A tecnologia é uma «ferramenta» altamente eficaz nas infeções hospitalares

A Revista Pontos de Vista conversou com Victoria Quintas, Sócia-Gerente da BIODECON - BDSD - Soluções de Biodescontaminação, Lda, que nos deu a conhecer um pouco mais do universo das infeções hospitalares e o impacto na saúde em Portugal.

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O que são infeções hospitalares e qual o seu impacto na saúde dos portugueses?

Hoje utiliza-se o conceito mais abrangente de Infeções Associadas aos Cuidados de Saúde (IACS), já que este problema não se limita ao meio hospitalar. Associadas ao aumento das Resistências aos Antimicrobianos (RAM) pelos microrganismos causadores de doença, são problemas relacionados e de importância crescente à escala mundial.

As IACS aumentam a morbilidade e a mortalidade, prolongam a duração dos internamentos e agravam significativamente os custos em saúde. Acentuando a pressão geradora da RAM pelo maior uso de antibióticos, inviabilizam a qualidade dos prestados e constituem a principal ameaça à segurança dos cidadãos.

De forma a prevenir a transmissão cruzada de microrganismos, de um portador são ou doente, para outro, de forma direta ou indireta, torna-se importante recorrer às “boas práticas”. Será suficiente? Onde entra o aqui o papel da tecnologia?

O Programa de Prevenção e Controlo da Infeção e Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA), um programa prioritário da Direção Geral de Saúde (DGS), com uma direção nacional, assim como núcleos a nível regional e local em cada instituição de saúde, foi criado em 2013 pela fusão entre o Programa Nacional de Controlo da Infeção e o Programa Nacional de Prevenção da Resistência Antimicrobiana, surgindo como resposta à necessidade de uma abordagem integrada de ambos os problemas. O PPCIRA deu início à promoção das Precauções Básicas de Controlo de Infeção (PBCI), implementando uma estratégia multimodal que traduz regras padronizadas de boas práticas a adotar por todos os profissionais na prestação de cuidados de saúde, a fim de minimizar o risco da transmissão cruzada da contaminação.

Constituindo as IACS um problema multifatorial, a tecnologia é uma “ferramenta” altamente eficaz como parte integrante de um bundle de estratégias que assentam naturalmente nas boas práticas de controlo de infeção.

A Biodecon – BDSD pretende assegurar uma abordagem integrada do controlo da contaminação ambiental através de uma seleção de soluções inovadoras. De que soluções falamos?

Tratam-se de soluções que visam o reset da situação de contaminação ambiental, erradicando os microorganismos causadores de infeção, a par da sua contenção, com soluções para o isolamento de doentes contaminados.

A Biodecon combina a melhor relação de eficácia e rapidez na erradicação de microrganismos patogénicos com uma tecnologia automatizada, segura e perfeitamente reprodutível, que usa Vapor de Peróxido de Hidrogénio (VPH) de elevada concentração (35%), um sistema de biodescontaminação ambiental que elimina bactérias, fungos e vírus, com validação de resultados comprovados por indicadores químicos e biológicos. Com recomendação de nível máximo pelo Rapid Review Panel do Department of Health do Reino Unido, esta patente já conta com mais de 14 anos de experiência em praticamente todo o mundo e inúmeras publicações que evidenciam a superioridade da sua eficácia e reprodutibilidade comparativamente a metodologias convencionais/manuais de descontaminação ambiental habitualmente utilizadas nos hospitais.

Em Portugal, a prestação de um serviço completo de biodescontaminação pela Biodecon às instituições de saúde públicas ou privadas, com equipas especializadas no uso deste equipamento, é não só utilizada para controlo de surtos, como, cada vez mais, numa base regular e programada. Deste modo, responde-se às necessidades e prioridades das áreas a intervencionar e reduz-se a carga microbiana ao longo do tempo, numa ação não só corretiva como proativa, que contribui para a diminuição das taxas de IACS.

Relativamente à contenção da infeção, comercializamos soluções inovadoras e custo-efetivas como estruturas com pressão negativa de fácil montagem e dimensão customizada para isolamento de doentes em espaços abertos como Enfermarias, Unidades de Cuidados Intensivos, Urgência ou outros Serviços. Com base na barreira física criada e sistema de filtragem de ar HEPA, estas estruturas de isolamento de contacto promovem a redução da contaminação cruzada e maximizam a flexibilidade da instituição para acomodar doentes de risco e/ou infetados.

Em termos de noções básicas para prevenir as IACS, qual é o grau de perceção que os cidadãos comuns têm?

As PBCI destinam-se a garantir a segurança dos cidadãos, dos profissionais de saúde e de todos os que entram em contacto com os serviços de saúde, pelo que devem ser seguidas por todos. Embora com episódios de surtos recentemente mais divulgados pelos meios de comunicação social, os cidadãos comuns possuem fraca perceção não só das noções básicas para prevenir as IACS, como da própria dimensão do problema. Um estudo amplamente divulgado, realizado em 2014 pelo PPCIRA/DGS em conjunto com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) analisou dados de 2010 a 2013 e demonstrou que o número de óbitos associados à infeção em internamento em Portugal é sete vezes superior às mortes causadas por acidentes de viação, sinistros de elevada perceção pelo cidadão comum, que provocam justificada consternação geral.

No entanto, a taxa de IACS é avaliada periodicamente através de estudos de prevalência.

Entre 2011 e 2012, Portugal participou no 1.º Inquérito Europeu de Prevalência de IACS e Uso de Antimicrobianos em hospitais de agudos coordenado pelo European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC). Este estudo apurou que 10,5% dos doentes internados em Portugal tinham adquirido infeção em internamento, o valor mais elevado da amostragem e praticamente o dobro da média europeia (6,1%). Na mesma população, em Portugal 45,3% dos doentes estavam a ser tratados com antibióticos enquanto na Europa essa percentagem era de 35,8%. Em 2016 foi realizado novo inquérito, que revelou valores tendencialmente favoráveis, sendo de 7,8% a prevalência das IACS.

A Biodecon disponibiliza serviços que pretendam desenvolver uma abordagem global do controlo de infeção. Como descreveria o risco existente em instituições dos quais a maioria das pessoas não se apercebe?

O risco efetivamente existe e é elevado pelos condicionamentos logísticos da sobrelotação das Unidades de Saúde, falta de capacidade de isolamento de doentes contaminados e restrições económicas que impedem a utilização regular de tecnologias de descontaminação ambiental mais inovadoras e eficazes. No entanto, há também excelente trabalho de controlo e prevenção desenvolvido pelos Grupos Coordenadores Locais do PPCIRA e profissionais de saúde em geral, evidenciado pelo aumento da adesão às PBCI com resultados francamente positivos e toda uma programação de atividades a realizar com objetivos bem definidos, com vista à diminuição das IACS e do consumo de antibióticos. Coordenados pelo PPCIRA, funcionam também regularmente programas de vigilância epidemiológica da incidência de IACS em rede europeia e nacional em Unidades de Cuidados Intensivos de adultos, infeção nosocomial da corrente sanguínea, infeção do local cirúrgico e infeção adquirida em Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais. Nos últimos anos tem-se assistido em Portugal a uma tendência global de diminuição da incidência das IACS que são alvo desta monitorizaçao.

Segundo um estudo da OCDE divulgado em novembro de 2018, mais de 40 mil pessoas podem morrer em Portugal na sequência de infeções por bactérias resistentes a antibióticos até 2050, estimando-se que morram acima de 10 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Como é que se pode inverter esta realidade?

É necessário reduzir a emergência de resistências a antibióticos, o que pode conseguir-se reduzindo o seu consumo. Este objetivo é atingível, promovendo o uso racional destes fármacos, não os utilizando quando não são necessários e utilizando apenas   quando estritamente indicados os antibióticos de espetro mais estreito possível, apenas durante o tempo necessário. O consumo inadequado de antimicrobianos é um dos principais fatores responsáveis pelo desenvolvimento e aumento das resistências, tornando-se um efetivo desafio para a saúde pública.

A Organização Mundial da Saúde e a Comissão Europeia lançaram planos de ação junto dos cidadãos e profissionais de saúde para promover o conhecimento desta temática, havendo antibióticos alvo de vigilância através da rede nacional que colabora na rede de vigilância epidemiológica europeia de resistência aos antimicrobianos, enviando anualmente dados representativos da realidade portuguesa para o sistema European Antimicrobial Resistance Surveillance Network (EARS-Net), coordenado pelo ECDC.