“O trabalho colaborativo é uma vantagem intrínseca do BIM”

Já ouviu falar de Building Information Modelling (BIM), o novo modelo que está a revolucionar o setor da construção? Laura Esteves, Engenheira Civil e Responsável pela implementação do BIM, na Teixeira Duarte – Engenharia e Construções, S.A., explica-lhe tudo.

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De forma a contextualizar o nosso leitor, o que é o Building Information Modelling (BIM)?

O BIM é uma abordagem tecnológica inovadora que está a revolucionar o setor da Arquitetura, Engenharia e Construção (AEC). Consiste em replicar a edificação num modelo digital 3D que centraliza toda a informação – arquitetura, estrutura, redes de água, eletricidade, instalações mecânicas, etc.

Esta inovação permite, pela primeira vez, manter a informação atualizada e acessível, simultaneamente, a todos os participantes no processo (donos de obra, projetistas, empreiteiros, gestores de exploração) e em todas as fases de vida de uma edificação: desde o início do projeto ao planeamento da obra, construção, operação e manutenção.

A que desafios vem responder o BIM e, sobretudo, porque se tornou crucial na Indústria da Arquitetura, Engenharia e Construção?

O imperativo da evolução BIM nasce dos avanços tecnológicos dos últimos anos, de uma maior competição do mercado, das crescentes exigências dos Donos de Obra e das imposições da legislação.

De facto, as metodologias tradicionais vão deixando de dar resposta adequada à evolução do setor; a construção baseia-se ainda em projetos de especialidade distintos, desenvolvidos por entidades diferentes, sequenciais, pouco colaborativos e integrados, e que facilmente apresentam indicações divergentes. Exemplificando, é frequente surgirem incompatibilidades entre estrutura (pilares, vigas) e instalações (canalizações, ar condicionado, etc.).

A integração de toda a informação é uma etapa imprescindível no final do projeto, implicando um considerável consumo de tempo e recursos, e não dispensa a compatibilização dos projetos durante a construção.

A metodologia BIM ultrapassa estes condicionalismos. Recorrendo a softwares interoperacionais e complementares, atuando em processos controlados, possibilita o desenvolvimento sincronizado das várias especialidades, com deteção automática de incompatibilidades (clash-detection), permitindo a rentabilização dos recursos, a redução dos imprevistos e consequentes aumentos de custos e prazos.

O impacto desta metodologia estende-se muito para além da conclusão da obra. O projeto e a construção significam apenas 20% do custo total da vida do edifício, enquanto a sua exploração e manutenção atingem 80%. Um projeto BIM proporciona uma gestão centralizada eficaz, com efetiva redução dos custos de operação.

Estas vantagens tornam a adoção do BIM uma tendência generalizada e uma exigência crescente de Donos de Obra, particularmente em mercados internacionais.

A par dos edifícios eficientes, o trabalho colaborativo é também o foco do BIM. Mas que outras vantagens ou mais-valias, igualmente fulcrais, apresenta o BIM?

O trabalho colaborativo é uma vantagem intrínseca do BIM, pois permite o envolvimento de diversas entidades, ainda que geograficamente dispersas, no projeto; uma mais-valia significativa num mundo cada vez mais especializado e global.

Contudo, a característica fundamental e diferenciadora da metodologia BIM é a centralização de toda a informação num modelo único, validado e em permanente conexão, que abrange todos os intervenientes em todas as fases da vida de uma edificação.

Este modelo fornece acesso seguro a informação atualizada, melhorando a comunicação e gerando uma dinâmica de distribuição de tarefas por equipas altamente especializadas, partilha de experiências, deteção de conflitos e resolução de problemas, que conduz a uma maior eficácia do processo e promove a obtenção de projetos mais funcionais e sustentáveis, com economia de meios.

A utilização de objetos paramétricos/inteligentes, que possuem uma geometria 3D associada a propriedades (modelos, números de série, datas de validade, etc.) e regras específicas, incrementa a automatização e permite a disponibilização de informações essenciais.

Atinge-se, assim, uma otimização da produção – por ex., as peças desenhadas são geradas automaticamente, libertando as equipas para tarefas mais especializadas; a extração de quantidades é possível em qualquer momento; a análise das atividades no espaço e no tempo, face às necessidades de enquadramento, equipamento e aprovisionamento, possibilita uma gestão de obra mais eficaz.

Qual será o futuro do BIM e, principalmente, dos setores onde opera?

O setor AEC é uma das indústrias menos eficientes da atualidade: a maioria dos processos não está automatizada e a generalidade das edificações é um protótipo sem replicação. Numa época em que a gestão de recursos é imperativa, a estandardização inteligente do setor é essencial para garantir a otimização da produção com aumento da qualidade e segurança.

O BIM será certamente protagonista neste cenário. A sua poderosa capacidade de simulação de cenários diversos, de alcançar as soluções mais vantajosas, já a tornam na metodologia state-of-the-art para o setor AEC. As possibilidades de gestão centralizada das construções, através da integração de equipamentos inteligentes, tornarão o BIM na pedra basilar da transformação digital do setor.

Com a experiência de quase um século, de que forma a Teixeira Duarte tem respondido aos desafios da transformação digital na construção?

A Teixeira Duarte, enquanto empresa empenhada na inovação tecnológica, procurou desde sempre integrar as metodologias mais avançadas para garantir a qualidade do seu processo de produção.

A evolução para a digitalização não constituiu exceção, tendo-se consolidado na implementação do BIM a partir de 2016, com a formação específica das equipas, a conceção de procedimentos, o desenvolvimento de projetos e divulgação.

Entre os trabalhos executados pela empresa nesta metodologia contam-se obras públicas e privadas, hospitais, estruturas marítimas e rodoviárias, em diversos países.

Como reconhecimento da sua atividade nesta área, a Teixeira Duarte foi distinguida com o 1º lugar no Prémio de Excelência BIM 2017 na categoria de “Construção e Coordenação”, promovido pela Comissão Técnica BIM Portuguesa (CT 197 – BIM).

Fundada em Portugal, a Teixeira Duarte – Engenharia e Construções, S.A. atua atualmente em que mercados internacionais?

A Teixeira Duarte – Engenharia e Construções, S.A. é uma empresa portuguesa constituída em 1934 com uma estrutura e experiência que remontam ao início de atividade do seu fundador, Eng.º Ricardo Esquível Teixeira Duarte, em 1921.

Atua nas áreas de Geotecnia e Fundações, Reabilitação, Obras Marítimas, Edificações, Infraestruturas, Metalomecânica, Obras Subterrâneas e Obras Ferroviárias, com um total de cerca de 4.000 colaboradores. Para além de Portugal, a empresa está presente em 16 países: Angola, Argélia, Brasil, Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos da América, França, Gabão, Koweit, Macau, Marrocos, Moçambique, Peru, Reino Unido e Venezuela.

Pioneira na construção e com uma reconhecida capacidade na conceção, inovação, construção e gestão de grandes projetos e empreendimentos, a Teixeira Duarte está a dois anos de festejar o centenário. São cem anos de Teixeira Duarte, são cem anos de…?

… cem anos de Engenho, Verdade e Compromisso, valores estruturantes na conduta dos colaboradores da Teixeira Duarte e que têm permitido à empresa cumprir a sua missão: Fazer, contribuindo para a construção de um mundo melhor.

Qual a importância da Construção no Grupo Teixeira Duarte?

A Construção é a génese e a base do Grupo Teixeira Duarte, sendo a Teixeira Duarte – Engenharia e Construções, S.A. a empresa do Grupo de referência neste setor.

Para além da Teixeira Duarte – Engenharia e Construções existem outras sociedades participadas que operam em áreas específicas, nomeadamente nas obras subterrâneas e ferroviárias.

O constante e sustentado crescimento desta atividade dotaram a Teixeira Duarte de uma capacidade empresarial forte, com meios e recursos que lhe permitiram múltiplos processos de internacionalização e a diversificação da sua atividade a outros setores. Hoje, para além da construção, o grupo atua nas concessões e serviços, imobiliária, hotelaria, distribuição e automóvel, operando em 19 países, em quatro continentes, com a colaboração de mais de 11.000 colaboradores.

Em termos consolidados, a construção representou, em 2018, 58% do volume de negócios do grupo, tendo a atividade desenvolvida nos mercados externos um peso de 73%.

Em termos não consolidados, acrescenta-se que os proveitos operacionais alcançados pelas empresas do grupo no setor da construção em 2018 atingiram o valor global de 636.061 milhares de euros, um aumento de 4,5% face a 2017.