Irlanda do Norte: Um passado por resolver

Passaram-se 20 anos desde que foi assinado o Acordo de Sexta-Feira Santa, ratificado pelo Reino Unido, República da Irlanda e várias forças políticas nacionalistas irlandesas e unionistas britânicas. O acordo representou o culminar de um processo negocial que criou as bases para acabar um conflito sugestivamente apelidado de The Troubles, que durou entre a década de 60 do seculo XX e 1998; e que surgiu na continuidade de uma história longa e sangrenta entre irlandeses e invasores provenientes da Grã-Bretanha.

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Após um período de incursões vikings na Alta Idade Média, a Irlanda começou a ser ambicionada por aristocratas anglo-normandos que estenderam o seu domínio a muitas zonas da ilha. Mas é com Henrique VIII e, mais tarde, com a Rainha Isabel I que o domínio inglês se torna mais absoluto e definitivo até praticamente 1922, ano em que a Irlanda ganhou a sua independência do Reino Unido.

Contudo, nem toda a ilha irlandesa ficou independente do jugo britânico. Alguns condados no norte da ilha, habitados por uma maioria protestante e etnicamente não irlandesa (composta sobretudo por escoceses das low lands e ingleses), mantiveram o poder e ligação com o Reino Unido. Este território veio a chamar-se Irlanda do Norte e tornou-se no epicentro de um conflito que na sua essência é sobretudo étnico.

O domínio britânico na Irlanda ficou marcado por dois flagelos humanitários que ficaram para a história como as Grandes Fomes (estimando-se que a mais mortal tenha resultado num decréscimo da população em cerca de 20%, resultado de mortes e emigração em massa). Note-se que na Irlanda, nomeadamente na Irlanda do Norte, onde a consciência histórica e o ressentimento são mais agudos, é geralmente reconhecida a versão dos acontecimentos que retratam a negligência das autoridades britânicas ao não impedirem, e até fomentarem, a saída de alimentos do país para serem vendidos em Inglaterra e noutras partes do Império Britânico.

Voltemos ao século XXI. Recentemente tive oportunidade de visitar Dublin e Belfast, duas cidades próximas geograficamente, mas distantes em muitos aspetos. Em Dublin o ano de 1998 é longínquo, mas em Belfast fica a sensação que 1998 está ao virar da esquina. Deixo três exemplos: não existem crianças com nomes típicos irlandeses, como Patrick ou Connor, a crescerem num bairro “protestante”; ninguém se arrisca a passear com um cachecol do Glasgow Rangers (clube de futebol escocês com uma base de adeptos protestantes unionistas) num bairro “católico”; e ainda existe um muro a separar as duas comunidades (!). O uso de aspas neste parágrafo serve para ilustrar que o conflito de facto não é religioso como acontece noutras partes do globo – os conflituantes nunca foram caracterizados na sua maioria como fanáticos religiosos, muitos deles não frequentam igrejas sequer, mas identificam-se etnicamente como irlandeses ou britânicos.

A ameaça de um Hard Brexit pode transformar o atual lume brando no fogo que se viveu recentemente. Os grupos armados de ambos lados não desapareceram, a investigação policial norte-irlandesa confirma que muitos dos membros converteram-se em operacionais do crime organizado, como tipicamente acontece no final de conflitos armados. Outro dado político importante a reter é a imensa pressão popular que os eleitores da Irlanda do Norte irão exercer para permanecerem na UE. Essa pressão tem não só uma vertente identitária, por parte daqueles que não se consideram britânicos, mas também uma vertente económica apelativa para outra franja da população (comunidade protestante inclusive) que teme uma depressão económica iminente.

Ironicamente as correntes protecionistas que despoletaram o Brexit no Reino Unido tiveram o sideeffect de também alimentarem a ideia da constituição de uma Irlanda unida que, no referendo de 2016, ganhou um novo alento com o voto favorável de permanência na UE por parte dos eleitores da Irlanda do Norte. Neste caso particular, o remain sugere uma leitura política tão fraturante como o próprio Brexit – o desejo de parte significativa da população em votar um referendo relativo à união das duas Irlandas, tal como previsto no Acordo de Sexta-Feira Santa.

  David Pimenta