Natural de Casal de Cinza, Guarda, licenciado em física pela Universidade de Lisboa e doutorado em engenharia eletrónica pela Universidade de Liverpool, Fernando Carvalho Rodrigues, apelidado e conhecido como o “pai” do satélite português, liderou o projeto que pôs em órbita, há 26 anos, o primeiro satélite português, o PoSAT-1.

Com 43 pessoas envolvidas no projeto da construção do primeiro satélite português, este foi um dia importante, pois ficou marcado na história como o dia em que Portugal recebe um louvor por parte das Nações Unidas por entrar oficialmente para o grupo de países que detinham satélites.

Com cerca de 50 kg, o lançamento do PoSAT-1 foi realizado no Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa.

Financiado pelo programa Específico de Desenvolvimento da Indústria Portuguesa, o projeto foi igualmente financiado em 6 milhões por empresas portuguesas envolvidas no Consórcio Po-SAT: INETI, EFACEC, ALCATEL, MARCONI (atual ALTICE), OGMA, UBI e CEDINTEC.

Durante 13 anos o satélite operou nas suas funções, uma longevidade muito superior aos cerca de cinco/oito anos de tempo de vida estimados do equipamento. Foi utilizado para observar o planeta e operar ao serviço de empresas de telecomunicações de diversos países, inclusivamente as Forças Armadas Portuguesas.

Durante a entrevista que concedeu à Revista Pontos de Vista o Professor Carvalho Rodrigues partilhou connosco curiosidades, factos e lembranças de há 26 anos.

Confidenciou-nos que no dia do lançamento do PoSAT-1 correu o risco de ver o seu lançamento ser sabotado, após Carvalho Rodrigues receber uma chamada do Ministérios dos Negócios Estrangeiros a alertar que existia um país que tinha entregado um protesto formal nas Nações Unidas contra o lançamento do satélite português. “Tratava-se de um país poderoso que nunca tinha feito nenhum protesto até à data, a Arábia Saudita. Mas o satélite foi lançado na mesma debaixo deste protesto, pois até ao final do dia não recebei nenhum fax para poder confirmar o que me diziam. Chegou a hora e tive de lançar o satélite. Que fossem lá buscá-lo depois se quisessem”, disse entre risos. “Mas no fim ficou tudo resolvido e correu tudo bem”.

Recorda também, e com alguma nostalgia, o dia em que foi assinado o contrato do protocolo do PoSAT-1. “Lembro-me perfeitamente desse dia. No momento em que vou assinar o protocolo com o dia e a hora do lançamento do satélite definidos há um senhor que se dirige até mim e que me pergunta se era eu quem iria ser responsável pela construção e lançamento do satélite. Deu-me um relógio de pulso e diz-me: «é para ver passar o tempo». É neste momento que caio na realidade do projeto e da responsabilidade que tinha entre mãos e da precisão de um projeto destes. Afinal de contas, aqui só se falha uma vez e não temos mais nenhuma oportunidade de repetir”, confidencia, Carvalho Rodrigues.

No dia do lançamento do satélite lembra-se perfeitamente de estar com o coração apertado. “Depois do sucesso do lançamento toda a gente começou a festejar, tivemos de participar na festa, mas só saberíamos que tinha corrido tudo bem quando o satélite começasse a enviar informações. Até o comando de satélites em Sintra receber os sinais não sabíamos se estava a correr tudo bem”, explica o professor. Nesse dia, o engenheiro Nobre da Costa dono da EFACEC, a empresa que liderava o consórcio do PoSAT-1, disse-lhe ainda: “espero que saiba o que está a fazer porque eu tenho lá 600 mil contos (3 milhões de euros) investidos”, relembra Carvalho Rodrigues, partilhando com orgulho que a sua equipa autointitulava-se de o “pai e os cavaleiros do PoSAT – 1”. “A ligação que se criou entre as pessoas que constituíram esta equipa é algo que fica para sempre”, afirma.

“O MAIOR NEGÓCIO DE HOJE É O ESPAÇO”

Fernando Carvalho Rodrigues fala deste projeto com muito orgulho, mas relembra que ficou pelo caminho um outro projeto de grande dimensão, a criação de uma rede de 26 satélites, dos quais três iriam estar permanentemente sobre Portugal a garantir comunicações e a observar o território. Para o professor Portugal perdeu a oportunidade de estar no negócio do espaço, um setor que movimenta muitos milhões e onde a ALTICE assume atualmente, na ótica do professor, um papel fulcral neste setor em Portugal.

Hoje, Carvalho Rodrigues lamenta a desindustrialização do país e o fim dos laboratórios do Estado em 2006. No entanto, já afirmou que tem esperança de que em 2020 seja colocado em órbitra um novo satélite nacional, através do cluster português ligado às indústrias da Aeronáutica, Espaço e Defesa.

A verdade é que o “pai” do primeiro satélite português gostava de ver Portugal apostar na construção de satélites com fins industriais.

“TENHO DE FAZER COISAS. TENHO DE FAZER ACONTECER”

Cientista emérito, Fernando Carvalho Rodrigues foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Prémio Pfizer, duas vezes o Prémio Gulbenkian de Ciência e Tecnologia e o Prémio Albert J. Myer. Membro de diversas academias científicas internacionais, ensinou no Instituto Superior Técnico, na Universidade Independente, na UBI e no IADE, fundou o ensino da Optica-Optometria em Portugal, foi um dos fundadores da EID-Empresa de Investigação de Electrónica, S.A.,coordenou a Unidade de Investigação em Design e Comunicação (UNIDCOM/IADE), e foi Diretor do Programa de Ciência “Novas Ameaças e Desafios” na NATO.

Professor jubilado, Fernando Carvalho Rodrigues foi ainda reconhecido com a concessão do título de Professor Emérito.

Nos últimos 13 anos da sua carreira trabalhou no Quartel-general da NATO, vivendo em Bruxelas. Há sete anos regressou às origens, Casal de Cinza, na Guarda, e em 2016 lecionou pela última vez. “Já há anos que afirmava que quando terminasse a minha carreira que iria regressar a Casal de Cinza. Ninguém acreditava. Existe uma determinada altura das nossas vidas em que temos de nos afastar e deixar os mais novos ocupar os nossos lugares, com ideias novas e cheios de força e motivação. Não podemos deixar as pessoas eternizar-se, temos de dar lugar aos mais novos. A cada geração tem de ser dada a oportunidade de aprender e de ser ouvida”, explica-nos Carvalho Rodrigues acrescentando que por esse motivo é contra os direitos de autor. “Sou a favor de que «as coisas são de quem as utiliza melhor», como dizia Alexandre Herculano”, diz-nos Carvalho Rodrigues. “Não quero tapar o lugar a ninguém”.

Hoje continua a receber alunos de doutoramento que passam temporadas em Casal de Cinza e está a dedicar-se ao livro que está a escrever, «Lidar com o desconhecido». “Tenho de fazer coisas. Tenho de fazer acontecer”.

Como o próprio afirma “uma pessoa como eu que se envolveu em projetos como a construção de um satélite não se preocupa, ocupa-se”. Assim, Carvalho Rodrigues tem-se dedicado agora à criação de cavalos lusitanos e de burros mirandeses, à exploração agrária, à recuperação dos barcos tradicionais do Tejo e à manutenção da Marinha do Tejo da qual é um dos fundadores. Afinal de contas, “é preciso ousar dar um destino [às coisas] ”.