“Quanto mais trabalho mais sorte tenho”

Margarida Gonçalves já sabia no nono ano aquele que viria a ser o seu caminho. Afirma que teve sempre muita sorte a acompanhar o seu trabalho e que Portugal é um paraíso para se ser mulher apesar de todas as dificuldades que possam existir. Dona de uma boa disposição contagiante diz que só se trabalha bem quando se gosta daquilo que se faz. Conheça esta consultora que escolheu a qualidade de software como carreira.

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E engenheira e desde cedo que está envolvida em projetos de tecnologia e de telecomunicações e hoje dedica-se à consultoria. Que história pode ser contada sobre o seu percurso e quais são as suas motivações?

No nono ano descobri logo qual seria a minha vocação. Um dos resultados de testes psicotécnicos que fiz na época indicava que seria boa enquanto analista de sistemas. Pedi logo ao meu pai que me levasse a ver um computador ao LNEC e assim que vi o primeiro computador apaixonei-me, estávamos na década de 80. Como sempre gostei de coisas diferentes, andei sempre a dizer aos meus amigos que seria analista de sistemas. Quando entrei na faculdade ingressei em matemática aplicada, algo que até preocupou a minha família: “afinal, o que é que ela vai fazer em matemática”?

Tive a sorte de, em 1990, sair do primeiro curso que existiu no Instituto Superior Técnico de Lisboa, o de Matemática Aplicada à Ciência de Computação. Ingressei logo na banca e tive sempre um excelente enquadramento. Comecei em ciência da computação e rapidamente cheguei a chefe de equipas e foi aí que percebi que adorava gerir pessoas.

Quando decidi criar a minha empresa já tinha arrecadado contactos e conhecia bem o mercado. O meu pai já era empresário e quando disse que seria a minha vez não foi algo inesperado, aliás, na área de consultoria é uma evolução normal. Criar a própria empresa é um dos dois caminhos possíveis. Acredito piamente que as coisas se fazem melhor com qualidade e daí a minha paixão pela consultoria na qualidade do software. Se tivermos um bom processo, escalamos de forma diferente e criamos valor aos clientes. Era uma área onde já era reconhecida e por isso abrir a minha empresa foi fácil.

Considero que tive sorte quando comecei ciência da computação, em 1990, quando ninguém sabia o que isso era. A componente da matemática sempre me foi fácil, a abstração e a formalização agradam-me. Fui realizando projetos enquanto gestora de projeto para organizar a entrega e acabei na consultoria porque gosto de organizar/ajudar a reorganizar as empresas dos outros.

Acredito que as metas são importantes e, por isso, liguei a minha consultoria aos standards para haver uma certificação no fim. Deste modo, fui-me dedicando à certificação em qualidade de software, que é a minha área de origem.

Gosto de trabalhar com pessoas e a consultoria de processos implica a gestão de mudança da vida das pessoas que executam ou são afetadas por esses processos.

O que a levou a escolher uma área como a tecnologia para construir uma carreira?

Na minha família “Letras são tretas”, venho de uma família de engenheiros e militares. Pais engenheiros químicos, irmão mais velho químico, irmã agrónoma, lá acabei no IST. Penso que não poderia ser de outra forma…

Como surgiu a Quasinfalível que hoje já conta com nove anos de existência?

A Quasinfalível surge do meu gosto pela engenharia de software e pelo facto de, tendo sido consultora/gestora de projeto ao longo de 20 anos, conhecer bem o mercado e ter boa imagem junto dele.

As grandes empresas na altura não se preocupavam em ter departamentos dedicados à engenharia de software e daí ter querido apostar nisto. No entanto, não me lembro de acordar e de pensar “vou criar a minha empresa”.  foi algo muito natural, quase como um passo que tinha que ser dado. Nunca tive medo porque tinha contactos e até tive a sorte de, logo no início, ter tido um grande projeto para começar.

Qual foi o maior desafio profissional que já enfrentou?

Os projetos trazem-nos sempre desafios. O maior desafio foi enfrentado na Nigéria, em Lagos, que não é uma cidade fácil. Uma mulher em África – sinónimo de vida muito restringida -, nem à rua podia sair sem ser de carro. A falta de respeito no ambiente de trabalho foi das coisas mais difíceis de gerir. Outro episódio que me marcou também, embora de forma diferente, foi no Brasil, onde estive envolvida num projeto de reestruturação de uma equipa de consultoria em que a minha missão era despedir e contratar outras pessoas, e depois ter que deixar tudo a funcionar; foram nove meses repletos de stress.

Na sua opinião, o acesso a cargos de topo ainda são lugares mais vedados às mulheres? 

Sim, pelo menos no meu meio, que é um meio de engenharia, onde os homens são claramente a maioria. Existem programas internacionais como o girlsintech (https://girlsintech.org/) para combater essa tendência, mas que não têm resultado. A pirâmide não é alimentada de baixo, por isso, a probabilidade é baixa mesmo admitindo que não há discriminação. Talvez faltem mais incentivos para que mais mulheres escolham a tecnologia como carreira.

Que características elege como as principais para se alcançar o sucesso?

99% de transpiração, 1% de inspiração. E sobretudo estar atento. Quanto mais treino mais sorte tenho, – este é claramente um lema de vida – o sucesso vem, indubitavelmente, do trabalho. Tudo o que alcancei foi sempre através de muito trabalho e não conheço outra realidade.

Como é que se define enquanto empresária? Sente que é diferente de quando trabalhava noutras empresas?

Obviamente que é muito diferente ser empresária do que ser assalariada. A responsabilidade de ter dinheiro para pagar salários é a grande diferença. Ter de pensar no futuro enquanto se garante o presente não é fácil.

Gosto de pensar que me preocupo com as pessoas com quem trabalho, que tento criar ambientes que são propícios a uma pessoa acordar de manhã e ter vontade de vir trabalhar.

Foi difícil dar este passo? Que conselho gostaria de deixar a quem está a pensar fazer mudanças a nível profissional?

Não foi muito difícil o primeiro, mas há muitos que custam muito mais do que o primeiro. Tudo aquilo que temos de fazer é sair da nossa zona de conforto.

Conselhos… Preparem-se para o pior. Existirão dias que tudo vai ser ainda pior. Construam uma empresa assente em coisas de que gostam realmente de fazer, porque se faltar o dinheiro, pelo menos, divertem-se; aprendam os básicos de contabilidade, vocabulário destas matérias, proficiência com números; trabalhem em rede; troquem serviços com outros consultores e avaliem os vossos valores. Trabalhem com pessoas que partilhem desses valores, senão não vai funcionar bem.