Miopia de curto-prazo: o seu inimigo número um

"Estas empresas tornam-se reféns dos acionistas devido à sua incapacidade de inspirar colaboradores, investidores e clientes a construir o futuro. Foram apanhadas num círculo vicioso do qual é difícil escapar devido ao estilo dos seus líderes".

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A tendência para ignorar o futuro é uma “doença” que afeta inúmeras empresas Portuguesas. A memória das transformações sofridas nas duas décadas anteriores não pode ser ignorada – os avultados apoios comunitários não evitaram a erosão causada pela integração de Portugal no Mercado Comum; os nossos gestores rejeitaram olhar para o futuro e preparar uma estratégia de longo prazo. Era mais fácil manter o “status quo” e tal ditou o afundamento de setores onde pensávamos ser fortes, mas onde facilmente capitulamos para rivais estrangeiros muito mais agressivos e criativos.

Contudo, este não é um fenómeno unicamente português. Muitas grandes empresas internacionais atingem um estado em que o seu sucesso conduz a uma fase de apatia e complacência. O livro “How the Mighty Fall” de Jim Collins – que recomendo como excelente leitura – explica em detalhe este processo de desgaste. Muitas grandes empresas cotadas em bolsa acabam reféns dos seus acionistas. A pressão para expandir o seu valor bolsista obriga a uma luta constante para superar resultados financeiros a cada trimestre. Se, por um lado, tal ajuda as organizações a se superar continuamente, por outro compromete a visão futura – a falta de tempo obriga a que a maioria dos projetos de longo prazo sejam relegados para o fundo da lista de prioridades em detrimento das ambições de curto prazo.

O exemplo Tesla e o visionário Elon Musk

Elon Musk e o seu carisma já nos ensinaram diversas lições. O mais marcante empreendedor do Século XXI mudou completamente a face de muitos setores até então vedados a novos incumbentes – pagamentos electrónicos (PayPal), automóvel (Tesla), aeroespacial (SpaceX), tendo também dado um ar da sua graça nas renováveis através da SolarCity.

Contudo, a Tesla é o mais claro exemplo do seu génio. Criada em 2003, a empresa nunca apresentou lucros anuais e evidencia necessidades de financiamento de $6500 a cada minuto (fonte: Bloomberg, 30/04/2018) – a que acresce o facto de nunca ter oferecido dividendos aos seus acionistas desde a sua OPA em 2010. Apesar deste aparente desastre financeiro, as ações da Tesla valorizaram 2000% em 8 anos.

Como sabemos, os acionistas investem a pensar em futuras mais-valias mas o enorme paradoxo preconizado pela Tesla prova que é possível repelir a maior parte das pressões de investidores e dirigir esforços para concretizar grandes objetivos de longo prazo.

Musk, para além do carisma persuasivo, continuamente definiu e superou objetivos altamente ambiciosos que muitos viam como puramente impossíveis – a Gigafactory (a maior fábrica de baterias do mundo), uma rede própria de concessionários e uma rede mundial exclusiva de carregadores elétricos. Todos estes são “milestones” altamente ambiciosos e inspiradores – a própria missão da Tesla como líder na luta contra o motor de combustão interna é por si só uma inspiração. A cada meta épica que define e supera, Musk não só motiva os seus colaboradores a se esforçarem cada vez mais, como também atrai mais investidores dispostos a apoiar estes enormes feitos. Para além disso, tal atrai mais e melhor talento, sequioso por fazer história. Eles sabem que um dia a Tesla dará lucro, mas, entretanto, a sua missão é salvar o mundo.

Moral da história: lidere com inspiração e aspiração

Olhemos outra vez para as empresas da “velha economia” que trimestre após trimestre tentam incrementar o seu valor bolsista através de resultados financeiros – o contraste é claro. Estas empresas tornam-se reféns dos acionistas devido à sua incapacidade de inspirar colaboradores, investidores e clientes a construir o futuro. Foram apanhadas num círculo vicioso do qual é difícil escapar devido ao estilo dos seus líderes.

O melhor líder é aquele(a) que não se acomoda e define objetivos ambiciosos baseados em valores que inspiram todos aqueles à sua volta. Claro que é muito mais difícil construir uma Gigafactory que superar os números do próximo trimestre, mas a escolha pelo facilitismo é um luxo que não durará para sempre.

O ser humano adora algo que o inspire a ir mais longe ao criar um impacto positivo no mundo; um discurso fortemente focado no lucro e sobrevivência tem curto prazo de validade. Por isso, faço o apelo a todos os líderes e gestores: definam um futuro ambicioso para as vossas empresas, delineado por objetivos inspiradores e comuniquem-no de forma convincente. Verão que será muito mais fácil encontrar o apoio que necessitam, seja de colaboradores, clientes ou investidores.

Pedro Pacheco, Director de Marketing para a Europa, da Johnson Controls