Advogada há mais de três décadas, Dulce Franco, trabalhou numa das maiores sociedades de advogados portuguesas, tendo, em 2008, constituído a prestigiada sociedade de advogados AAA. Foi vogal do Conselho Distrital da Ordem dos Advogados, secretária de estado da Economia, é membro de várias organizações profissionais e autora de escritos para publicações do setor da advocacia. Recentemente foi eleita pela revista especializada Iberian Lawyer uma das 50 advogadas que mais se destacam na advocacia empresarial na Península Ibérica, reconhecimento atribuído pela sua ética profissional, competência técnica, relações interpessoais, capacidade de mentoring e de liderança.

A advocacia é uma vocação que surge já na Universidade (Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa) e que começa a exercer em 1983.  Com uma história e currículo extenso, diz que ainda tem “muito para fazer”. Considera indispensável para ser advogado “a rectidão de caracter a par da ética profissional, o conhecimento e a independência.” Estes são os seus princípios “partilhados entre todos os advogados da AAA”.

Foi com base neles que um grupo de advogados que trabalhavam em conjunto há muitos anos, constituiu a AAA, “uma business law boutique não só pelas áreas de direito em que trabalha, mas também pela sua dimensão e métodos de trabalho”.

Tais princípios valeram a Dulce Franco a distinção Top 50 Women List a nível ibérico. Da lista constavam 42 espanholas e oito portuguesas, eleitas por mais de 1.000 pares. Foram reconhecidas como notáveis nas suas carreiras, inspiradoras das novas gerações.

 “O momento mais marcante até agora foi a constituição desta sociedade.” Diz que “foram muitos anos na PLMJ, aprendi muito, fiz muitos amigos, conservo muitos e outros tenho pena de não conservar. Foi uma grande mudança e foi difícil sob o ponto de vista afetivo, mas um desafio novo é muito motivador”.

O início da sociedade AAA “não foi difícil do ponto de vista do lançamento do escritório. Os clientes com quem trabalhávamos quiseram seguir-nos e a dinâmica do escritório faz o resto”.

Passaram 11 anos desde a sua fundação. Com humor, a advogada diz “somos uma sociedade relativamente jovem mas somando a experiência de todos temos quase um século”. E continua, “os princípios são os mesmos e ter êxito nesta sociedade depende das capacidades de cada um, estudo, trabalho, dedicação em todos os planos, mas todos têm as mesmas oportunidades. Os mais jovens, têm a possibilidade de crescer, sem barreiras”.  E acrescenta:  “Há um tempo, uma revista especializada considerou a nossa sociedade no top 10 das sociedades de advogados portuguesas que mais oportunidades de crescimento oferecem aos advogados mais jovens. Nem nos passa pela cabeça que esse crescimento dependa do género”.

O escritório AAA é constituído na sua maioria por mulheres, um pormenor que descarta como intencional, “as pessoas que aqui estão valem absolutamente pelo seu caráter e pelo seu trabalho, como deve ser em qualquer ambiente profissional”.

O escritório tem vindo a crescer, mas não pensam crescer muito. “As sociedades grandes e as sociedades pequenas têm características diferentes, nem todas boas, nem todas más. Não queremos ser uma sociedade grande, interessa-nos muito mais a qualidade dos serviços que prestamos e a agilidade da organização que uma maior dimensão. Fazemos aquilo que acreditamos que os nossos clientes sabem que fazemos bem.”

Questionada sobre as características especiais que um bom advogado deverá ter, Dulce Franco é pragmática: “Ter paciência, é essencial! Lidamos com muitas pessoas, muito diferentes, as solicitações são muitas, as questões são quase sempre urgentes e bastante absorventes, muitas vezes imprevistas, obrigando-nos a reavaliar prioridades. Todos os dias são exigentes, é uma profissão exigente”.

Quando referimos o facto de ser mulher e advogada, Dulce Franco diz “Sempre tentei, com o apoio incondicional da minha família”. E acrescenta “as advogadas que têm uma estrutura familiar disponível ou outro tipo de apoio em casa, conseguem conciliar a vida profissional com a familiar, e mesmo assim com muita ginástica, caso contrário é praticamente impossível. Assegurar uma disponibilidade quase permanente e estar presente na família, que também tem imprevistos, exige muita flexibilidade. Não quero dizer que não seja exigente para os pais advogados, mas mesmo com muito boa vontade as mães são mães e os pais são pais. Os géneros não são iguais, há algumas questões na família que são, naturalmente, mais da mãe e outras mais do pai, se há bom espírito, tudo se resolve”.

Olhando para o passado, “a verdade é que nunca senti facilidade ou dificuldade no meu trabalho por ser mulher. Devo ter encontrado sempre pessoas inteligentes que nunca tenham olhado para mim nessa perspetiva, mas pelas capacidades que me atribuíram”.

Sobre se a advocacia foi um sonho diz “nunca tive uma visão particularmente romântica da profissão. Acho que fui sempre talvez um pouco argumentativa e tenho tendência para causas, defender aqueles que seja por que circunstâncias for precisam de ser defendidos ou de fazer valer os seus direitos. Acho que anda perto do que é ser advogado”.

A nossa entrevistada explica “as enormes diferenças entre o que era a advocacia quando comecei e como é agora. Para já, há a questão do tempo, quase tudo é urgente e urgente quer dizer instantâneo. Depois, há as tecnologias aplicadas à profissão, que nos ajudam e nos poupam tempo para pensar. E os próprios advogados são diferentes. O que vou dizer são generalizações, se me puser a pensar em pessoas em concreto, merece muitas excepções! Nas gerações anteriores, os advogados eram uns humanistas habilitados em direito, sabiam direito e muito mais, e trabalhavam em todos as áreas. A minha geração, embora mais dedicados a certas áreas, é bastante de generalistas, com o que isso também tem de positivo. As gerações mais novas começam cedo a definir linhas de especialidade, tentamos que não seja demasiado cedo, uma boa formação não se coaduna com uma especialização prematura. Tudo dito, sempre continuarão a existir brilhantes advogados, pessoas de excepção, que engrandecem a nossa profissão”.