A identidade portuguesa está fortemente ligada à história do vinho em Portugal, considerado um dos maiores produtores de vinho a nível mundial. Este é, sem dúvida, um setor com um forte potencial a vários níveis?

A vinha e o vinho fazem, realmente, parte da cultura portuguesa. O setor é já uma componente importante da economia nacional, até na componente da exportação. Segundo dados da ViniPortugal, as exportações de vinho português, em 2018, representaram 803 milhões de euros, um crescimento em valor de 24 milhões face a 2017.

Quanto ao Dão, a região exporta mais de 40% da sua produção. Deste total, 40% vai para países da União Europeia e 60% para países terceiros.  Destes últimos os principais são: Canadá, EUA, Brasil, China, Angola, Hong-Kong, Macau, Moçambique, Japão. Dos primeiros são: Alemanha, Reino Unido, França, Bélgica, Polónia, Países Baixos, Dinamarca, Luxemburgo. É, portanto, um setor consolidado e transversal à nossa economia.

Conhecida como a Borgonha Portuguesa, a Região Demarcada do Dão, instituída em 1908, foi a primeira região demarcada de vinhos não licorosos do país. Que principais características definem e distinguem esta região?

O Dão é um vinho fortemente distintivo tanto pelo carácter que apresenta quanto pela sua elegância.

Destaca-se também pela sua inquestionável capacidade de envelhecimento (aplicável também aos brancos) e a sua evolução na garrafa, resultando em vinhos nobres, elegantes, com elevado potencial de guarda à semelhança da Borgonha, como refere.

Temos também o Encruzado, casta-emblema nos brancos da região, que proporciona grandes vinhos pela sua invulgar capacidade de envelhecimento e evolução e a Touriga Nacional, casta autóctone do Dão, que nos dá vinhos concentrados, frescos e elegantes como só uma região granítica e envolvida por maciços montanhosos pode proporcionar.

Para lá de uma altitude média acima dos 400 metros, há por aqui um cruzamento de influências mediterrânica, atlântica e continental, a proporcionar um ambiente que não tem paralelo em qualquer outra região. E isso reflete-se no conteúdo das garrafas.

Esta carismática região portuguesa está a ganhar especial destaque no panorama internacional. E a nível nacional? Que importância assume no país e para o país?

Embora com um crescimento de 0,4% em 2018 no mercado nacional, o Dão está num processo de redescoberta pelo consumidor português, isto por um facto histórico que tem a ver com o Estado Novo na medida em que a política agrícola estava mais voltada para a organização profissional das fileiras produtivas do que para a competitividade e a qualidade. Por tal razão, quando outras regiões do país começaram a produzir vinhos, especialmente depois da adesão à Comunidade Europeia e graças aos apoios desta, as regiões vinhateiras mais tradicionais, como foi o nosso caso, sofreram um rude embate com a concorrência das novas regiões produtoras. Consequentemente, perdeu uma boa parte da quota de mercado que tinha.

Ainda assim, podemos dizer que os vinhos do Dão gozam hoje de uma imagem de diferenciação e prestígio por parte da crítica especializada. É um trabalho que se deve aos profissionais do setor na região: produtores, cooperativas, empresas, enólogos, etc. E que, obviamente tem que continuar, pois como acima referi, é preciso estar sempre presente no mercado com uma política continuada de promoção, para alavancar a qualidade que os produtores têm conseguido.

Em suma, somos mais reconhecidos no panorama internacional do que em Portugal embora, paulatinamente, caminhemos para essa maior afirmação em termos de quota no mercado nacional.

A Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão) é a organizadora do Concurso “Os Melhores Vinhos do Dão Engarrafados”, uma iniciativa para premiar os produtores e atribuir mérito ao trabalho desenvolvido nas áreas da viticultura e da enologia. Qual é o balanço das iniciativas já organizadas até à data?

O ano passado organizamos a IX edição do Concurso “Os Melhores Vinhos Engarrafados do Dão” com Beatriz Machado, Diretora de Vinhos da The Fladgate Partnership, como Presidente do Júri e introduzimos uma novidade que foi um Júri ainda mais alargado, de cariz Ibérico, com 32 nomes de elevada notoriedade e reconhecimento no setor dos vinhos, desde enólogos, sommeliers e jornalistas especializados. De ano para ano, sobem também o número de vinhos a concurso, o que traduz a vitalidade da região e também o mérito da iniciativa. Os vinhos medalhados no concurso são também utlizados em eventos de promoção realizados pela Comissão Vitivinícola Regional do Dão.

Seguimos em frente com a preparação da décima edição em junho de 2019, com a apresentação dos premiados numa grande Gala, a realizar no dia 12 de julho no Solar do Vinho do Dão, em Viseu.

Por outro lado, este concurso é também uma forma de estimular a produção de vinhos de qualidade e valorizar o nível técnico e comercial dos vinhos da região, bem como distinguir e dar a conhecer aos consumidores os melhores vinhos produzidos nesta região demarcada. Quais são, portanto, as expectativas para o setor vitivinícola desta região?

Os nossos produtores foram capazes de preservar as castas tradicionais da região e, a partir delas, integrar tecnologia, quer nas vinhas, quer nos vinhos, mantendo a identidade que nos caracteriza.

As novas práticas vitícolas e as novas tecnologias de vinificação aliaram-se a um espírito empreendedor de querer fazer melhor, com resultados que têm provado que as novas opções têm sido as mais corretas.

Tem-se também verificado a entrada de novos investidores no Dão, através de produtores já presentes em outras Regiões Demarcadas que pretendem alargar a seu portfólio e veem a região como valor agregado, como de novos “players” que entram neste negócio e nos veem como a base ideal para o seu início. Estamos, portanto, muito confiantes em relação ao nosso futuro.

A qualidade e as características ímpares dos vinhos portugueses têm vindo a receber reconhecimento internacional e a conquistar concursos internacionais. Mas que verdadeiros desafios se colocam aos produtores portugueses quando falamos de internacionalização e inovação?

Um estudo recente da ViniPortugal – onde fazemos parte da Assembleia Geral – recolhido em 16 países, diz-nos que há um crescente interesse por parte do “trade” e consumidores, em relação ao vinho português. Outro estudo, realizado na Prowein, em Dusseldorf, uma das maiores feiras de vinho no mundo, coloca Portugal no 1º lugar quanto à preferência dos retalhistas na procura de novas origens vitivinícolas.

São excelentes indicadores que nos trazem novas responsabilidades para as quais a região já se preparou. Durante todo o ano de 2018, com o apoio de uma empresa consultora internacional, preparamos um plano estratégico a dez anos que definiu prioridades e linhas de ação para o conjunto de mercados-alvo que resultaram desse estudo, nomeadamente, EUA, Brasil, Japão e Suíça.

Temos ações de promoção próprias, já calendarizadas para o ano corrente, que envolvem a Alemanha, Suíça, EUA, Canadá, Brasil, Inglaterra e Japão decorrentes de projetos financiados pela União Europeia. Apoiamos também a inscrição em reconhecidos concursos internacionais dos nossos Agentes Económicos, para que agreguem notoriedade aos seus vinhos.

Em paralelo, decorrem as que resultam do protocolo existente com a ViniPortugal desde 2014, como a presença em diversas feiras internacionais e visitas inversas de jornalistas e importadores estrangeiros à Região.