A Terra de Alexandre, o Grande

Recentemente o Parlamento Grego ratificou o Acordo greco-macedónio de Prespes que, aparentemente, encerrou uma tensão que durava há 27 anos entre a Grécia e a recém batizada Macedónia do Norte (ex Antiga República Jugoslava da Macedónia).

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É necessário recuar vários séculos para entender a magnitude deste acontecimento.  Viajemos até ao século IV a.C., para a cidade de Pela (atual região da Macedónia na Grécia). Foi aí que nasceu Alexandre, o Grande, nome pelo qual ficou para a história Alexandre III da Macedónia. Apesar de o debate académico não ser completamente conclusivo sobre a etnicidade original dos macedónios, sabemos que Alexandre pertencia a um antigo povo helénico que falava uma língua semelhante ao antigo grego e cujas práticas sociais, culturais e religiosas, coincidiam genericamente com as dos outros povos helénicos.

Voltando ao século XXI, a União Europeia e a NATO têm vindo a pressionar a resgatada Grécia para a ratificação de um acordo que permitisse a mudança de nome da Macedónia, o reconhecimento do macedónio como sendo uma língua eslava e, questões culturais à parte, a adesão à UE e NATO. Neste contexto 153 dos 300 deputados gregos (incluindo os 145 eleitos pelo Syriza) apoiaram a decisão o Governo de Alexis Tsipras.

O Acordo mereceu o apoio da UE, EUA e também restantes países vizinhos dos Balcãs que abarcam a região balcânica da Macedónia (Albânia, Bulgária, Sérvia e Kosovo). A nível internacional, a Rússia ficou sozinha na oposição, vendo o Ocidente formalizar mais um aliado a leste.

Mas, para além dos russos, houve quem não tivesse apoiado o Acordo de Prespes – parte importante da população grega. A eslavização da Macedónia mexeu com a consciência cultural de muitos gregos que sentem que lhes roubaram o nome, identidade e história da terra onde nasceu Alexandre, o Grande, considerado pela população como um dos maiores gregos da história. Para estes gregos o nome Macedónia é património exclusivo helénico.

Para além dos protestos violentos de dezenas de milhares de gregos, as últimas sondagens revelaram que cerca de 60% da população está contra o Acordo. Este cenário não apanha Tsipras desprevenido. O populista de esquerda sabe que provavelmente perderá as eleições nacionais de 2019, mas também sabe que ganhou capital político junto de parceiros europeus e norte-americanos para novos jogos de poder à escala internacional.

Desde a sua eleição em 2015, que Tsipras tem vindo a alterar drasticamente o seu discurso e ação política. Ironicamente o atual governo grego, que na sua génese tanto contestou a austeridade, ficará para a história como sendo próximo do Ocidente e acérrimo cumpridor da disciplina financeira comunitária. O Acordo de Prespes é o passo derradeiro de aproximação do Governo de Tsipras à proposta de globalização europeia e norte-americana; e os resultados não se fizeram esperar – os juros da dívida a 10 anos colocada no mercado secundário caíram para mínimos de quatro meses, no momento em que chega ao fim o terceiro resgate financeiro ao país.

David Pimenta

Politólogo e Gestor | Autor do blog “Ensaios Improváveis” (https://ensaiosimprovaveis.blogspot.com/)