“Somos uma empresa de serviço completo”

“Somos uma empresa de referência, que construiu a sua idoneidade ao longo de 28 anos de serviço”, refere Aquilino Rodrigues, Administrador da Sertec, que nos deu a conhecer como a tecnologia e a inovação têm sido essenciais no universo dos deficientes visuais.

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De Louis Braille à era digital… Como é que a tecnologia ajuda, nos dias de hoje, a vida dos deficientes visuais?

Em tudo. Da escola ao emprego; da cultura ao turismo; da saúde ao desporto. Imagine acordar ao som de um despertador que lhe diz as horas e a temperatura ambiente. Depois do seu banho, pesa-se numa balança falante. Veste a roupa a condizer com a ajuda do identificador de cores. Depois de aquecer o leite no micro-ondas falante, vai para o trabalho com ajuda da bengala. O seu computador, equipado com leitor de ecrã e linha braille, dá-lhe acesso total a textos, emails, Internet. Ao longo de todo o dia, o smartphone acessível mantém-no em contacto com o mundo, e à tardinha, uma partida de futebol com os amigos.

A tecnologia tem vindo a auxiliar deficientes visuais a explorar o mundo. Esta é, igualmente, a premissa da Sertec. Fale-nos um pouco mais sobre a vossa missão.

Mais do que fornecer tecnologia, a missão da Sertec é descodificá-la. Temos tendência a associar a solução de um problema a um produto, mas na maior parte das vezes, o produto, só por si, não chega. É preciso adequa-lo ao utilizador, e vice-versa, treinar o utilizador. Por exemplo, para um cego poder utilizar um computador basta instalar um programa de voz gratuito, mas se não houver formação ou treino ele não saberá utilizá-lo.

A tecnologia sofreu uma evolução gigantesca e a Sertec tem acompanhado a evolução dos tempos. Que papel assume hoje no mercado?

Somos uma empresa de referência, que construiu a sua idoneidade ao longo de 28 anos de serviço. Trazermos para Portugal os produtos de última geração e prestamos apoio na sua utilização. Somos o que em inglês se chama uma one-stop-shop, ou seja, uma empresa de serviço completo.

Que soluções disponibilizam às pessoas cegas ou com baixa-visão?

Todos os produtos existentes no mercado, quer para a cegueira quer para a baixa-visão: desde o mais simples artigo, como uma régua de assinatura, ao mais sofisticado, como um ampliador de imagem com leitura automática de texto. No nosso centro de formatos alternativos – o CEFAS – produzimos braille, relevos, áudio e texto ampliado. A nossa oficina trata da manutenção e avarias – somos o único centro autorizado para reparação das máquinas de escrever braille Perkins. E o apoio na utilização dos produtos é uma marca que nos caracteriza. Sem isso, o propósito das tecnologias fica por cumprir.

Que verdadeiros desafios se enfrentam atualmente no que diz respeito à inclusão de pessoas cegas na escola e no mundo digital?

Os desafios são enormes, e não diferem muito dos do passado. Simplesmente, o contexto social e tecnológico mudou. Existem melhores produtos de apoio, mas são caros e o financiamento escasseia. Precisamos encontrar formas criativas de colocar nas escolas os materiais necessários, como patrocínios ou campanhas, porque os recursos públicos são limitados. Por outro lado, a formação dos professores na deficiência visual é exigente e requer atualização constante. Defendo um modelo de colaboração mais próximo entre as escolas, as empresas e as ONGs.

Sertec é sinónimo de tecnologia acessível. A transformação digital é, sem dúvida, uma mais-valia, acarretando vantagens para o futuro do braille e da inclusão das pessoas com deficiência visual?

Sem dúvida. O Braille é insubstituível como sistema de leitura e escrita. Felizmente, as linhas braille digitais permitem ler e escrever Braille num computador. Para alguns trabalhos específicos, como de revisor ou tradutor, é um elemento indispensável. E o Braille em papel, fundamental nos primeiros anos de escola, é mais fácil de produzir com as impressoras de Braille.

Apesar dos esforços de inclusão, o mundo não espera pelos cegos. Por cada passo adiante, dá-se um passo atrás. Por exemplo, a Apple conseguiu o que parecia impossível ao tornar um telefone tátil totalmente acessível aos cegos. Por outro lado, todos os dias surgem produtos inutilizáveis, como uma máquina de lavar roupa com o painel plano e sem qualquer relevo. É necessário um trabalho constante de pressão política pelas ONGs, e de regulamentação pelas autoridades. A Sertec desempenha o seu papel ao interagir com os fabricantes e a facilitar a vida aos seus clientes.