“Os plásticos e o ambiente: O outro lado da história…”

"... de pouco serve termos embalagens bem concebidas e fáceis de reciclar se no final o consumidor não adotar os comportamentos de separação e deposição seletivas".

3437

Por vezes, quando se conta uma história, opta-se por contar apenas uma parte dessa história, aquela que mais convém ou interessa partilhar… Mas a verdade é que só é possível entendermos o real contexto quando estamos na posse de toda a informação, ou seja, da história completa. Nos dias de hoje, este é um dos problemas de que “sofre” o material plástico, já que grande parte das alegações mais frequentes se baseiam em mitos.

 

 

O plástico, enquanto material versátil que é, veio revolucionar a nossa sociedade de consumo nas mais diversas áreas, como sejam: embalagem, transportes, saúde, eletrónica, construção, entre outras, contribuindo globalmente para a minimização de impactes e custos ambientais.

 

 

Fonte: Trucost Plastics and Sustainability: A Valuation of Environmental Benefits, Costs and Opportunities for Continuous Improvement, July 2016.   Costs shown in US Billion dollars.

Mas de um momento para o outro, como que por magia, este material passou a ser percecionado, um pouco por todo o mundo, como o mal de todos os males, em que o tema da poluição dos oceanos se tornou o principal veículo. Mas ao contrário do que se possa imaginar, os plásticos que aparecem nos oceanos têm na sua maioria origem em terra, cerca de 80%, onde o maior contributo provém de países asiáticos e africanos, onde não existem sistemas de recolha eficientes. A contribuição da Europa para este problema, que existe e que é grave, é cerca de 1%. E portanto o problema, em si, não é o facto de serem plásticos mas o facto de terem sido abandonados, ou seja, estamos perante um problema comportamental!

Fonte: Jambeck et al Research Report – “Marine Pollution: Plastic waste inputs from land into the ocean”, Feb 2015.

E ao invés de se procurar combater a raiz do problema, não, opta-se por olhar para o lado e visar o material, restringindo a sua utilização. Talvez seja a via mais fácil, mas certamente a mais errada. Proibir pura e simplesmente o uso do plástico representa um retrocesso ambiental, económico e civilizacional. Antes de se querer proibir um determinado produto deve-se estudar previamente o impacto de tal medida, de forma a garantir a sua sustentabilidade, proporcionalidade, segurança e viabilidade. A este nível, o estudo nunca ficará completo se não forem avaliados, através de análises de ciclo de vida, os impactes dos produtos de materiais alternativos, cujo desempenho ambiental é bastante inferior ao plástico.

Fonte: The impact of plastic packaging on life cycle energy consumption and greenhouse gas emissions in Europe: Executive summary July 2011, Bernd Brandt and Harald Pilz.

Infelizmente, esta análise nem sempre é efetuada, levando muitas empresas, não só pelo mediatismo que o tema plástico tem tido como também pela pressão dos próprios consumidores, nem sempre devidamente informados, a tomar opções que no final se vêm a revelar menos sustentáveis que a opção inicial e contrárias à economia circular. Temos como exemplo prático a substituição dos copos de plástico de polipropileno, um material reciclável, por copos de “papel”. Contudo, este copo dito de “papel” é plastificado no seu interior, podendo inclusive sê-lo também no exterior, quando projetado para acondicionar bebidas frias, por questões de condensação. Resultado, passamos de um monomaterial reciclável, para um material complexo não reciclável. Na prática, a solução encontrada em nada beneficiou o ambiente, muito pelo contrário. E como este, muitos outros casos têm tido expressão no mercado.

É, pois, essencial que todos os atores que integram a cadeia de valor do material desenvolvam ações que contribuam para a circularidade do plástico. Em primeira instância, é fundamental que as embalagens, por via do ecodesign, sejam projetadas cada vez mais para a reciclagem e para o ambiente, com o propósito de aumentarmos a sua reciclabilidade, sempre com o princípio básico de não comprometermos a sua função. Neste capítulo, a inovação, com recurso à investigação e desenvolvimento de novos materiais, produtos e ou tecnologias, ganha uma relevância extrema. Paralelamente, é fundamental que a incorporação de material reciclado nas mais diversas aplicações seja impulsionada.

No entanto, de pouco serve termos embalagens bem concebidas e fáceis de reciclar se no final o consumidor não adotar os comportamentos de separação e deposição seletivas. Esta simples atitude será decisiva para o desígnio da gestão de resíduos em Portugal, nos próximos tempos, desde logo, pelos objetivos futuros a que o país está obrigado em matéria de taxas de reciclagem e de deposição em aterro, ambas bastante ambiciosas.

Em resumo, todos nós, enquanto consumidores, temos um papel determinante no caminho para a sustentabilidade e economia circular, quer pela via de um consumo cada vez mais racional, quer pela adoção de um comportamento mais cívico e mais responsável na forma de descarte dos resíduos gerados. O Ambiente envolve-nos a todos e a responsabilidade também… 

Nuno Aguiar, Técnico Superior na APIP – Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos