A Abel Cardoso, Catarina Carvalho, Esteves De Aguiar & Associados, Sociedade de Advogados foi uma das primeiras sociedades de advogados a surgir em Portugal. O que mudou desde então? Que verdadeiros desafios enfrentam atualmente as sociedades de advogados?

RC – A prática da advocacia tem passado por alterações profundas. Ao anacronismo do advogado generalista alia-se a crescente complexidade económica e social e o fenómeno da internacionalização do Direito, com a consequente complexificação legislativa que impõe a especialização dos advogados. A advocacia de negócios tem conquistado um importante espaço no mercado face à advocacia tradicional de “barra” – o que, creio, suscitará na nossa Ordem uma reflexão sobre o modelo de formação dos advogados, ainda muito ligada às competências forenses. Creio, quanto às sociedades de advogados, que os clientes empresariais procuram hoje o apoio jurídico junto de estruturas mais leves, logo mais competitivas e habilitadas para dar resposta rápida e personalizada às suas solicitações.

CTC – Desde 1992 muita coisa mudou na advocacia em Portugal. Passou-se da prática isolada ao trabalho em equipa que é uma mais valia do exercício da advocacia em sociedade, sobretudo hoje com a jurisdificação do mundo em que vivemos. Ocorreram ainda grandes alterações tecnológicas, e o Direito não podia ficar de fora, as quais trouxeram grandes benefícios não só como ferramenta de trabalho, mas também no relacionamento com os clientes, permitindo uma atualização constante da informação. O grande desafio que hoje enfrentamos é o da especialização, a formação continua e a internacionalização.

Olhando para o panorama atual do setor da advocacia em Portugal, que papel assume hoje a ACCE Sociedade de Advogados no mercado?

RC – A ACCE integra advogados experientes em diversas áreas do Direito que lhe tem permitido conquistar a confiança de empresas de vários setores económicos e de clientes institucionais públicos. Oferecemos aos nossos clientes serviços orientados para a resolução de necessidades novas (o caso da proteção de dados pessoais e do copyright). Prestamos apoio à internacionalização e ao investimento no mercado nacional por clientes estrangeiros. Orgulhamo-nos da fidelização que conquistamos dos nossos clientes, sustentada na disponibilidade, na personalização da relação advogado-cliente e na prontidão da resposta às solicitações.

CTC – A ACCE está bem posicionada no mercado pois abrange uma franja de clientes empresariais e individuais com características próprias, de vários sectores de actividade. A nossa dimensão faz alguma diferenciação na proximidade com o cliente. Basta ver que temos clientes há mais de 20 anos, alguns desde o início, o que é um sinal da confiança em nós depositada. Convivemos bem com as grandes sociedades. Aliás, vezes houve em que já trabalhámos em parceria com uma ou outra, num determinado contexto, o que é muito salutar.

E a mulher? Que papel assume atualmente a mulher num setor associado até há bem pouco tempo, maioritariamente, ao sexo masculino?

RC – Há hoje mais mulheres do que homens no ensino superior, o que altera o rácio de mulheres vs. homens no mercado de trabalho, mas não creio que o aumento do número de advogadas cause por si só modificações no exercício da profissão: o que releva é o mérito, e o mérito não é mais ou menos recorrente em função do sexo. A discriminação combate-se antes de mais com dedicação e profissionalismo.

CTC – Atualmente, temos mais advogadas inscritas do que advogados. Por isso há já bastante tempo que advocacia deixou de ser associada ao sexo masculino. O conhecimento, a aprendizagem e o rigor que a profissão exige, não estão condicionados ao sexo masculino ou feminino. Na ACCE acontece exatamente o inverso pois somos mais advogadas do que advogados. A única dificuldade que poderá ser sentida pelas advogadas, e falando genericamente, seja a de conseguir conciliar o exercício da profissão com a organização da vida familiar, o que obriga a uma gestão criteriosa do tempo, nem sempre fácil de conseguir.

Rosário Coimbra e Catarina Carvalho são advogadas na ACCE Sociedade de Advogados e contam já com um vasta experiência profissional. O que as motiva e inspira diariamente?

RC – Motiva-me a procura de soluções criativas para problemas difíceis e as abordagens inovadoras. Os clientes empresariais procuram pragmatismo nos advogados, orientado para soluções cujas variáveis ultrapassam a perspetiva jurídica das solicitações que nos dirigem. A minha experiência como advogada “in house” em duas das maiores construtoras portuguesas contribuiu decisivamente para o meu perfil profissional.

CTC – Tenho já 28 anos de advocacia e continuo a exercê-la com entusiasmo. Gosto de argumentar, de estudar, de ensinar, e de aprender. A solução para uma questão pode exigir muito de nós, quer a nível técnico-jurídico, quer apelando à experiência e intuição. Mas tenho o privilégio de trabalhar numa sociedade, da qual fui fundadora, onde se preza muito a interajuda, a troca de conhecimentos e a boa disposição. Temos um excelente ambiente de trabalho, o que é essencial.

O que diriam que vos define e carateriza enquanto mulheres e profissionais?

RC – Gosto do debate e da controvérsia. Confio nas vantagens da troca de ideias como método para alcançar soluções para problemas concretos e irrepetíveis. Os melhores momentos da minha carreira passaram-se em estimulantes debates ou negociações. Dá-me gozo a retórica e a aptidão que nós, juristas, desenvolvemos na desconstrução de um conceito até ao núcleo mais irredutível. E atravesso a vida e a profissão com humor – talvez o mais complexo e sedutor aspeto da existência.

CTC – Como advogada preocupo-me em dar o melhor, em estudar bem as questões, defender o interesse do meu cliente com profissionalismo, empenho e dedicação. Só sei ser advogada assim e é isso que me move. Como mulher não sei bem sintetizar o que me define, mas prezo muito a lealdade, a alegria e o sentido de humor.

A desigualdade de género é uma questão que continua a merecer a devida atenção de todos nós, com as mulheres a continuarem a ser alvo de discriminação económica e social. Esta é, de facto, uma questão que iremos conseguir mudar ou combater?

RC – A realidade mostra que as mulheres ganham menos e ascendem com menor frequência a posições de direção, mas esse status quo não se altera pela imposição de modelos sociais paradoxalmente desigualitários, em que os homens deixam de ter direitos. Recuso a ideia de quotas, vagamente humilhante por “bastar ser mulher” para exercer um cargo. Sou crítica da hipercriminalização e da normatização de comportamentos, que retiram espontaneidade às relações sociais e afetivas. É pela evolução social que se alcança a igualdade de oportunidades e o recuo das situações discriminatórias.

CTC – A discriminação económica e social ainda existe em determinados sectores de actividade, mas é cada vez mais frequente encontrarmos mulheres em lugar de topo e com salários iguais aos do homem em idêntico cargo. A desigualdade é uma questão cultural que se deve combater mas só com a mudança de mentalidades. Mas forçar a paridade pode levar a situações indesejáveis em que não se contrata pelo mérito mas para agradar às estatísticas.

A desigualdade de género foi ou é, de alguma forma, uma realidade para vocês?

RC – Durante duas décadas estive ligada a empresas cujos quadros eram maioritariamente homens e nunca tive qualquer experiência que possa qualificar de discriminatória. Acredito que a discriminação se atenua pela adoção de posturas de paridade, mas reconheço nem toda a discriminação pode ser debelada de forma evolutiva e que a sua erradicação é difícil, por depender de fatores que demoram décadas.

CTC – Nestes anos de profissão não conheci nunca qualquer discriminação por ser mulher. Aliás, fundei a sociedade em igualdade de circunstâncias com o meu primeiro sócio Abel Cardoso, e mais tarde com a entrada do sócio José Esteves de Aguiar mantive a mesma posição, sem me ter sentido ultrapassada.