YILPORT: um parceiro que potencia as valias do mar

A Revista Pontos de Vista esteve à conversa com Diogo Marecos, Administrador da YILPORT em Portugal, que nos deu a conhecer um pouco mais do atual panorama do sistema portuário português e da posição da YILPORT no mesmo, marca que é hoje o 12º maior operador portuário do mundo, o 2º maior europeu e aquele que apresenta um crescimento mais rápido a nível mundial.

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A YILPORT IBERIA é um dos principais players a atuar em Portugal no que concerne à economia do mar e a tudo o que está relacionada com a mesma. Neste domínio, e apenas para contextualizar o nosso leitor, qual o balanço que é possível realizar da presença da YILPORT IBERIA em Portugal?

A YILPORT IBÉRIA, S.A. é uma das empresas que integra a YILPORT Holding, que é um Operador Portuário Internacional, mundialmente reconhecida como sendo o Operador Portuário em mais rápido crescimento. É uma subsidiária do Grupo Yildirim (presente em cinco continentes e em quatro países em setores como o Imobiliário, Energia, Minas, Carvão, Fertilizantes, Construção Naval, entre outros), com sede em Istanbul, Turquia.

Remotando a 2004, a YILPORT Holding está presente em nove países, nomeadamente Turquia, Suécia, Noruega, Malta, Espanha, Portugal, Peru, Equador e Guatemala. Em breve irá instalar-se também em Itália e E.U.A.. Emprega mais de 5.000 pessoas, com um portfolio de 20 terminais e de cinco terminais secos. Em 2018, apresentamos uma capacidade de dez Milhões de TEUs.

Como é do conhecimento público há cerca de três atrás, em 19 de fevereiro de 2016, a YILPORT concluiu o maior investimento turco alguma vez feito em Portugal, ao comprar 100% das ações da Tertir.

A aquisição da Tertir permitiu passar a controlar dez terminais portuários na região Ibérica: sete em Portugal, dois em Espanha e um no Peru. Em Portugal os terminais portuários incluem as concessionárias Liscont e Sotagus, no Porto de Lisboa; TCL no Porto de Leixões (Porto); Socarpor em Aveiro com duas concessões; Sadoport em Setúbal; e uma operação Liscont na Figueira da Foz. No portfolio encontra-se ainda uma participação minoritária na Tersado em Setúbal. Os terminais portuários em Espanha incluem o Container Terminal Ferrol na Galiza, e Huelva na Andaluzia. No Peru, a YILPORT assumiu uma participação muito relevante no Porto de Paita, o segundo maior porto em termos de movimentação de contentores, e o principal porto no norte do país.

Com a aquisição, a YILPORT passou a ser um parceiro estratégico referenciado na economia portuguesa. Já para Portugal, a aquisição permitiu o uso das sinergias internacionais que o Grupo YILPORT detém, com um incremento da posição nacional nas operações portuárias europeias, influentes tanto nas rotas comerciais do Norte como no Atlântico Sul. De destacar ainda que a exploração de terminais portuários pela YILPORT na América Latina passou a permitir gerar oportunidades comerciais significativas para Portugal.

Quais são as grandes lacunas que ainda identifica no domínio do setor logístico portuário?

Mais de 80% do comércio global em volume, e mais de 70% do seu valor, é realizado a bordo de navios e distribuidos por portos marítimos em todo o mundo. Só na União Europeia, quase 90% das trocas externas de mercadorias e cerca de 40% das suas trocas internas são efectuadas por via marítima, sendo que os portos europeus movimentam 74% do volume do comércio de mercadorias com o resto do mundo.

Sabendo-se que a movimentação de mercadorias tem sido efetuada em prevalência com recurso à contentorização de mercadorias, Portugal pode e deve fazer muito mais nesta matéria. O que temos em meios naturais, não tem correspondidos em meios técnicos. Habituámo-nos a ver Espanha como um concorrente, e quase sem darmos por isso, Marrocos tem nos últimos anos feito muito importantes investimentos no setor portuário, quer a nível legislativo, social, e de meios técnicos, como a aquisição de equipamentos modernos, oferecendo serviços para a colocação de mercadorias na Europa.

Portugal ainda está a tempo de poder competir e tirar melhor partido das nossas condições naturais. Para tanto, cremos que deveremos diminuir a burocracia, devemos modernizar as nossas infraestruturas portuárias, aumentando a sua profundidade (os fundos junto aos cais de acostagem de navios) para podermos atrair e receber os grandes navios, e alterar a legislação para que as concessões sejam mais longas. E os custos de uma estratégia como esta para o país são reduzidos, dado que podem ser os privados, como a YILPORT a efetuar os investimentos.

A extensão do periodo das concessões portuárias, que em muitos países europeus, e agora até na Região Autónoma dos Açores, podem atingir os 75 anos – atualmente em Portugal continental o prazo máximo é de apenas 30 anos – pode permitir aos privados efetuar maiores investimentos em equipamento, formação, instalações logísticas, e outros, e obter durante o prazo da concessão o dinheiro investido de volta. Em Espanha, por exemplo, as concessões podem ter 50 anos de duração, atingindo, com a realização de mais investimento por parte dos privados, os 75 anos.

Uma estratégia como esta poderá recolocar Portugal nos mapas de decisão dos grandes operadores logísticos mundiais, permitindo aos portos portugueses concorrer em situações paralelas com outros portos Europeus, e assumir-se como uma porta giratória para os mercados americano e africano.

Sendo o mercado luso único e com uma estrutura portuária singular e de sinergias entre portos, como é que foi realizada a vossa estratégia de adaptação?

A YILPORT encontrou vários desafios, a que tem procurado corresponder. Em deterimento de sinergias, encontramos um mercado muito competitivo entre terminais nacionais, em que os próprios terminais portuários competiam entre si, e algumas situações incorretas do ponto de vista do capital humano, com maior incidência em Setúbal.

Tirando partido da sua experiência global, a aposta da YILPORT tem sido a de inverter aquela situação, e desde 2016 que podemos dizer que já temos efetivamente sinergias entre portos, e estamos ativamente envolvidos numa mudança das relações laborais.

Não obstante as alterações já realizadas, importa salientar que a decisão final de utilização de um porto é sempre das linhas. São as linhas que decidem que infraestruturas portuárias pretendem utilizar, de acordo com vários critérios, como o destino das cargas, a estabilidade e confiança do porto, entre outros. Também nestas últimas temos encontrado desafios singulares pelo menos nos portos de Lisboa, Setúbal e Figueira da Foz. A estratégia da YILPORT passa precisamente por procurar trazer de volta às cadeias logísticas onde os portos se inserem, a estabilidade e a confiança necessárias a que todos possam entregar e levantar as suas cargas no dia e hora expectáveis.

Na vossa estratégia de crescimento, de que forma é que a YILPORT tem aproveitado o capital de conhecimento em Portugal? Este tem sido essencial para o vosso crescimento?

O sistema portuário português é essencial para a entrada e saída de mercadorias, sendo através dos portos nacionais que o país é abastecido, assim como é por estas infraestruturas que a maioria das exportações portuguesas chega aos seus destinos. Este sistema em regra é similar nos países onde estamos presentes. A integração em 2016 dos terminais portuários da Ibéria representou um desafio, pelas necessidades de investimento que encontrámos, mas também pelo muito que ainda há a fazer.

Estamos comprometidos com Portugal, onde também encontrámos capital humano único, quer na disponibilidade, quer no conhecimento técnico, ao nível da manutenção, por exemplo. Temos trazido para Portugal as melhores práticas de gestão do Grupo, que nos permitiu expandirmo-nos e internacionalizarmo-nos. Mas também temos sido influenciados muito positivamente pelas nossas pessoas em Portugal, pelas nossas equipas, a quem temos recorrido, até para ajudar na resolução de situações noutras geografias onde estamos presentes. Portugal tem por isso ajudado a YILPORT a crescer e a afirmar-se.

De que forma é que têm promovido a modernização dos terminais, por onde entram e saem as exportações? Existe diálogo, por exemplo, com as autoridades portuárias?

A YILPORT não é alheia à revolução tecnológica que vimos assistindo neste século XXI, pelo contrário. Concretizando o nosso lema que é assumirmo-nos como um GAME CHANGER, a YILPORT encontra-se a implementar o software NAVIS para as operações em Portugal e Espanha. Este sistema é usado entre os maiores e os mais eficientes portos e terminais do mundo, e é essencial à modernização dos terminais europeus.

Por outro lado, não é apenas em IT ou Sistemas de Informação, que a YILPORT tem efectuado investimento em meios técnicos. Também novo equipamento portuário, como novas gruas, e renovação do atual equipamento através de conversão electrica, ecologicamente mais sustentável está já em desenvolvimento em alguns dos terminais portugueses.  Estes investimentos procuram não só melhorias de eficiência, como ganhos de produtividade, e ainda acrescentar valor à indústria.

Importa ter presente que o sistema portuário português está assente num modelo de concessão, o que implica que todos os investimentos a realizar têm de ser negociados e autorizados pelas autoridades portuárias que são públicas, o que determina que sejam cumpridos os processos burocráticos que lhes estão associados, e leva algum tempo. O diálogo com as autoridades portuárias é constante e diário, não só pelas necessidades de investimento que a YILPORT já identificou e já mostrou disponibilidade para fazer, como a própria regulação da operação portuária exige reporte permanente às diversas autoridades portuárias. Mas não se cinge às diferentes autoridades portuárias: a YILPORT mantém diálogo com os seus principais stakeholders, como as empresas, as comunidades portuárias, os sindicatos enquanto representantes dos trabalhadores, os municípios, entre outros.

Muito recentemente anunciaram um investimento de 43,4 milhões de euros no Porto de Leixões, com o prazo da obra a estar previsto terminar em março de 2021. Quais são os grandes desideratos com este investimento?

No segundo maior porto português, o de Leixões, a YILPORT já está a realizar um investimento de 43,4 milhões de euros, integralmente suportado por si, contra uma extenção do contrato de concessão em cinco anos.

Com uma área de influência de 14 milhões de habitantes, o porto de Leixões é a maior infraestrutura portuária no norte de Portugal, sendo responsável por 6% do PIB nacional. Só em 2018, o porto de Leixões movimentos 660 mil TEUs. Composto por três terminais de contentores, a YILPORT irá investir no Terminal Sul, no qual se concentram cerca de 68% da capacidade total de contentores, e que tem actualmente uma capacidade de movimentação de 450 mil TEUs.

Tendo como prazo Março de 2021, o investimento da YILPORT tem como objetivos principais aliviar o congestionamento do terminal, operar de modo mais eficiente, aumentar a capacidade do terminal, e permitir projetos de desenvolvimento como o controlo remoto para automação supervisionada. O investimento de 43,4 milhões de euros concretizar-se-á na extensão da plataforma com, entre outros, a aquisição de novos equipamentos, reconfiguração do terminal para aumentar a área de operações, e repavimentação.

Com este investimento a YILPORT mantém a sua estratégia de crescimento, reforçando o seu compromisso com o Porto de Leixões, o mais eficiente na sua escala na Península Ibérica, além de Algeciras e Valência, procurando dotá-lo com os meios técnicos e humanos que lhe irão permitir aumentar a sua competitividade, e procurar concorrer com os mais importantes terminais ibéricos, sendo os seus dividendos desde logo distribuídos pelos trabalhadores portugueses, pela indústria nacional situada a norte do rio Mondego, bem como pela generalidade da população que reside e/ou trabalha nas cidades diretamente abastecidas pelo Porto de Leixões (como Matosinhos, Porto, Vila Nova de Gaia, entre outras).

No domínio da vossa intervenção e atuação, é fundamental que se aposte num Centro Global de Logística? De que forma é que pode oferecer soluções eficazes para os navios que usam os vossos portos? É possível adaptar este método, já existente na Turquia, em Portugal?

Simultaneamente com a implementação do NAVIS, a YILPORT já se encontra a fazer planeamento centralizado na Peninsula Ibérica, através do “Global Logistics Center (GLC)”. Este conceito, que a YILPORT introduziu na Turquia, permite uma conexão em tempo real entre aqueles que fazem o planeamento num determinado local, (como um escritório situado fora de um terminal), e os operadores nos terminais. E permite-se mesmo que num só local se proceda à centralização do planeamento de vários Terminais, independentemente da sua localização no mundo.

Entre a modernização promovida pela YILPORT na Península Ibérica, encontra-se a criação de um GLC, que já se encontra em pleno funcionamento. Devido ao GLC, situado em Lisboa, Portugal está já entre os principais grupos operacionais portuários globais com centros de planeamento centralizados. Esta melhoria tecnológica e organizacional traz a capacidade de gerir terminais tanto fora de Portugal, como operações YILPORT localizadas em Espanha ou América do Sul. Actualmente as operações situadas em Setúbal, em Ferrol (Espanha), e em Huelva (Espanha) estão já a ser planeadas a partir de Lisboa, Portugal.

Atualmente são o 12º maior operador portuário mundial, sendo que um dos principais desideratos passa por estar no top-10 até 2025. Só é possível lá chegar com uma estratégia de investimento sólida?

A YILPORT é o 12º maior operador portuário do mundo, o 2º maior europeu e aquele que apresenta um crescimento mais rápido a nível mundial. Atualmente opera em nove países, nomeadamente Turquia, Suécia, Noruega, Malta, Espanha, Portugal, Peru, Equador e Guatemala. Em breve irá instalar-se também em Itália e EUA.

O Grupo YILPORT assumiu como objectivo estratégico posicionar-se no Top 10 dos Operadores Mundiais de Terminais Portuários até 2025, o que só pode ser materializado através de investimento nos terminais portuários onde estamos, procurando dotá-los com os meios técnicos e humanos que lhe permitam introduzir níveis mais elevados de movimentos de contentores, aumentar a sua competitividade, e concorrer com os mais importantes terminais mundiais, bem como através da aquisição de novos terminais para o portfólio da YILPORT. A YILPORT está atenta ao mercado e vai continuar a apostar num crescimento sustentado e numa presença entre os maiores players mundiais.

Sente que ainda não aproveitamos devidamente as potencialidades do mar? Na sua opinião, qual o rumo a seguir para crescer neste domínio?

Portugal tem uma localização geo-estratégica muito favorável. Possui uma área terrestre de cerca de 91.763 km, o que corresponde ao 110.º lugar na ordenação dos países em termos de dimensão. Possui soberania ou jurisdição sobre uma área marítima que corresponde a cerca de 18,7 vezes a área terrestre nacional. Possuimos a 11ª maior área mundial de águas jurisdicionais, incluindo mar territorial e ZEE, à frente de países como a Índia, Argentina e China. Na União Europeia, Portugal é o país com a maior vastidão de águas jurisdicionais, com excepção das zonas marítimas dos territórios ultramarinos de França e do Reino Unido.

Com uma história profundamente ligada ao cluster marítimo, a costa de Portugal ocupa uma posição privilegiada no oceano Atlântico, onde confluêm rotas marítimas internacionais de mercadorias. Atraí-las e reter aquelas mercadorias – mesmo que o seu destino final não seja Portugal – é uma das melhores formas de aproveitar as potencialidades do mar. Para além destas, a utilização do mar como uma fonte de energia renovável é outra das potencialidades que Portugal pode ainda desenvolver e tirar melhor proveito.

Por outras palavras, os desafios identificados há pouco no domínio do setor logístico portuário (burocracia, necessidade de investimento e modernização das infraestruturas e equipamentos portuários, legislação semelhante à de outros países europeus, entre outros) se forem ultrapassados, podem contribuir decisivamente para o aumento do peso da economia do mar na PIB português, para a criação de emprego estável, diminuição dos picos de trabalho que caracterizam a atividade portuária, afirmação de Portugal como uma nação marítima, entre outros.

A YILPORT, na parte que lhe cabe, está fortemente comprometida em ajudar a obter, de modo sustentado, as melhores potencialidades que o mar pode ofertar a Portugal e ao mundo.