeis, mais preparados. Não é preciso muitos argumentos e mais uma vez há variadíssimos exemplos disso como: KODAK, ERIKSON, TOYSR’us, BLOCKBuster, SEGA, Polaroid, Pan am, Nokia ou Blackberry.

Independentemente da área em que atuam ou atuaram há um ponto comum em todas elas. São empresas que dominaram o seu mercado e não souberam inovar e adaptar-se aos novos desafios e à realidade que os rodeia.

Além do aspeto óbvio da sobrevivência, a inovação tecnológica é uma estratégia de longo prazo e um mindset muito próprio.

As empresas que investem em inovação conseguem aumentar a sua competitividade frente aos seus concorrentes, surpreender os seus clientes com novos produtos e serviços, bem como reduzir os seus custos operacionais com melhorias em processos.

Para continuar a inovar há por assim três caminhos possíveis, cada um com as suas vantagens e desvantagens. Fazer parcerias com StartUps, criar os seus próprios programas de R&D dentro da empresa ou um misto das duas opções.

A Nau21 está sediada no centro tecnológico da Universidade do Porto – UPTEC –, o que permite estabelecer uma colaboração próxima com o meio académico e de investigação tecnológica. Que importância assume esta colaboração?

A Nau21 está sediada na UPTEC, o que nos permite estabelecer uma colaboração próxima e profícua com o meio académico e de investigação tecnológica. Desde a possibilidade de propor estágios académicos, envolvendo-se na definição e acompanhamento de projetos e teses de mestrado dos alunos da Universidade, discutir desafios com professores doutorados com profundo conhecimento nas mais diversas áreas tecnológicas, poder contar com a colaboração de instituições de investigação.

Também a UPTEc representa um ecossistema de startups tecnológicas onde se testemunha o surgimento de inúmeras ideias de negócio e onde podemos ter um papel ativo, partilhar experiências e explorar sinergias entre as diferentes empresas.

Atualmente, a Nau21 está a desenvolver uma plataforma em blockchain. O que é a tecnologia blockchain? Fale-nos um pouco sobre esta plataforma e as suas mais-valias.

De uma forma muito resumida, Blockchain é uma tecnologia que surgiu em 2009 e que serviu de base, na sua primeira fase de desenvolvimento, para o surgimento das cripto moedas (ex: bitcoin) e, numa fase posterior, ao aparecimento dos “smart contracts” (contratos que são programados em linguagem informática).

Basicamente, é uma tecnologia que faz o registo de dados de uma forma distribuída por todos os elementos de uma rede, reduzindo ao máximo o número de intermediários e utilizando mecanismos de estabelecimento de confiança/consenso quanto aos dados guardados. Oferece integridade, transparência, imutabilidade, simplicidade e acima de tudo o princípio de “não repúdio”, fundamental quando se pretende automatizar a execução de contratos.

Atualmente, a Nau21 está a desenvolver uma plataforma em blockchain que irá permitir o processamento distribuído e colaborativo de contratos – Smart Insurance System – e onde será possível instanciar diferentes casos de uso considerando dois dos principais processos de negócio das seguradoras – a subscrição de apólices e a participação de sinistros. Com base no nosso conhecimento e experiência no mercado segurador, acreditamos que é possível explorar modelos de negócio disruptivos e contribuir de forma efetiva para uma mudança de paradigma na gestão de seguros. Benefícios claros em várias frentes como: Combate Fraude, Novas experiências para o utilizador, incremento da eficiência operacional, maior competitividade

Blockchain é um importante aliado das Seguradoras que pretendem um posicionamento distintivo e inovador num mercado altamente competitivo.