“O português é mesmo uma língua do futuro”

Mónica Machado é licenciada em Tradução, Diretora da Mónica Machado Translation Services e Vice-Presidente do ITI (Instituto de Tradução e Interpretação no Reino Unido), em entrevista, aborda os desafios e a importância da tradução nos negócios. Saiba tudo.

230

Trabalha há 21 anos como tradutora. O que diria que é mais importante no exercício desta profissão?

Para mim, o mais importante é dominar ambas as línguas de trabalho, conhecer bem o assunto em questão e a audiência e, acima de tudo, ter integridade e agir sempre de forma profissional.

É tradutora de inglês – português europeu em várias áreas técnicas e em áreas jurídicas viradas para os negócios. Trabalha para Portugal e para outros PALOP como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Como descreveria a importância do seu trabalho nas relações empresariais?

Muitos dos projetos em que tenho trabalhado contribuem ativamente para aumentar o PIB desses PALOP, como é o caso, por exemplo, de projetos hidroelétricos e de petróleo e gás em Angola e Moçambique, desenvolvimento turístico em Cabo Verde, e proteção ambiental na Guiné-
Bissau e em São Tomé. Todos esses projetos têm de ser apresentados aos diversos governos e partes interessadas. Assegurar que a tradução é exata em termos de conteúdo e registo linguístico é por isso do interesse dos proponentes dos projetos, já que em projetos internacionais a tradução pode ajudar a fechar negócios ou dificultar negociações. Os tradutores devem ser invisíveis, mas na realidade são uma ponte importantíssima no mundo dos negócios, já que num país estrangeiro a tradução é o rosto da empresa.

Hoje em dia existem plataformas digitais de tradução grátis mas não são o mesmo que o trabalho de um tradutor. Porquê?

Num mundo cada vez mais automatizado, a tradução automática surge como uma consequência normal do desenvolvimento. Porém essa máquina ainda não oferece o serviço acrescentado prestado por um bom tradutor humano.

Um bom tradutor analisa o texto, as circunstâncias e o país em que o mesmo vai ser utilizado e o registo mais adequado e depois produz uma tradução que tem isso em conta, que é fácil de ler e que não é um decalque do original. Por exemplo, atualmente alguns dos PALOP usam oficialmente o antigo acordo ortográfico pelo que o português europeu não é neste momento todo igual, variando consoante o PALOP em questão. Um bom tradutor tem tudo isto em conta e produz uma tradução de qualidade, sempre em contacto com o cliente, para garantir que a mensagem é bem transferida e os resultados empresariais finais são atingidos. Tem também autoconfiança para questionar decisões linguísticas dos autores e aconselhar sobre o que é melhor para o país a que a tradução se destina.

A língua portuguesa está entre as mais faladas no mundo inteiro. Qual é, na sua opinião, o potencial dela no mundo dos negócios?

Em 2016 a língua portuguesa contava com 223 milhões de falantes nativos e 20 milhões de falantes de segunda língua e em 2017 era a 6ª língua mais falada no mundo. Com o desenvolvimento de grandes países, como Angola, Brasil e Moçambique, a língua de Camões tem um enorme potencial empresarial, até porque as empresas querem cada vez mais pessoal nacional mas também pessoal estrangeiro que domine o português. Esta é uma vantagem de crescimento muito importante e que as instituições de ensino fora dos PALOP não deveriam descurar. Para mim, o português é mesmo uma língua do futuro.

Entre todos os países com quem trabalha existem diferenças de índole multicultural evidentes em termos de negociação que possa partilhar connosco?

Penso que as diferenças têm mais a ver com os conhecimentos de cada um a respeito da tradução e do trabalho do tradutor. Muitas vezes é preciso informar os clientes sobre o trabalho e tempo necessários e a minha experiência acumulada permite-me ajudá-los a decidir sobre o que é melhor para os seus projetos. Este serviço acrescentado, com um toque humano e pessoal, é imprescindível, porque num mercado estrangeiro um produto ou serviço dependerá sempre da tradução para ter sucesso e o processo de tradução quando mal gerido poderá ter grandes consequências financeiras e reputacionais.

Além de ser tradutora sente que, por vezes, precisa de ser também uma diplomata? Porquê?

Sem dúvida. Nem sempre se pode traduzir exatamente conforme o original e muitas vezes é preciso contactar o cliente para lhe explicar que aquele termo ou aquela frase em especial pode dificultar determinada negociação ou causar más interpretações. O tradutor acaba por ser um consultor o que é fantástico. É muito gratificante, quando um cliente nos contacta por sermos o elo de que ele precisa para fechar um negócio, retomar uma negociação ou desenvolver uma parceria.