“Eu não quero trabalhar muito!” por Miguel Coelho

Um dos temas frequentemente debatido compara o número de horas de trabalho com os níveis de produtividade, sendo uma discussão algo controversa. Grandes líderes defendem que quanto maior for o número de horas e de dias dedicados ao trabalho, maior será a produtividade que se obtém. Trata-se de um raciocínio simples: se te ocupas muito tempo a fazer algo, produzirás em maior quantidade. Por exemplo, se um vendedor contactar 5 clientes por dia tem um potencial de vendas inferior ao de outro vendedor que contacta 10 clientes no mesmo dia.

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Existem, no entanto, outras opiniões, também defendidas por nomes relevantes no panorama da Gestão das Organizações e das sociedades que defendem que talvez a relação entre uma coisa e a outra possa ser um pouco mais complexa. Eu, humildemente, estou neste grupo.

A OCDE estudou estas duas variáveis (tempo de trabalho e produtividade) em diversos países e publicou resultados que constituem “food for thought” (perdoem-me o estrangeirismo, mas dito em português não parece tão impactante):

– Dos que trabalham mais horas por ano, encontramos a Grécia, a Coreia do Sul, a Costa Rica ou o México;

– Dos que trabalham menos horas temos países como a Alemanha, a Dinamarca e a Noruega;

– Entre aqueles onde se regista a maior produtividade, inserem-se a Noruega, o Luxemburgo ou a Irlanda;

– Já quanto aos que apresentam mais fraca produtividade, situa-se a Rússia, a Costa Rica e o México.

Ao fazermos o exercício de verificar onde um país se encontra em mais de um dos quadrantes acima descritos, registamos pela positiva a Noruega que, com menos horas de trabalho alcança das maiores produtividades. Quanto aos que trabalham mais, mas obtêm resultados mais fracos, coincidem a Costa Rica e o México.

No entanto, ao analisarmos o gráfico com todos os países, percebe-se que não existe uma relação direta, ou seja, trabalhar muito não significa necessariamente produzir muito. Em rigor, os países com maior produtividade estão entre os que dedicam menos horas ao trabalho, como que a dizer, têm um maior equilíbrio entre o tempo de trabalho e o tempo de lazer. O que acontece na prática é que, quando estão a trabalhar, não gastam tempo em tarefas improdutivas ou gerem gorduras nas organizações.

E Portugal? Não sendo dos países que mais horas trabalham, estamos abaixo da linha de água relativamente à produtividade. Curioso também verificar que, dos países que trabalham mais horas do que em Portugal, apenas a Irlanda, a Islândia e os EUA apresentam maior produtividade; todos os demais produzem menos que os portugueses.

 Naturalmente que não deixo de extrapolar estas conclusões para as organizações. Não sendo propriamente um defensor da Gestão do Ócio, e tendo a perceção que para alcançarmos os resultados que sabemos que estão ao nosso alcance temos que sair da nossa Zona de Inércia e procurar o espaço de trabalho onde somos disruptivos, com competitividade, implementando projetos, desafiando o status quo, celebrando as nossas vitórias, analisando as nossas derrotas e fazendo de novo, correndo riscos. Esta, que designo como a Zona de Conforto dos grandes profissionais.

Assim se alcança o sucesso. Ao conseguirmos fazê-lo em menos tempo, significa que somos mais produtivos, mais eficazes e celebramos novamente.