Foi por isso que vi tanta dor diante da devastação causada pelos incêndios no ano passado. Pedrogão Grande, Sintra, Monchique – todos nós conhecemos os incêndios que espalharam destruição. Alguns de nós irão lidar com as consequências destes incêndios florestais durante anos, ou mesmo décadas. No entanto, não estamos sozinhos – os incêndios estão a arder em todos os continentes. 2017 foi devastador para Portugal, 2018 para a Califórnia. Este ano o incêndio de Monchique durou 7 dias, mas foi preciso todo o mês de agosto para extinguir os incêndios do Complexo de Carr e Mendocino, nos EUA. O último relatório do IPCC, deste Verão, sugere que as alterações climáticas podem tornar os incêndios florestais 30% mais prováveis num futuro próximo. À medida que a intensidade e a destruição dos incêndios florestais aumentam, muitas iniciativas são criadas para prevenir desastres e proteger as pessoas, as propriedades e a Natureza.

Eu, cientista de dados, e a minha sócia co-fundadora Isabella, jornalista, decidimos enfrentar o grande problema dos incêndios florestais em meados de 2017. Não podíamos simplesmente sentar-nos e ver Portugal ter tantas pessoas expostas a tão grandes riscos. Começamos por compreender o cerne do problema e por que razão ainda não existe uma solução para ele. Falamos com todos – famílias das vítimas, advogados, bombeiros. E descobrimos algo interessante – a prevenção é a maneira mais eficaz. Depois que o fogo começa, nossos bombeiros fazem um trabalho incrível, no entanto as mudanças climáticas estão a dificultar cada vez mais o combate às chamas. A mitigação é o caminho a seguir, especialmente para um país do Sul da Europa como Portugal. Descobrimos que as condições meteorológicas são difíceis de serem previstas com alta precisão e não podem ser humanamente controladas. No entanto, podemos ajudar a preparar o ambiente de forma que, quando os incêndios comecem, os bombeiros possam conter mais facilmente este fenómeno natural. Isto é feito principalmente através da limpeza da vegetação, criando barreiras corta-fogo e espaços defensáveis à volta das propriedades.

Ótimo! Mas como é possível saber onde é crucial fazer essa preparação? A paisagem rural portuguesa é vasta, com muitas áreas escassamente povoadas. Isto fez-nos pensar – e se o fizéssemos a partir do espaço? A Agência Espacial Europeia, juntamente com outras organizações e empresas privadas, fornece gratuitamente imagens retiradas de satélites em órbita da Terra. Essas imagens de satélite captam muito mais do que o que é visível pelo olho humano. Eles ajudam-nos a detetar a desflorestação e ver claramente as áreas ardidas. Podemos ver se existem espaços defensáveis em torno das propriedades. Podemos fornecer um índice de segurança contra incêndios florestais para cada parte do país – a casa de campo da sua avó, o terreno da sua agricultura familiar, o armazém e escritórios da sua empresa e as nossas florestas. Tudo o que necessitamos é a capacidade de baixar, interpretar e armazenar essas imagens. Nós podemos fazer isso.

As imagens de satélite são grandes em tamanho. Isso significa que trabalhamos com Big Data, usamos a ciência para ler e entender o que as imagens dizem sobre o mundo natural e, quando necessário, aplicamos algoritmos e Inteligência Artificial para interpretar melhor os resultados. Usamos tecnologia para um bem maior, para proteger o que nos é caro, assim como aos nossos concidadãos portugueses. Somos Firefly.

Deixem-me fazer-vos um convite aberto. Olhem para o céu noturno, mas não para as estrelas. Olhem para as constelações de satélites que orbitam a Terra a 28 mil km por hora. São pequenos e são incontáveis. Sintam a sua presença à nossa volta. E saibam que nós, assim como outras muitas pessoas em todo o mundo, usamos a informação transmitida para a Terra a partir destas caixas de titânio para nos proteger de desastres naturais.

 

Créditos: Iwona Orlowska Marques