A Crioestaminal é o primeiro e o maior banco de criopreservação em Portugal. Desde 2003, ano em que foi fundada, o que mudou? Que papel assume hoje a Crioestaminal?

Quando iniciamos a atividade em 2003 começava a falar-se em Portugal da importância das células estaminais do sangue do cordão umbilical, para mais tarde poderem ser usadas no tratamento de doenças. Nesta altura existiam cerca de 2000 transplantes realizados com sangue do cordão umbilical.

Desde então, o conhecimento sobre as células estaminais tornou-se mais vasto existindo hoje mais de 40 mil transplantes realizados, mais de 80 doenças tratadas e centenas de ensaios clínicos em curso, algo que não acontecia há 15 anos.

A Crioestaminal tem hoje mais de 100 mil amostras criopreservadas e é o banco de criopreservação em Portugal que contribuiu para mais tratamentos: 17 tratamentos em 12 crianças. Somos também o laboratório que mais investe em Investigação e Desenvolvimento na área das células estaminais.

É o único Banco Europeu acreditado para o processamento do Sangue e Tecido do Cordão Umbilical pela Associação Americana de Bancos de Sangue e em 2018, unimo-nos ao Grupo FamiCord, criando o maior grupo de criopreservação de sangue do cordão umbilical da Europa.

Assim, o papel da Crioestaminal é o de garantir a melhor amostra de células estaminais para um tratamento futuro, a todas as famílias que optam por guardar as células estaminais.

As células estaminais são um bem que deve ser preservado, sendo que o sangue do cordão umbilical é utilizado, desde 1988, como fonte de células estaminais para o tratamento de várias doenças. Os portugueses estão suficientemente consciencializados para a importância e as mais-valias da criopreservação das células estaminais?

O primeiro transplante com células estaminais do sangue do cordão umbilical realizou-se há 30 anos, Mathew Farrow, com apenas cinco anos, recebeu o sangue do cordão umbilical, doado pela sua irmã recém-nascida, para tratamento de anemia de Fanconi. Desde então realizaram-se mais de 40.000 transplantes em todo o mundo para o tratamento de mais de 80 doenças.

Atualmente, encontram-se em curso centenas de ensaios clínicos, em todo o mundo, com células estaminais de modo a alargar as opções terapêuticas para doenças como a paralisia cerebral, doenças do espectro do autismo e diabetes tipo 1.

No entanto, a mensagem sobre a importância de guardar as células estaminais é complexa, o que leva a que nem sempre fique claro para os futuros pais a importância de as guardar, é para nós fundamental continuar a trabalhar neste âmbito para que mais famílias possam tomar uma decisão informada. Destaco algumas das nossas principais iniciativas neste âmbito: o Prémio Crioestaminal em investigação biomédica que distingue o trabalho de jovens investigadores na área das células estaminais, a comemoração do Dia Mundial do Sangue do Cordão Umbilical e a partilha contínua dos avanços científicos com a comunidade, em geral.

A utilização de células estaminais do cordão umbilical é já uma realidade bem presente em todo o mundo. E em Portugal?

O primeiro transplante realizado em Portugal, com recurso a células estaminais do sangue do cordão umbilical guardadas num banco familiar, teve lugar no IPO do Porto, em 2007, numa criança de 14 meses com Imunodeficiência Combinada Severa, uma doença rara e fatal quando não tratada, tendo-se recorrido às células estaminais do irmão mais velho, criopreservadas aquando do nascimento, na Crioestaminal. A criança ficou totalmente curada. Seguiram-se outras utilizações de células estaminais do sangue do cordão umbilical: um caso de leucemia mieloide aguda (Hospital Niño Jesus, em Espanha) e oito utilizações no âmbito da paralisia cerebral (sete nos EUA e uma em Espanha). Nos casos das crianças com paralisia cerebral, os pais e os prestadores de cuidados, identificaram melhorias após a infusão de sangue do cordão umbilical. Recentemente, libertamos mais duas amostras para tratamentos no âmbito de ensaios clínicos para patologias do espectro autista, na Universidade de Duke, nos EUA.

A Crioestaminal aplica cerca de 10% do seu volume de negócios em I&D, sendo o único banco em Portugal que promove a investigação da aplicação terapêutica de células do sangue e do tecido do cordão umbilical. Este será o foco e o caminho da Crioestaminal?

Diria que o nosso foco é possibilitar o acesso a terapêuticas personalizadas baseadas em células estaminais, o desenvolvimento de projetos de I&D tem em vista descobrir novas terapias celulares, o que permite alargar a aplicação de células estaminais para além das doenças atualmente tratadas.

Com os vários projetos de investigação e desenvolvimento e as três patentes internacionais já registadas, a Crioestaminal tem desenvolvidos estudos nas áreas de oncologia, do enfarte do miocárdio e diabetes.

Na área da diabetes, está projetado um ensaio clínico que visa aplicar a metodologia patenteada em ulcerações do pé em doentes diabéticos. Esta patente partiu da utilização combinada de células do sangue do cordão umbilical e células progenitoras endoteliais para melhorar a cicatrização de feridas crónicas em diabéticos, através da redução da inflamação e da revascularização da área afetada.

Na área cardiovascular, a patente internacional relaciona-se com a regeneração de tecido cardíaco após acidentes isquémicos. O conhecimento gerado está a ser incorporado no planeamento de novos projetos e em aplicações concretas na área da medicina regenerativa, em doenças como o Acidente Vascular Cerebral.

O investimento de mais de dois milhões de euros em investigação, associada a terapias celulares, atesta a forte aposta da Crioestaminal no desenvolvimento de novas soluções que ampliem o número das aplicações terapêuticas. Que verdadeiros desafios enfrentam neste vosso propósito?

Os desafios são de vária ordem, desde conseguir financiamento que possa ajudar a cobrir parte das despesas, porque os projetos em que queremos estar envolvidos incluem a realização de ensaios clínicos e para isso é necessário um financiamento elevado, até à necessidade responder a todas as exigências ao nível regulamentar para podermos chegar à fase de aplicação destas terapias em humanos, passando pela dificuldade de conseguir encontrar médicos que estejam interessados em participar neste tipo de estudos.

 

A equipa de I&D da Crioestaminal e os seus parceiros têm desenvolvido um conjunto de projetos que visam alargar a aplicação clínica das células estaminais (do sangue e do tecido do cordão umbilical). Para o ano de 2019 que projetos pode desvendar?

Vamos estar cada vez mais voltados para a investigação clínica, com projetos que visam testar novas terapias baseadas em células estaminais em humanos, e que implicam a utilização das nossas recém-criadas Salas Limpas, dedicadas à produção de medicamentos de terapias celulares avançadas.

Pretendemos demonstrar a capacidade de produção deste tipo de medicamentos e explorar o potencial terapêutico das células estaminais: quer das células estaminais mesenquimais (do tecido do cordão umbilical e do tecido adiposo), em doenças de natureza autoimune, quer das células do sangue do sangue do cordão umbilical na área da pediatria do desenvolvimento.

Para além dos nossos próprios projetos de I&D, participaremos noutros projetos com parceiros internacionais.

As células estaminais são, sem dúvida, o futuro?

As células estaminais são já uma realidade no tratamento de várias doenças. No futuro, serão, sem dúvida, novas alternativas terapêuticas para doenças que atualmente não têm tratamento, como evidenciam as centenas de ensaios clínicos em curso em todo o mundo. Seguramente que alguns terminarão com resultados positivos e serão novas aplicações no futuro.