Tornou-se no primeiro português a ser distinguido com a Medalha de Ouro da International Society on MCDM (Multiple Criteria Decision Making). Como descreve este reconhecimento e que influências teve no seu percurso?

Esta medalha é um prémio de carreia. Tal como consta no site da sociedade, “trata-se da mais alta manifestação de apreço que a International Society em MCDM concede a um dos seus membros que, em virtude da sua ilustre carreira, contribuiu de forma marcante para a teoria, metodologia, prática e desenvolvimento profissional na área do apoio multicritério à decisão”. Mais do que um reconhecimento profissional individual, que é sempre importante, esta distinção premeia o trabalho de qualidade que se tem vindo a fazer no nosso país. Os centros de investigação e as instituições de ensino superior que me acolheram e  contribuíram para eu poder chegar até este patamar. Refiro-me, em particular, à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e ao INESC-Coimbra, bem como ao Instituto Superior Técnico-ULisboa e ao Centro de Estudos de Gestão do IST (CEG-IST), do qual assumi a Presidência no início do passado mês de janeiro. Também não posso deixar de mencionar que o “bichinho” do apoio multicritério à decisão, começou muito cedo, quando, ainda antes do doutoramento, fui assistente da Universidade de Évora. Durante o meu percurso de investigador tive ainda o privilégio de poder desenvolver investigação em centros de investigação de renome, nomeadamente o LAMSADE (Universidade Paris-Dauphine, França), o DIMACS (um consórcio entre as Universidades de Rutgers e Princeton, AT&T, Bell Labs, IBM, entre outros laboratórios de excelência dos EUA), e o LORIA (Nancy, França).  Finalmente, a possibilidade de ter sido professor na École Nationale Supérieure des Mines de Nancy foi outra experiência importante.

Esta distinção pretende celebrar carreiras ilustres. Fale-nos um pouco sobre o seu trabalho.

Antes de falar do meu trabalho de investigação propriamente dito, na área do apoio multicritério à decisão, gostaria de apresentar uma curta definição pessoal do significado do vocábulo que poderá ser útil para o leitor. Apoio multicritério à decisão é uma área do conhecimento (aparecendo muitas vezes como subárea da Investigação Operacional) que utiliza ferramentas analíticas (analytic tools) para apoiar os agentes de decisão (ou decisores) em todo o processo de tomada de decisão. Não se trata apenas de apoiar o decisor no momento da decisão, mas ao longo de todo o processo, que frequentemente é uma co-construção resultante da interação entre analistas e decisores. O processo tem normalmente quatro fases quando abordamos uma situação de decisão real: (1) caraterização do contexto; (2) formulação do problema; (3) utilização das ferramentas analíticas e (4) construção de conclusões robustas tendo em vista a redação de um relatório com recomendações. A formulação do problema contém três elementos: o conjunto das alternativas (no caso de um problema de localização de um novo aeroporto, são os diferentes sítios), os pontos de vista, que são os diferentes ângulos que nos permitem observar e analisar essas alternativas (por exemplo, os pontos de vista económico, social e ambiental) e o resultado esperado. O resultado esperado pode ser muito mais de que uma simples escolha da melhor alternativa, podemos querer uma ordenação das alternativas, da melhor para a pior ou uma classificação das mesmas em diferentes categorias (por exemplo, as más, as boas e as medianas). Agora penso já poder dizer onde se situaram os meus trabalhos de investigação (uma componente mais teórica e outra mais prática): uma parte tem sido dedicada à problemática da escolha e à conceção e experimentação de algoritmos para problemas com estrutura combinatória e multicritério. Outra, tem sido consagrada ao desenvolvimento de novos métodos ou melhoramento das já existentes e novas metodologias para problemas de ordenação. Finalmente, a terceira parte da minha investigação, a mais substancial, tem incidido sobre o desenvolvimento de novas metodologias, métodos e algoritmos para problemas de classificação. A área é muito transversal e no que respeita aos problemas de classificação, temos aplicado as nossas metodologias em várias áreas: economia e gestão, medicina e saúde, energia, recursos hídricos, agricultura, planeamento urbano e nanotecnologias, só para mencionar algumas

Esta não é a primeira medalha que o Técnico de Lisboa recebe. Como define o instituto?

Diria que o IST é uma escola com uma dinâmica muito própria, procurando constantemente adaptar-se aos novos desafios que são colocados ao nível do ensino e da resolução de problemas da sociedade. Por isso não é de estranhar que vários dos seus docentes e investigadores tenham sido premiados a nível internacional. Sem desprimor para as outras escolas, algumas das quais também já tive o privilégio de representar, o IST prima pela procura da excelência. Depois, o facto de ser uma Escola com várias áreas, é o terreno propício ao desenvolvimento do apoio multicritério à decisão que é uma disciplina transversal e que em muito beneficia deste contexto. O IST é um Escola em prol da sociedade, pela interdisciplinaridade, integração, Inclusão e internacionalização, elementos fundamentais para o desenvolvimento da nossa disciplina.

Além de investigador é professor. São trabalhos complementares?

ambos os trabalhos são complementares e, em minha opinião, desejáveis. Devemos saber dosear ambas as componentes e o IST sabe como fazê-lo. Por um lado, a complementaridade faz com que parte dos resultados da nossa investigação possam ser transmitidos aos estudantes e submetidos às suas críticas. É importante ouvir os estudantes. Por outro lado, é durante a parte letiva que podemos motivar e cativar estudantes para desenvolverem temas de investigação e deste modo continuarem o processo.

Quais julga terem sido os melhores contributos e metodologias que passou aos seus alunos?

Um dos contributos é transmitir-lhes a própria metodologia de apoio multicritério à decisão, resumida nos quatro passos que mencionei na resposta à Questão 2. O facto de considerarmos que a realidade não pode, em geral, ser reduzida a um só critério (tradicionalmente de natureza puramente economicista, como a minimização do custo ou a maximização do lucro) e que devemos ter em conta múltiplos critérios, que são ferramentas para operacionalizar vários  pontos de vista (curiosamente também é o nome da vossa revista) fá-los refletir e torna-os mais abertos a discussões mais abrangentes. Tudo isso enriquece o processo de tomada de decisão e quando esta é na verdade tomada, o decisor fá-lo-á de forma mais informada. Outro contributo que me parece importante transmitir é que a natureza do apoio à decisão é interdisciplinar, multidisciplinar e muitas vezes até transdisciplinar (no sentido em que o conhecimento criado no seio desta disciplina pode ser utilizado por outras dando por vezes lugar ao aparecimento de subáreas autónomas).

Leciona Fundamentos de Investigação Operacional, Complementos de Investigação Operacional, Otimização e Aplicações e Projeto em Engenharia e Gestão Industrial. Sendo o IST uma referência ao nível das engenharias, quais são, na sua opinião, os maiores desafios que estas áreas enfrentam atualmente?

Ao nível da investigação na área (e também do ensino) penso que será a integração da Investigação Operacional e do Apoio à Decisão clássicos com ferramentas puramente da área da Analítica (para Big-Data) e da Inteligência Artificial. Esse é um dos grandes desafios que me parece termos pela frente a muito breve prazo. Um outro desafio é tentar entrar no tecido empresarial de forma mais sistemática com diferentes tipos de estágios para que os estudantes possam passar da teoria à prática e ver todas as vantagens das metodologias de Investigação Operacional e Apoio à Decisão.

Deverá existir uma maior e mais coesa cooperação entre engenheiros e cientistas?

Penso que essa coesão existe até de forma muito forte no IST. Do ponto de vista clássico entenda-se cientista como o indivíduo que se debruça sobre um tópico específico e procura adquirir conhecimento sobre esse tópico e depois produzir novo conhecimento, enquanto o engenheiro estaria ligado mais à aplicação do conhecimento científico. Ora, a maior parte dos investigadores do IST são engenheiros e, portanto, engenheiros-cientistas. Muitos dos problemas de investigação aparecem quando estamos a aplicar as nossas ferramentas para resolver um problema prático. Esses são em geral os mais interessantes e cujos resultados das investigações mais beneficiam as sociedades.

Por outro lado, que oportunidades começam a surgir que não existiam antes?

As oportunidades situam-se muito nas fronteiras entre a investigação operacional/apoio à decisão e são uma vantagem para os profissionais destas áreas dada a sua flexibilidade e adaptabilidade. Apontaria as fronteiras com (1) as ciências cognitivas e do comportamento para enriquecer ferramentas de apoio à estruturação de problemas, gestão de conflitos e liderança; (2) a analítica pura no tratamento de quantidades massivas de dados, uma vez que os problemas de decisão com que nos deparamos atualmente são cada vez de maiores dimensões e complexidade; (3) a inteligência artificial, nomeadamente na utilização de técnicas de aprendizagem das preferências (4) a informática, sobretudo na conceção/utilização de plataformas web que possam tornar mais acessíveis os métodos e modelos de apoio à decisão e (5) na multidisciplinariedade, mais precisamente no que concerne à utilização de metodologias integradas para a resolução de problemas complexo.