Em que momento da sua vida surge este desafio? Porquê?

Em 2016 percebi o quanto estava insatisfeita na minha vida profissional e comecei a refletir acerca do motivo pelo qual foi perdendo a inspiração que tanto me caracterizava e me fazia mover. As limitações sentidas eram gigantes e eu tinha noção que se não tivesse ousadia para sair do sistema em que me encontrava estaria a resignar-me à estagnação. Decidi então procurar novas oportunidades a partir da minha rede de contatos networking. Surgiu uma proposta de trabalho em Amsterdam como Psicóloga Clínica na Psy-Noord Psychotherapie. Não foi fácil deixar a minha família, mas eu sabia que esta era uma grande oportunidade de poder mudar a minha vida. Depois de um ano e meio a trabalhar nesta clínica, tomei a decisão de abrir a minha própria clínica porque percebi que precisava de implementar um novo estilo, uma nova forma de atendimento mais inovador e de acordo com as novas técnicas psicoterapêuticas. 

Qual é a premissa da clínica? Que valores definem o seu trabalho junto das pessoas?

Respeitar a sua confidencialidade, um aspeto necessário à relação terapêutica e fundamental para que o processo psicoterapêutico funcione.

Os valores que prezo e agrego à minha prática são os princípios éticos, exercer com competência, responsabilidade e integridade, procurando sempre o bem-estar e o crescimento saudável do paciente, no respeito pela sua privacidade, dignidade e alteridade. 

Que papel a clínica pretende assumir no país? Como é que está a saúde mental dos portugueses?

A Mental Health Clinic pretende assumir um papel relevante na saúde mental dos portugueses contribuído para a compreensão do indivíduo, podendo trabalhar a relação do mesmo com a sua história, suas expectativas para o futuro e suas relações com a sociedade, assim como o contexto social a que pertencem.

Portugal tem uma das mais elevadas prevalências de doenças mentais da Europa. A par desta constatação surge uma outra que demonstra que há um défice de cuidados acentuado e que perto de 65% das pessoas com perturbações mentais moderadas e 33,6% com perturbações graves não recebem cuidados de saúde mental adequados.

É importante refletir sobre o estigma que recai sobre o doente mental que começa logo na própria designação que lhe é atribuída e que reflete todos e quaisquer cuidados para não ferir suscetibilidades, mas, ao mesmo tempo, abre a porta para uma diferenciação negativa, fazendo com que o doente se refugie no silêncio da sua angustia.

Isabel Henriques desenvolve, paralelamente, trabalho clínico na Holanda e Portugal. É fácil para uma mulher conciliar uma carreira profissional de sucesso com a vida pessoal?

Não é nada fácil! Estaria a mentir se dissesse o contrário. Conciliar a carreira profissional e vida pessoal é possível, mas há que saber fazer uma boa gestão com o tempo entre trabalho e família. Sinto falta de tempo para estar com quem mais amo, no entanto quando lanço a ancora no meu porto seguro sinto falta das águas agitadas da minha vida profissional. A emoção fica mais forte nestes momentos nos quais sinto a necessidade de alçar novos voos e ir em busca de algo mais na minha carreira. Estas “apostas” requerem muito foco e energia.

Quem é Isabel Henriques enquanto mulher e empreendedora? 

Sou uma mulher apaixonada pela vida e pela profissão, sensível, comunicativa, observadora, objetiva, ambiciosa e lutadora. Confio em mim, sei que na vida há ganhar e perder, não tenho medo de enfrentar desafios e correr os seus riscos. É isso que me dá vida e me faz correr atrás do que quero e do que de facto acredito. A persistência e resiliência faz com que eu consiga concretizar o que os outros, por vezes, acham que é impossível.

Portugal é o 6º país do mundo com melhores oportunidades e condições de apoio para as mulheres prosperarem enquanto empreendedoras. Mas que verdadeiros desafios as mulheres ainda enfrentam no empreendedorismo e nas questões relacionadas com a igualdade de género?

Uma maior aversão ao risco por parte de mulheres, impedindo-as de prosseguir com os seus projetos. Isto pode dever-se ao facto de ainda existir um mindset negativo associado à criação de do próprio negócio, refiro-me principalmente à minha geração, acredito que em gerações mais jovens tal tendência esteja a mudar, pelo menos assim o espero, de forma a combater esta falta de aceitação cultural.

Outro fator que vejo como barreira para o empreendedorismo é a dificuldade a apoio financeiro por parte da banca. No entanto, estatísticas indicam que cerca de 40% das atividades começadas por mulheres caem na área de retalho, enquanto que áreas como Saúde e Finanças apenas retêm 23% e 15% respectivamente da quota de mercado. Talvez estes números expliquem de certa forma a dificuldade de acesso ao capital por parte das mulheres, uma vez que a área de retalho é uma das industrias mais abundantes em Portugal. Um maior shift para áreas da tecnologia, saúde e finanças poderia originar um comportamento diferente por parte das instituições financeiras.

Existe um outro ponto que não deve ser negligenciado, sendo este a carga fiscal sobre as empresas. Em Portugal, por cada 100€ de lucro, 40€ vão para impostos, o que no fim de contas está alinhado com a média apresentada pelos os outros países da OECD. A grande diferença reside, obviamente, nos rendimentos absolutos resultantes em Portugal em contraste a países com uma economia mais forte, por exemplo, Holanda. A isto deve ser acrescentado o tempo que uma empresa deve dedicar a formalidades administrativas, que em Portugal ronda as 243h por ano, enquanto que a média OECD é de 163h.