“A Ordem dos Engenheiros não pode continuar a ser uma espécie de INATEL dos ricos”

Construir uma nova Ordem, mais ativa, participativa, liderante e atenta ao que se passa com a profissão são as demandas da Lista B, uma das listas candidata às eleições da Ordem dos Engenheiros. Paulo Bispo Vargas é o candidato a Bastonário e, em entrevista, explica que ambições tem o Movimento Mais Engenharia.

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A Ordem vai novamente a eleições… E em 2016 a sua lista reuniu cerca de 25% dos votos. Nestes últimos três anos o que é que não aconteceu?

Estes últimos três anos na Ordem foram anos perdidos sob o nosso ponto de vista. Uma vez que a atual direção mais não fez do que gerir alguns dossiers e apostar em coisas que na nossa opinião não fazem grande sentido e continua a existir um grande distanciamento entre a direção da ordem e os engenheiros.

Como principais flagelos observamos a perda de influência da classe, o desprestígio da profissão com a ausência da empregabilidade e as más condições de trabalho. A Ordem continua apenas focada na internacionalização, fazem protocolos com países da América Latina, alegadamente para promover a mobilidade dos engenheiros mas não se vê expressão nesse sentido. Existem casos mais importantes aqui em Portugal como o caso do desemprego.

Por exemplo, se um engenheiro português estiver desempregado não pode recorrer à ordem como forma de apoio, o que indica que os propósitos estão desviados da realidade e que aspetos como estes além de contribuírem, de forma passiva, para a perda de trabalho dos engenheiros, ainda vemos que os interesses dos engenheiros não estão salvaguardados. Existem cada vez mais arquitetos a ocuparem o lugar dos engenheiros e não se nota uma mudança de rumo neste sentido. A somar a isto vê-se um comportamento reativo e não preventivo. Pouco se vê e se sabe da Ordem…

É necessário colocar especialistas das diversas áreas da engenharia a falar sobre assuntos que acontecem na sociedade onde a engenharia tem a obrigatoriedade de intervir. Tal não tem acontecido. A par disto de tudo isto, vemos a falta de democracia na ordem como algo muito preocupante, não me lembro de alguma vez ter havido um referendo na ordem para saber o que os seus membros pensam de determinada situação.

Além de mudar estes aspetos começaremos por reavaliar todos os protocolos e o que não tiver interesse será para eliminar. Assim como toda a política de realização de eventos. Tem de haver uma descentralização e começar a apostar fortemente nas delegações por todo o país, reabilitá-las, equipa-las, mantê-las abertas. Tais organizações são de extrema importância porque são o primeiro contacto com os engenheiros.

Numa nota introdutória pode ler-se que estas eleições serão as mais importantes dos últimos dez anos. Porquê?

Fui funcionário da ordem durante cinco anos, no Porto, e sempre me interessei pela potencialidade da OE. Sou um pouco sonhador e acredito que devemos privilegiar a meritocracia e, por isso, sinto-me desanimado em perceber que o ser engenheiro em Portugal tem vindo a sofrer um declínio.

A ideia de que apenas existe uma única lista vai piorando de ano para ano. É muito difícil criar alternativas. Eu próprio já dediquei bastante tempo a esta causa e, por isso, ou se muda agora ou quanto mais tempo passar mais difícil será mudar.

Tem de haver uma mudança geracional. São sempre os mesmos a ocupar-se da Ordem, chamam-lhe sistema de rotatividade interna em que a única pessoa que muda é o Bastonário e isto é inaceitável.

A OE não pode ser uma espécie de Inatel dos ricos. O trabalho da Ordem não se pode basear em festas e visitas internacionais.

De todo o programa apresentado, quais são as propostas mais urgentes?

A primeira medida a ser tomada será descentralização da Ordem. Menos festas, menos passeios e visitas internacionais. A Ordem tem que se focar na defesa da profissão e ouvir mais os seus membros. Isso implica ter posições mais firmes, assertivas e enérgicas na defesa dos engenheiros. Neste sentido vamos começar por ouvir o que os Colégios têm a dizer sobre o que está por fazer.

Queremos criar legislação, não abdicamos de tentar definir valores mínimos para a profissão e com isto refiro-me aos salários baixos que estão em vigor e aos quais os engenheiros portugueses têm muitas vezes de se submeter ou então imigrar – quando ir para fora deve ser uma opção e não a única opção-.

Em termos de atos de engenharia pretendemos definir o que é um ato de engenharia ou não. Vamos arranjar uma forma de tabelar os preços dos atos, se o mesmo acontece noutras áreas, porque não acontecer também na engenharia?

O investimento em parceiros tecnológicos e em startups de qualidade é também uma das nossas principais demandas.

Em termos de reestruturação interna queremos desmaterializar sistemas, reduzir o número de declarações e até fazer obras nos edifícios da Ordem e das delegações.

Nos próximos anos, se Portugal quiser evoluir vai precisar de Engenheiros, quer na ferrovia, ou para se reindustrializar, o nosso país vai ter que voltar a produzir, o ornamento do território também parece algo esquecido.

Neste momento achamos que temos de construir uma nova Ordem e é para isso que vamos trabalhar.

Joaquim Nogueira de Almeida

 

É de novo candidato à Vice-Presidência da Ordem dos Engenheiros, qual é a sua motivação?

É sem dúvida ter mais e melhor engenharia em Portugal. Existe uma necessidade de mudança na defesa da engenharia, no ensino e na sua promoção. São várias as lacunas que têm se ser eliminadas.

Mas a sociedade parece não sentir essa lacuna. Pode explicar melhor por exemplo a questão do ensino?

 Na realidade tudo tem de estar interligado. Se não veja, o ensino tem de resolver alguns problemas nomeadamente na interligação com as empresas, em Portugal há um grande défice nesta situação. Bem sei que depende muito do dinamismo das empresas e do mercado de trabalho, por isso o ensino deveria promover programas específicos para esta matéria. Dou como exemplo a execução de curtos estágios profissionais durante a formação académica para o desenvolvimento de projectos específicos nas empresas e sujeitos a avaliação académica. Outra questão é a discussão do próprio currículo, tem de ser revisto e actualizado, nomeadamente na questão das matérias a ensinar tendo em conta a rápida evolução técnica em que nos encontramos. Temos de encontrar outros modelos e antecipar problemas, para que o país e as famílias não invistam em profissionais não motivados ou desnecessários.

 

Mencionou também a questão da promoção da engenharia. De que forma propõe melhorar essa questão?

Hoje em dia o marketing é uma ferramenta imprescindível, não basta ser bom profissional, tem de se promover esse facto. Ainda se verifica um tímido acordar sobre este assunto, mas promover a engenharia não é somente ter uma presença mais forte e bonita nas redes digitais, é ter simultaneamente uma acção de promoção junto dos órgãos de decisão como sejam os governos, as autarquias e as empresas. É nisto que estamos a falhar. Veja o caso tão badalado sobre o direito dos engenheiros fazerem ou não arquitectura. Uma questão com um desfecho medíocre para as ambições dos engenheiros civis e incompreendida pela sociedade. Não houve a devida informação sobre esta matéria. Todo o movimento à volta desta questão tem por base uma Directiva Comunitária e o acordo de Bolonha. Afirmo claramente, que os engenheiros não souberam promover o seu saber nesta questão. Por que razão Engenheiros de outras nacionalidades podem fazer arquitectura em Portugal? Por que razão Engenheiros portugueses podem fazer arquitectura noutros países e no seu não? Não concorda que é bizarro e injusto? Ao longo dos tempos a História tem mostrado que os engenheiros sempre fizeram arquitectura pelo que deviam continuar a fazer nem que para isso houvesse necessidade de ajustar algumas cadeiras do curso.

E sobre a defesa da engenharia, o que está a falhar?

Está a falhar o essencial. A engenharia é o principal motor da inovação e do suporte básico de uma sociedade. A engenharia é que permite a internet, a inteligência artificial, os telemóveis e todos estes últimos avanços ligados à área digital. É também quem garante o correcto funcionamento das infraestruturas físicas onde vivemos e que precisamos para o nosso conforto de vida, sejam edifícios, estradas, ferrovias, portos, aeroportos, redes de eletricidade, fibra óptica, águas, esgotos, gás, etc. Sendo uma profissão essencial na sociedade por que razão está praticamente ausente nas decisões governamentais? Porque é que tem salários inferiores aos médicos e advogados, por exemplo? Porque é que tantas actividades de engenharia são efectuadas por não engenheiros? Porque é que mais de dez mil engenheiros tiveram de sair do país nos últimos 5 anos? A resposta é simplesmente porque não tem havido um trabalho correcto por parte de quem nos representa. Razão porque me candidato pela LISTA B para termos UMA NOVA ORDEM.

Inês Mota

 

Que motivos a levaram a abraçar este projeto de pertencer à Lista B?

A vontade de contribuir para uma Ordem mais próxima de todos os engenheiros. Uma Ordem dos Engenheiros sustentada numa política de equidade de oportunidades, de géneros e de melhoria de condições de trabalho e valorização profissional

Quais são as suas maiores preocupações enquanto engenheira e membro da Ordem dos Engenheiros?

A não sensibilização da sociedade do ato de engenharia, assim como a débil atuação na defesa dos interesses da profissão na sociedade civil.

O distanciamento entre a atual Ordem e os seus associados, com a não existência de um espaço online para acompanhamento, esclarecimento e partilha de experiências, de documentos, regulamentação necessárias à prática da engenharia.

A degradação continua da engenharia a nível nacional que se tem verificado quer pela saída de Portugal de mais de 10.000 engenheiros nos últimos cinco anos, quer pela contratação de profissionais de Engenharia para áreas puramente comerciais, como por exemplo, para agências imobiliárias.

A engenharia tem vindo a sofrer algumas mudanças, nomeadamente, na questão de género. Cada vez mais mulheres escolhem fazer carreira em áreas de engenharia. Em algum momento sentiu algum tipo de discriminação por ser mulher?

Existem áreas da Engenharia em que predomina o sexo feminino, como é o caso da Engenharia Química.

Não irei por isso generalizar a todas as áreas mas sim focar apenas na minha área de atuação, ou seja, na área de Engenharia Civil.

Nunca senti discriminação profissional ao longo da minha carreira. E como tal considero que a diferença de género não diferencia os profissionais. Mas falo apenas por experiência própria, acredito que colegas minhas possam tê-lo sentido, até porque já ouvi desabafos nesse sentido.

Existem bons e maus profissionais, em todos os géneros, e apelo às entidades patronais que sejam efetuadas avaliações com base somente nas competências técnicas, desempenho, ética e capacidade relacional.