É professora e investigadora em Informática na Escola Superior de Tecnologia do IPCA. Quem é a Maria Manuela Cruz Cunha?

Estudei Engenharia de Sistemas e Informática na Universidade do Minho (UM) quando um computador ocupava uma sala. No início trabalhei ligada à universidade, mas as empresas e a produção industrial atraíam-me muito, e montei uma empresa informática, fui engenheira numa empresa têxtil, consultora de empresas industriais e gestora de uma organização de interface da UM. O meu doutoramento em Engenharia de Produção e Sistemas foi, por isso, uma escolha natural e fi-lo com um orientador da UM e outro da Universidade de Massachusetts. Era essencial para mim a dimensão internacional (por pouco não fiquei em Boston). Só no final dos anos 90 optei pela vida académica, atraída pela possibilidade de ajudar a construir uma escola de tecnologia numa instituição de ensino superior que se começava a desenhar na região do Cávado e do Ave e por acreditar verdadeiramente no poder das tecnologias para ajudar as pessoas.

Nasci em Luanda e vim para Portugal com 10 anos. Por isso gosto tanto do mar e de música com ritmo para dançar. Diz, quem me conhece bem, que sou distraída, que passo horas intermináveis ao computador, mas acham graça ao meu sentido de humor e ao facto de gostar, ainda e sempre, de Fellini e dos clássicos da literatura.

Autora e editora de mais de 30 livros e 150 artigos, é, ainda, o rosto e a voz de conferências internacionais na área das tecnologias, uma área ainda muito associada ao sexo masculino. Numa sociedade que impõe limites às mulheres, é fácil conciliar a vida pessoal com uma carreira profissional de sucesso?

Sou da geração de engenheiros informáticos com formação de banda larga. Hoje o paradigma é outro. O curriculum dos cursos tecnológicos é muito mais convergente e as outras áreas do conhecimento dependem da informática para o seu desenvolvimento. Temos de pensar de forma integrada com a humildade de aceitar outros conhecimentos que não passaram por nós. O que me atrai no que faço é conhecer diariamente talentos com novas motivações que nunca me tinham ocorrido. Por isso a troca de ideias é tão fundamental! As conferências em cuja organização participo e os livros que produzo surgiram desta necessidade.

Realmente não existem muitas mulheres nesta área. O Fórum Económico Mundial em 2016 salienta o grave problema que isso representa para o crescimento económico sustentável da sociedade, considerando os benefícios que talento, inovação e tecnologia têm como pilares essenciais da Quarta Revolução Industrial. Apenas 30% das mulheres trabalham em tecnologias e a esta escassez acresce o seu persistente desinteresse por esta área. O desafio será mostrar às jovens os novos horizontes da economia digital e o interesse de escolherem carreiras ligadas à ciência, tecnologia engenharia e matemática (STEM) para não ficarem excluídas deste novo modelo económico.

Nunca senti limites por ser mulher, mas sei que existem em outros contextos. Quando passei pela indústria, no final dos anos 80,  conheci a realidade das mulheres em profissões pouco qualificadas e com salários desiguais. Por sinal, no IPCA a representação feminina na gestão é elevada; a presidência é ocupada por uma mulher e a vice-presidência é atribuída a um homem e a uma mulher.

Tenho a sorte de ter uma excelente retaguarda na minha vida pessoal, que me dá liberdade para fazer aquilo que gosto. Os homens com quem trabalho são cheios de qualidades, altamente competentes, e devo-lhes grande parte dos meus resultados. Tento dividir o tempo entre o trabalho, a família e o lazer. No início da minha carreira o trabalho esteve em primeiro plano, chegando mesmo a estar antes de mim… Mas a vida vai-nos ensinando as prioridades.

O IPCA comemora 25 anos de Ensino Superior Público. São 25 anos de…?

Somos a mais jovem instituição pública de ensino superior. Hoje temos mais de 4500 estudantes que se dividem por quatro escolas, em cursos de TeSP, Licenciatura e Mestrado. Em 25 anos o IPCA tornou-se uma referência nacional e tem uma dinâmica importante para o desenvolvimento da região, em grande medida fruto da visão do recém-desaparecido Professor Doutor João Carvalho, que presidiu ao IPCA até 2016. Em particular a Escola Superior de Tecnologia (EST) foi pioneira em cursos como a Engenharia e Desenvolvimento de Jogos Digitais.

Que atividades tem previstas ao nível de temas como a transformação digital, indústria 4.0, cibersegurança?

O grande desafio da EST é, atualmente, o reconhecimento pela FCT do Laboratório de Inteligência Artificial Aplicada – 2Ai, um centro de investigação que vai albergar as atividades nesses temas. Vamos iniciar uma pós-graduação em Cibersegurança e Informática Forense, organizamos a Semana Industry 4.0, coordenamos a edição de 2019 do International Symposium on Digital Forensic and Security e participo na organização da CENTERIS 2019 a ter lugar na Tunísia em outubro próximo.