BIM: o ponto de viragem no setor da construção

"Nesta Europa pouco homogénea, que enfrenta um conjunto de desafios políticos, económicos, ambientais e sociais, o setor da construção, com a importância que lhe é reconhecida, está a procurar assumir o seu tradicional papel de motor do crescimento económico, num quadro mais tecnológico, inovador e competitivo".

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À semelhança de diversos países desenvolvidos no mundo, também a Europa e particularmente Portugal, estão num processo de adoção BIM. Com pontos de partida e contextos diferenciados, os países da União Europeia apresentam estados de maturidade BIM bastante assimétricos. Nesta Europa pouco homogénea, que enfrenta um conjunto de desafios políticos, económicos, ambientais e sociais, o setor da construção, com a importância que lhe é reconhecida, está a procurar assumir o seu tradicional papel de motor do crescimento económico, num quadro mais tecnológico, inovador e competitivo.

Considerado tradicionalmente lento na adoção de tecnologias digitais em comparação com outras indústrias, o setor da construção define o seu ponto de viragem através da implementação da Metodologia BIM – Building Information Modelling. Neste contexto, o BIM assume-se como o novo paradigma no contexto da transformação digital da indústria AEC – Arquitetura, Engenharia e Construção, representando uma nova e diferente forma de trabalhar e pensar no setor da construção, onde a transparência, comunicação e a colaboração entre as partes são fatores decisivos.

A integração de um novo paradigma que se baseia na digitalização e utilização da tecnologia, servirá deste modo, para reduzir erros de projeto e construção por via da simulação em ambiente virtual, permitindo uma maior facilidade de colaboração e troca de informação entre os intervenientes, bem como na diminuição de erros e omissões que em regra resultam em prazos de execução e custos dilatados.

Porém, apesar de esforços pontuais vindos dos mais diversos quadrantes, todo o setor da construção apresenta um grau de desconhecimento considerável no que se refere à metodologia BIM, que pode ser analisado segundo duas perspetivas, académica e empresarial.

No plano académico, o BIM continua a não ser assumido pela maioria das instituições de ensino superior como matéria prioritária a integrar no plano curricular de cursos diretamente ligados à indústria AEC.  Esta realidade, tem como principal consequência, o desajuste dos conteúdos lecionados face às mais recentes e importantes transformações do setor, retirando competitividade aos futuros profissionais, prestes a integrar um mercado de trabalho altamente competitivo e globalizado.

Ao nível empresarial, algumas entidades sentem a necessidade de formar quadros em ferramentas de modelação paramétrica, principalmente aquelas ligadas ao projeto de arquitetura e engenharia, como forma de otimizar os seus processos internos de trabalho. No entanto, salvo algumas exceções motivadas pela atuação em mercados internacionais, onde é já um requisito obrigatório, este conhecimento continua ainda a não estar presente, seja por falta ou incapacidade de investimento das empresas em formação continua, seja pela resistência à mudança por parte dos profissionais ligados ao setor ou ainda pela pouca oferta formativa qualificada.

Por estes motivos, a implementação generalizada da metodologia BIM tem ainda um longo caminho a percorrer. É importante consciencializar o mercado para a importância do BIM para o setor da construção em Portugal e criar canais de comunicação que levem a todos os profissionais exemplos e testemunhos reais que os esclareçam e consciencializem para a emergência da adoção BIM. Assim, face aos desafios impostos pelas mudanças tecnológicas e de modernização, impõe-se uma estratégia integrada de divulgação, bem como de requalificação e adaptação dos recursos humanos, onde a formação assume um papel fundamental e prioritário. Importa ainda realçar que esta modernização da indústria AEC, envolve não só uma mudança organizacional, mas acima de tudo cultural.

Conclui-se, portanto, que a digitalização da construção assume hoje, uma importância decisiva na implementação de novas formas de pensar e de fazer, abrindo o setor a novos modelos de negócio, onde a inovação e a competitividade têm um papel fundamental e devem estar presentes em toda a cadeia de valor. Trata-se de um cenário de ganho inquestionável, que merece por parte das lideranças políticas e empresariais nacionais, uma abordagem estratégica comum e assertiva para a real transformação digital do setor, rumo à “Construção 4.0”.

OPINIãO DE Cláudia Antunes, Consultora BIM na Stratbond Consulting