“Moçambique tomou um lugar muito importante na minha vida”

Empresário, empreendedor e Administrador Delegado East África do Grupo Salvador Caetano, Paulo Oliveira tem um longo historial de ligação a Moçambique. Moçambique é para Paulo Oliveira como um casamento: aquela pessoa que escolhemos para ficar. Venha connosco saber mais.

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Que papel assume atualmente o mercado moçambicano no continente africano? 

Efetivamente a minha ligação a Moçambique passou de um mercado onde eu tinha uma ligação meramente profissional e com uma presença residual a nível de investimentos para ser a minha terra de adoção. Moçambique tomou um lugar muito importante na minha vida, e fazendo a analogia com as mulheres da minha vida, Portugal é como a minha Mãe – ama-nos, não escolhemos – e Moçambique como uma esposa – aquela pessoa que escolhemos para ficar.

Moçambique assume hoje um lugar muito importante como um dos principais produtores de gás natural. A exploração do gás natural é uma realidade, as empresas Eni/ Exxon Mobil e Anadarko já começaram a construir as infraestruturas com vista à extração, a produção do GNL está prevista começar em 2022.

As reservas de gás são muito grandes sendo esperado que a ENI/ Exxon Mobil venha a produzir cerca de 3,5 milhões de toneladas com a plataforma flutuante, aumentando para 10 milhões em Onshore enquanto a Anadarko espera uma produção de 12 milhões de toneladas por ano.

Por outro lado a exportação do carvão, setor liderado pela Brasileira Vale, tem vindo aumentar, atingindo este ano de 2019 o recorde 14 milhões de toneladas.

Mas Moçambique não é só o carvão e gás, tem um potencial enorme na Agricultura, Turismo e serviços.

É Administrador Delegado East África do Grupo Salvador Caetano. Que importância assume, efetivamente, a ligação e cooperação do grupo com estes países do continente africano?

Em 2013 a Renault lançou um concurso internacional para atribuição do mercado do East Africa, a estratégia do GSC foi criar dois Hub´s, um a Norte no Quénia, Nairóbi para servir os países da Tanzania e Uganda e outro a Sul, Moçambique, para servir os mercados da Zâmbia, Zimbabue e Malawi. Foi graças ao plano bem delineado e a um investimento fundamentado que o GSC conseguiu este importante contrato. Sendo assim um Pais muito importante para a estratégia escolhida.

Hoje temos operação nos sete países do East Africa, com investimento direto em Maputo e em Nairobi, continuando a investir em ambos os países. Recentemente ganhamos o contrato da importação da Hyundai e a Volvo para o Quénia, Volkswagen para Moçambique, para o Uganda e Tanzânia ganhámos a Volvo.

Neste momento temos contratos de distribuição em 32 países e já iniciamos a expansão das nossas empresas de mobilidade para o continente africano, sendo Moçambique um dos próximos mercados a apostar nessa área.

Que estratégia o grupo tem delineado para África Oriental num futuro próximo?

A estratégia delineada para estes mercados passou pela criação de uma estrutura em Portugal, a Salvador Caetano África, onde tem uma equipa focada nas necessidades de cada mercado e que todos os dias tem contacto com os mesmos. Continuar a reforçar a nossa presença, trazendo mais marcas, quer seja do setor automóvel quer sejam produtos ou serviços de eventuais parceiros, que se queiram juntar ao GSC nestas geografias.

Contamos com uma larga experiência de conhecimento dos mercados onde estamos a atuar, podendo alagar o nosso portfólio de produtos se estes se adequarem.

Questões como a mobilidade e a livre circulação de pessoas entre os países-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) estão a ser colocadas em cima da mesa como questões urgentes. Estes são, sem dúvida, aspetos fulcrais para fomentar a cooperação económica na CPLP?

Sem dúvida. A mobilidade e a livre circulação permitem aos empresários a possibilidade de se focarem menos em questões burocráticas para fazer negócios e concentrarem-se mais no investimento. Se hoje um empresário cabo-verdiano entende deslocar-se para Portugal, Moçambique ou Brasil, ou movimentar a sua mercadoria ou capitais para um desses países com vista a satisfazer uma necessidade de negócio urgente que seja sua ou de um outro empresário situado nesse outro país irmão, havendo políticas de mobilidade e livre circulação de pessoas, bens e capitais torna-se mais célere a realização desta operação. O timing é um elemento fundamental nos negócios. Estas políticas vão melhorar e muito os timings.

Que outros fatores deverão ser tidos em conta para promover esta cooperação e a expansão dos negócios do tecido empresarial dos países-membros?

Do lado dos empresários precisamos fomentar mais a mentalidade e preparação para oportunidades através de políticas de governança corporativa, etc.

Pensamos que faltam também ferramentas institucionais por parte dos governos para permitir essa expansão. Do lado dos nossos governos faltam políticas transversais e estratégias claras que favoreçam a meritocracia e eliminem a interferência política, bem como incentivo e financiamento aos setores produtivos.

O presidente da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP) afirma que os governos não estão a dar atenção ao potencial económico da CPLP. E os empresários? Qual é a sua opinião?

Concordo que não se está a dar atenção suficiente, e prova disso é que ainda temos muitos desafios no que diz respeito à mobilidade, livre circulação, instituições económicas, fundos da CPLP, entre outras iniciativas que dinamizariam o nosso potencial económico. É verdade que tem havido muitas discussões, que revelam cada vez maior preocupação dos governos da CPLP relativamente ao nosso potencial económico, mas é preciso que estas discussões se materializem em ações concretas o mais urgente possível.

Que mais-valias, mas também que verdadeiros desafios acarreta a aposta nos mercados da comunidade?

Os desafios residem nas nossas diferenças geográficas, culturais, e de desenvolvimento, mas que certamente podem ser ultrapassadas e aos poucos começam a ficar para trás. Um exemplo são os acordos de abolição dos vistos que temos vindo a acompanhar, e que no último ano de 2018 foram significativos entre países da CPLP.

As mais-valias encontram-se nas oportunidades: mesma língua, falada por aproximadamente 274 milhões de pessoas (o que reduz custos operacionais e tempo com, por exemplo, as traduções), possibilidade de promover em conjunto, como um bloco económico e coeso, assim como a nossa presença em diferentes mercados regionais, através dos países-membros. A possibilidade de entrada em outros mercados onde os países da CPLP estão inseridos, como o caso do Mercosul, ASEAN ou União Europeia.