“Portugal tem o maior espaço aéreo da Europa”

Embora reúna todas as competências no que toca a profissionais, técnicas e condições favoráveis para uma maior evolução, o campo da aeronáutica não está a ser aproveitada no seu total esplendor em Portugal. Esta é a opinião do Professor Catedrático e Coordenador da Área Científica de Mecânica Aplicada e Aeroespacial do Departamento de Engenharia Mecânica, Luiz Braga Campos que, ao longo dos seus 40 anos de carreira, já escreveu 150 artigos, é autor de dez livros sobre as áreas de aeronáutica e aerospacial e participou em mais de 30 projetos de investigação internacionais.

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A procura por estes cursos tem crescido de tal forma que muitos são aqueles que ficam de fora na altura do acesso ao ensino superior. No Instituto Superior Técnico de Lisboa as exigências são tão grandes quanto as mentes brilhantes dos 80 alunos que todos os anos têm a possibilidade de ingressar num instituto superior que se qualificou, a nível europeu, como um dos melhores nas engenharias.

Engenharia aeronáutica e aerospacial nos dias de hoje

Existe em Portugal uma tendência para distinguir engenharia aeronáutica da aerospacial e que, segundo Luis Braga Campos, está errada. “A indústria é a mesma. Cerca de 90% de aeronáutica e 10% da espacial compõem o setor. As empresas, tecnologias e as bases são as mesmas. Até aos anos 50 falava-se essencialmente em engenharia aeronáutica e depois começou a falar-se de aerospacial porque a tecnologia espacial tornou-se mais importante. Não existe uma divisão. As tecnologias que formam um avião e um satélite são semelhantes, apenas são combinadas de outra forma”, começa por explicar.

Relativamente à sua evolução em Portugal, o nosso interlocutor elogia o país em várias áreas mas defende que apesar de reunir todas as competências, ainda falta a Portugal entender que tem de ingressar programas europeus: “Na realidade temos competências em muitos domínios para além das engenharias. Mas falando em engenharia aeronáutica, e se começarmos a olhar para a vertente do ensino e da investigação, podemos concluir que estamos muito bem posicionados a nível europeu. A determinada altura o Técnico chegou a ser a instituição que detinha mais projetos de investigação aeronáutica na Europa. Portugal tem o maior espaço aéreo da Europa, do ponto de vista industrial a atividade é forte em manutenção e fabrico, podíamos fazer muito mais mas falta-nos participar nos grandes programas europeus de aeronáutica. Se tivéssemos 1 ou 2% do Airbus isso fazia toda a diferença. Temos toda a competência para isso e não o fazemos e na minha opinião é falta de coordenação entre ministérios.”

Questionado sobre o que se passa então para que esse passo não seja dado, a resposta é perentória: “falta de coordenação entre ministérios, entre os utilizadores com a investigação, da defesa com a indústria e dos transportes com as telecomunicações”.

“Emprego? Se for para medicina tem emprego em Portugal, se for engenheiro aeronáutico tem emprego em toda a europa”

Mas nem essa falta de acervo na evolução intimidam as centenas de jovens que todos os anos tentam ingressar por esta via. A média de acesso ultrapassou a de medicina e tem atingiu um nível de excelência que indica que não é um curso para quem gosta de algum facilitismo. “Estes são cursos trabalhosos, não impossíveis de terminar mas requerem seriedade”, aponta o professor.

Relativamente às saídas profissionais, facto é que este é um curso interdisciplinar e como tal tem uma panóplia diversa de saídas profissionais em quase todas as engenharias. “É frequente pensar-se que a aeronáutica é algo muito específico, porém, é das engenharias mais interdisciplinares. Um avião tem aerodinâmica, propulsão, materiais, estruturas, eletrónica, computação, telecomunicações… Formamos engenheiros para aeronáutica mas eles podem desenvolver outras áreas da engenharia devido à formação alargada. A aeronáutica é uma síntese de tecnologias de ponta porque são essas tecnologias que são em primeiro lugar num avião e só depois segue para outros setores onde a tecnologia é importante como o setor automóvel”, completa Luiz Braga Campos.

A média de conclusão de curso é de cinco anos, ou seja, a maioria termina no prazo. Ao que parece, aquilo que falta é mesmo o aumento do número de vagas, algo que na opinião do professor não irá acontecer: “O Estado tem um belo negócio com o curso de engenharia aerospacial do Técnico. Tem um excelente curso a nível nacional, gasta o mesmo valor que com os outros e não tem praticamente reprovações”. Há muitos candidatos que se conseguissem ingressar também seriam capazes de concluir o curso e teriam emprego garantido, mas esse facto aparentemente pesa pouco na atribuição de vagas, conclui.