De que forma pode ser a mobilidade encarada como um fator de progresso e desenvolvimento económico?

A mobilidade é um requisito essencial para a melhoria da qualidade de vida e um fator de progresso e desenvolvimento económico das cidade, pois é através da mobilidade que conseguimos suprir as nossas necessidades básicas e ultrapassar fronteiras, alargando horizontes, através da partilha de experiências que promovem a diversidade cultural.

Nos últimos anos, as necessidades de mobilidade cresceram consideravelmente, sendo que nos espaços urbanos a realidade é cada vez mais diversificada e complexa, marcada principalmente pela utilização do transporte individual motorizado, uma realidade que tem consequências atmosféricas graves, nomeadamente poluição atmosférica e sonora, e provoca um agravamento das condições de sustentabilidade energética.

A diversidade de oferta de mobilidade é cada vez mais uma realidade na cidade de Lisboa, e o nosso papel, enquanto empresa municipal de mobilidade, é não só fomentar e adotar um comportamento mais amigo do ambiente, mas tudo fazer para facultar às pessoas soluções que deem resposta às suas necessidades, pessoais, familiares e profissionais, através da melhoria contínua das condições de deslocação numa lógica de sustentabilidade.

Uma mobilidade sustentável, baseada nos transportes públicos e nos sistemas partilhados, tem vantagens para todos, estando na base de um desenvolvimento económico das cidades do futuro, pois uma gestão otimizada das necessidades de deslocação é imprescindível enquanto facilitadora do exercício de uma profissão e pode contribuir para o aumento do emprego e da produtividade e, consequentemente, do rendimento, uma vez que, entre outros benefícios, os custos de operação podem ser potencialmente reduzidos. Por outro lado, torna a vivência na cidade mais fluida e inclusiva.

Qual o papel da EMEL para uma mobilidade mais sustentável?

A EMEL tem tido um papel essencial na transformação de Lisboa numa cidade cada vez mais sustentável, estando muito do seu trabalho focado na sensibilização de todos e todas para a boa utilização do espaço comum, explicando as dinâmicas urbanas para um entendimento global da cidade. Destacamos a rede GIRA, um dos serviços pioneiros de mobilidade partilhada em Lisboa, que é certamente, através da sua adesão e sucesso, o grande demonstrador do potencial deste tipo de soluções de mobilidade urbana, que contribuem significativamente para uma mobilidade cada vez mais sustentável. O serviço GIRA conta já com mais 1,4 milhões de viagens realizadas e tem tido, regularmente, mais de 120 mil viagens por mês, com valores que ultrapassam as 6.000 viagens por dia, nos dias úteis. O que pretendemos é que a rede GIRA seja uma alternativa à utilização de veículos poluentes dentro da cidade. Também a pensar numa cidade em que se está bem e na fruição dos peões, é nossa intenção terminar o Elevador da Sé até ao final de 2019, avançar com as obras do Funicular da Graça e requalificar o espaço público da Doca da Marinha.

Com a alteração dos estatutos da EMEL, a empresa alargou a sua atividade a toda a mobilidade e tornou-se na empresa municipal que apoia a CML de forma transversal em toda esta área. Quais foram os maiores desafios deste alargamento?

Os desafios acontecem todos os dias, sempre que os nossos fiscais andam na rua, por exemplo. O alargamento da área em exploração da EMEL foi, e assim continuará a ser, um desafio, que resulta de um trabalho conjunto com as Juntas de Freguesia com o objetivo de oferecer uma melhor mobilidade e um maior bem-estar aos residentes das áreas intervencionadas e, em geral, a quem vive e circula todos os dias na cidade de Lisboa. A gestão e melhoria continuada da rede GIRA, como já referi, é também um desafio diário, sendo essencial para uma maior fluidez do trânsito em Lisboa, ao proporcionar uma meio de mobilidade ao mesmo tempo suave, uma vez que não polui o ambiente, e ativa, uma vez que contribui para uma melhor condição física e uma melhor saúde para quem opta por este meio de transporte público partilhado.

Para complementar este trabalho no domínio da mobilidade urbana suave/ativa e aumentar os desafios colocados à empresa, a EMEL é atualmente a responsável pela construção e gestão das vias cicláveis, estando previsto construir 40 quilómetros de ciclovias, que se juntam ao cerca de 90 já existentes, e requalificar uma extensão de mais de 30 quilómetros. Ainda este ano, a EMEL assumirá novas competências de Modelação de Tráfego, nomeadamente na semaforização, que virá facilitar a tomada de decisões de mobilidade em toda a cidade.

Quais são os projetos mais recentes no âmbito da melhoria da mobilidade que têm o cunho da EMEL?

A política da EMEL visa a melhoria contínua do serviço que presta à cidade e às pessoas. É nesse sentido que tem sido orientada a nossa atuação, não invalidando o facto de estarmos plenamente conscientes do muito trabalho que temos ainda pela frente.

A somar à nossa contribuição para uma mobilidade cada vez mais suave, mais sustentável, e à preocupação com a qualidade do ar que a cidade respira, a EMEL vai contribuir para a disseminação de veículos não poluentes, na sua nova qualidade de Operadora de Pontos de Carregamento para a mobilidade elétrica, disponibilizando 20 pontos de carregamento rápido, distribuídos por três localizações na via pública e instalar 40 pontos de carregamento por ano, até 2021, nos seus parques de estacionamento. Para responder às necessidades de pessoas que residam fora de Lisboa e que trabalham na cidade, estão a ser criados Parques de estacionamento dissuasores, com avenças a 10 € por mês para utilizadores do passe de transportes públicos Navegante, junto a interfaces de Transportes Públicos, evitando a entrada de veículos na cidade; sendo o primeiro desses parques o da Ameixoeira, com 501 lugares. Em desenvolvimento estão, ainda, os Parques dissuasores Manuel Gouveia (398 lugares previstos), Pontinha/Feira Popular (1.800 lugares previstos).

A redução do uso do automóvel é uma dos vossos objetivos mais proeminentes. Ainda se usa muito o automóvel na cidade de Lisboa?

Estimamos que todos os dias entrem aproximadamente 370 mil automóveis em Lisboa, que se vêm juntar aos cerca de 200 mil veículos dos residentes. O papel da EMEL, enquanto empresa municipal de mobilidade e estacionamento passa por gerir e conciliar os potenciais conflitos de interesse entre os residentes e quem vem de fora, e esse é um trabalho permanente, que exige uma gestão racional e inclusiva do estacionamento e das vias partilhadas, capaz de tornar a circulação urbana mais fluída e inclusiva.

Por que aspetos passará o futuro da mobilidade sustentável em Portugal?

A mobilidade sustentável em Portugal só será possível no futuro se tivermos, no presente, uma visão definida do que queremos em 2050 e estratégias delineadas para o alcançar. O maior desafio na mobilidade sustentável é assim, no meu entender, criar soluções sustentáveis, nomeadamente económicas, sociais, ambientais, e acima de tudo, pensadas para as pessoas, porque no final o que importa é o bem-estar e a saúde das pessoas.

É sempre inspirador imaginar um sistema de transportes verde, isto é, livre da emissão de gases com efeito estufa, mas a realidade é ainda bem diferente, a mobilidade está ainda muito assente em veículos movidos a combustíveis fósseis, o que nos obriga a todos, governos, empresas e cidadãos a fomentar comportamentos sustentáveis e a olhar para a mobilidade como um tópico em que a sustentabilidade tem de fazer parte do principal racional.

Uma sociedade evoluída não é aquela em que cada pessoa tem o seu carro próprio, mas sim aquela em que todas as classes usam o transporte coletivo, os sistemas partilhados, e esta é uma questão que começa na educação e nos princípios da sociedade como um todo. Atenção que não estou a falar da  irradicação do automóvel particular, uma vez que em qualquer momento esse pode ser o transporte mais adequado, mas de uma gestão racional e cuidadosa dos diferentes sistemas de mobilidade existentes.

Estamos perante uma revolução semelhante ao que o mundo viveu aquando da invenção do carro, há 125 anos, e, embora seja evidente que Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer, acredito que a nossa resiliência, associada ao facto de sermos uma terra de gente aberta à experimentação de novas soluções, capacita-nos para fazer frente a esta revolução, a era da mobilidade múltipla. (multimodalidade).