A China e a Geopolítica do Lítio

Depois do carvão ter alimentado a Revolução Industrial no século XIX e o petróleo dominado o século XX, parece estar a chegar a era do lítio. O lítio é um metal com inúmeras aplicações, desde as comuns baterias de telemóvel ou computador, até ao armamento militar ou fármacos para tratar transtornos bipolares. Contudo o lítio surgiu nas luzes da ribalta à boleia dos automóveis. Depois das carroças terem sido substituídas pelos automóveis, assiste-se novamente a um momento de transformação no conceito de mobilidade.

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Além das tendências disruptivas da mobilidade partilhada, digitalização e condução autónoma, a eletrificação da mobilidade está a ganhar o seu espaço no mercado automóvel.

Quando o Ministro do Ambiente Português, João Pedro Matos Fernandes, declarou abruptamente que o fim da mobilidade a gasóleo estaria perto, constatou uma tendência inegável (apesar de incerta em termos temporais) que é sustentada não só por questões ambientais, mas também pelos interesses políticos e económicos da China. Para além da China ser o quarto maior produtor de lítio do mundo, tem investido em países produtores (e.g. a empresa chinesa Tianqi Lithium, pagou recentemente mais de 4 mil milhões de dólares para ser o segundo maior acionista da empresa chilena SQM, a maior empresa mundial de produção de lítio).

É do interesse da China que a mobilidade mundial seja eletrificada. Internamente, o Governo de Pequim traçou um objetivo ambicioso para 2025: os automóveis elétricos têm de constituir 20% das vendas. Considerando que a China é o maior mercado automóvel do mundo, este objetivo traduz-se em milhões de automóveis (no mercado chinês foram vendidos cerca de 22 milhões de veículos em 2018).

Neste sentido, e especialmente desde o escândalo Diesel Gate do Grupo Volkswagen, os fabricantes automóveis reescreveram os seus planos estratégicos contemplando o desenvolvimento de cada vez mais modelos elétricos, indo a reboque do ritmo ditado pelo maior mercado automóvel do mundo. Seguiram-se os países e cidades europeias com anúncios de interdições e limitações à circulação de veículos movidos a gasolina e gasóleo nos próximos anos.

De uma perspetiva puramente ecológica dir-se-á que o establishment político e económico assumiu responsabilidades ambientais e decidiu descarbonizar a economia; por outro lado, a realpolitik diz-nos que a maior parte dos países segue a aposta energética da super potência asiática que é o maior investidor e credor de parte importante do mundo.

Contudo o petróleo ainda tem e, previsivelmente, continuará a ter nos próximos tempos o seu (enorme) peso nas tensões geopolíticas que se observam no globo. O mais recente exemplo é o caso da Venezuela, onde os EUA projetam o seu poder fora da zona natural de influência da China.

Será que a era do lítio será marcada por inúmeras disputas tal como a era do petróleo? Apesar da China ter tomado a dianteira da corrida ao lítio e de seguir tipicamente uma política de não ingerência em conflitos noutros países, a história sugere que se darão novas contendas em novas geografias. Portugal, enquanto sexto produtor mundial de lítio e com reservas estimadas em 60 mil toneladas métricas, poderá desempenhar um papel importante nesta nova era.

David Pimenta