O Luís é o Diretor Regional, em Moçambique, da Axiz. Quais diria que são os seus maiores desafios no exercício das suas funções?

Há desafios que são comuns a todos os empresários e/ou diretores em Moçambique e há desafios que são específicos da nossa atividade e da nossa condição de líderes no mercado da distribuição de TIC na SADC. Em adição a isto, há igualmente o desafio de gerir à distância os outros mercados pelo quais tenho a responsabilidade direta, como Angola, Cabo Verde e São Tomé e Principe.

A motivação permanente dos nossos colaboradores e a melhoria contínua das suas competências é a principal responsabilidade de qualquer líder. Especialmente num contexto onde é necessário gerir diferentes origens e culturas entre investidores, empresa e colaboradores.

Em segundo lugar, temos o desafio de, num mercado pequeno e algo saturado, como o de Moçambique, explorar novas oportunidades, explorar o melhor possível a relação com parceiros, melhorar margens e reduzir barreiras ao negócio, quer o nosso quer o dos nossos clientes (revendedores).

Depois existem desafios específicos da economia moçambicana como são a gestão dos riscos de crédito ou cambiais (desafios igualmente partilhados em Angola), que também são relevantes numa economia pequena e dependente do exterior como é Moçambique.

E finalmente existem desafios relacionados com a estrutura e competição específicas do mercado de distribuição de TIC em Moçambique e que implicam uma permanente atenção à qualidade do serviços prestado pelos distribuidores e á satisfação dos clientes finais, a valorização das marcas e dos seus produtos originais, o combate à contrafacção (grey market) e a monitorização dos preços e margens praticados para garantir que superamos sempre as expectativas dos nossos clientes (revendedores).

Moçambique atravessa uma fase menos boa do ponto de vista económico-social devido ao ciclone, porém, anteriormente, o crescimento era consolidado e esperavam-se ótimos números. Empresas como a Axiz podem estar na origem deste crescimento. Na sua opinião, qual o contributo que a tecnologia teve e tem neste crescimento?

Moçambique atravessou um período de menor crescimento, mas atenção, nunca entrou em recessão. No ano mais crítico da chamada crise cambial (porque foi sobretudo motivada por uma desvalorização significativa do metical face às principais moedas dos parceiros externos – USD, EURO e RAND), o país registou uma taxa de crescimento real de 3,2%. E espera-se que, nos próximos anos, se aproxime dos dois dígitos por ano, em grande medida motivado pelo investimento na indústria extrativa, especialmente por parte da Anadarko que, só na bacia do Rovuma investirá 22 a 24 mil milhões de USD nos próximos anos.

Estas entradas de capital, a realizarem-se, são massivas face à dimensão da economia Moçambicana. E, na sua maioria, são investimentos em tecnologia de ponta na área da energia, construção naval, tecnologias de informação e comunicação, transportes e logística. O passado mostra, aliás, que foram investimentos semelhantes na área da energia, extração e logística que alavancaram o crescimento do país.

No curto prazo, será o investimento em tecnologia o principal acelerador do crescimento em Moçambique. A sustentar este facto temos assistido a um boom acentuado de novas startups tecnológicas nos últimos anos.

Em termos de soluções tecnológicas, quais são as necessidades mais emergentes no mercado moçambicano? Como é o panorama tecnológico atual em Moçambique?

Moçambique tem um stock de capital físico e humano muito aquém do que conhecemos nas economias mais desenvolvidas da Europa e Ásia, ou mesmo quando comparando com outros países da África Austral.

Estas necessidades não podem ser todas satisfeitas de repente, dado que o país tem uma capacidade limitada para investir em tecnologia e tem de qualificar o capital humano nacional para a sua absorção e utilização produtiva.

Setores como a indústria extractiva, a construção, a logística e os serviços financeiros (banca e seguros) têm um potencial enorme de crescimento. Mas este crescimento será, sobretudo, satisfeito com recursos a tecnologia importada e, por isso, o país estará limitado na sua satisfação. O Estado Moçambicano já está sobreendividado o suficiente e o país depende fortemente da ajuda de doadores para manter contas públicas equilibradas. E a importação em massa de tecnologia vai agravar os deficits externos do país, pelo que terá de ser feito dentro do quadro e possibilidades do país e, necessariamente, acompanhado por uma melhoria significativa das competências tecnológicas dos recursos humanos nacionais.

Que papel pretende a Axiz assumir também no crescimento e desenvolvimento do país?

A AXIZ tem um papel chave a três níveis: em primeiro lugar no apoio à transição do mercado para uma estrutura mais qualificada, recheada de operadores e empresas qualificadas, certificadas e promotoras de garantias aos clientes finais, capaz de oferecer soluções tecnológicas e financeiras adequadas a um mercado que carece sobretudo de confiança. Na qualidade dos produtos e na qualidade dos serviços. Para que ambos criem valor nas empresas que investem em tecnologia.

Em segundo lugar no combate à contrafação e contrabando de produtos tecnológicos (grey market), sem que isso signifique o aumento de custos de investimento e exploração para as empresas nacionais e internacionais instaladas no país. Mas como representantes e distribuidores de marcas mundiais de confiança, temos de assumir um papel muito ativo neste domínio.

Finalmente, queremos apoiar a melhoria contínua das competências e qualificações dos profissionais e utilizadores de tecnologia em Moçambique. Para isso temos contribuido anualmente com workshops e ações formação das marcas que representamos oficialmente em Moçambique.

Porque é o caminho único para o desenvolvimento da procura de tecnologia em qualquer país e isso significa que estaremos a criar o nosso próprio mercado, mas também porque só com recursos humanos (e empresas) capazes de uma transformação tecnológica em valor, poderemos crescer de forma sustentada.

O foco da empresa é concentrar-se no futuro das novas tecnologias em África, construindo ecossistemas. Num continente tão grande e diverso, estas soluções criam proximidade e rapidez nos negócios. Como descreveria a transformação tecnológica que aconteceu nos países africanos nos últimos anos e de que forma foram essas mudanças revolucionárias?

As novas tecnologias revolucionaram o continente africano nas últimas décadas, nos mais diversos contextos e muitas vezes, mesmo em territórios e nações onde os desastres naturais e os conflitos ameaçavam de forma determinantes qualquer forma de progresso humano.

Novas tecnologias no domínio agrícola, das comunicações, banca, saúde e saneamento levaram a que a esperança média de vida, a escolarização (especialmente das raparigas) e o poder de compra da classe média (que nem existia!) alcançassem níveis que julgaríamos inimagináveis há 30 anos.

No setor das tecnologias de informação e comunicação, as transformações foram quase inacreditáveis.

Em países como o Quénia a banca móvel chega à maioria da população e o país é hoje o recordista mundial nas transações móveis! À frente de todos os países de desenvolvimento elevado! As redes móveis garantem coberturas quase universais e permitem fazer chegar às populações rurais serviços bancários e de seguros, serviços informativos e serviços de pagamento como a água e a energia em contextos dificílimos e onde os países ocidentais demoraram séculos a encontrar soluções.

Por isso, a tecnologia foi e é o principal criador de mercados em África. E têm sido as empresas que usam mais intensivamente tecnologia que têm conseguido criar e reter valor nestes novos mercados.

Recentemente o BCI, juntamente com a Axiz assinaram um protocolo de parceria que formaliza o lançamento do cartão de crédito Private Label AXIZ. Que solução é esta e a quem se destina?

O acesso ao crédito em Moçambique ainda não está ao nível de outros Países com economias mais estáveis, com exigências idênticas às práticas internacionais, a concessão de Crédito é condicionada ao cumprimento de regras e informações da actividade que muitas vezes as empresas não têm devidamente estruturadas e com isso , as empresas especialmente dedicadas ao comércio por grosso e a retalho de equipamento, registam dificuldades naturais na constituição de  stocks ou elas próprias na criação de facilidades de crédito aos seus clientes para uma boa fluidez do seu negócio.

A AXIZ sempre procurou apoiar os seus Clientes Revendedores (empresários em nome Individual, Micro, Pequenas e Médias, e Grandes Empresas) facilitando-lhes vendas a Crédito, mas esta é uma actividade que cabe ao sistema financeiro gerir e não a cada empresa individualmente.

O que fizémos foi criar com o Banco Comercial de Investimentos de Moçambique (BCI), um produto de crédito que facilita a actividade dos nossos clientes revendedores e que lhes permite adquirir stock a Crédito sem custos, quando realizados os pagamentos dessa mercadoria até 40 dias, ou com custos quando o pagamento observa prazos superiores.

Com esta solução, aumentamos o apoio de tesouraria a cada um dos nossos Clientes, permitindo maior fluidez nas vendas e na reposição de stocks, sem penalizar o sector por falta de meios.

Esta parceria, que celebramos com o BCI, permite-nos dividir o risco associado a este apoio e assegurar uma cobertura nacional a qualquer empresa do sector que possa desenvolver a sua actividade entre o Sul ou o Norte de Moçambique, que tem no Crédito a sua principal área de negócio com vantagens para ambos pela troca de conhecimento que promove.

É aquilo a que podemos chamar uma solução win-win-win (BCI-AXIZ-Revendedores).

Dentro daquilo que é a vossa oferta, em que áreas têm apostado mais ao nível de soluções?

Atualmente, estamos a ser impulsionados pelo crescimento do ‘’cloud computing’’, da transformação digital e de um papel (directo) menos abrangente desempenhado pelos fabricantes que representamos; o relacionamento entre estes fabricantes, os distribuidores e os revendedores, está a ser radicalmente alterado.

Todos os grandes fabricantes, estão globalmente a mudar sua abordagem de negócio – de um onde havia uma entidade “super ativa” em toda a cadeia de valor, para um onde estão a reduzir os seus principais negócios, direccionando muito das suas atividades, aos seus distribuidores de valor acrescentado (VAD).

Estão a solicitar-nos para fazer (mais) marketing, para ter (mais) recursos técnicos altamente capacitados e fornecer (mais) serviços de suporte direto e indireto. E ao mesmo tempo, os revendedores e os seus clientes finais, estão a diminuir seus departamentos de TI.

Tudo isto tem um grande impacto nas nossas margens de lucro, uma vez que o ecosistema que nos rodeia, perde as suas ofertas de serviços. Também afeta, como e onde devemos investir.

Estamos focados na construção de ecossistemas que simplifiquem a forma como os clientes interagem com tecnologia, com soluções e entre si.

Moçambique faz fronteira com a Tanzânia, Malawi, Zâmbia, Zimbabué, África do Sul e Reino de Eswatini. Na sua opinião, estes países estão alinhados com Moçambique em questões tecnológicas?

Moçambique tem um mercado pequeno, estruturado em torno de um pequeno número de grandes compradores de tecnologia (empresas de minas e energia, telcos e bancos) e com um baixo nível de readiness (novos produtos e novas soluções) quando comparado com outros países da sub-região.

A competição no setor das comunicações faz-se entre três grandes operadores (Vodacom, TmCel e Movitel), o que é normal em outros países vizinhos. Mas, no entanto tem algumas características raras. É dos poucos países onde existe competição interplataforma nas comunicações (a TV CABO compete com as operadoras moveis em todas as províncias). E a competição provocou que o preço de 1GB em Moçambique fosse (é) o 3º mais baixo entre 49 economias africanas, mais barato do que no Quénia, Gana ou África do Sul (fonte: Research ICT África).

No entanto, a penetração das comunicações móveis e internet é ainda muito baixa face aos países vizinhos. E apenas 50% da população tem acesso a telefone móvel, havendo, especialmente, um significativamente baixo número de mulheres com acesso a telefone móvel (32%).

O baixo poder de compra da população rural (Moçambique tem um poder de compra muito inferior à média dos seus vizinhos, especialmente em meio rural) leva a que muitos não possam sequer comprar equipamentos informáticos ou de comunicações. E na maioria das regiões do país o acesso a energia seria sempre impeditivo da sua utilização regular. (50% da população não tem acesso a energia regular, contra 33% na Nigéria ou 6% na África do Sul).

Também devido a isto, a banca móvel ainda tem uma penetração limitada em Moçambique, mas está em acelerado crescimento nas zonas urbanas e peri-urbanas (63% dos utilizadores de telefones moveis têm uma conta de banca móvel nas cidades principais).

Podemos dizer que os fortes laços de Moçambique com o motor económico da região, a África do Sul, sublinham a importância do seu desenvolvimento económico?

A África do Sul é um parceiro económico de referência, especialmente no sul de Moçambique. Mas atenção que Moçambique tem parcerias económicas importantes com muitos outros países, tanto ao nível comercial como financeiro.

Os principais mercados de exportação de moçambique são a Índia, a África do Sul e a China (30,4%, 24,0 e 7,1% respetivamente), mas há um peso importante de países europeus neste domínio. É nas importações que se sente mais o peso da África do Sul, mas como o país vale “apenas” 23,1% das importações, não podemos falar exactamente de dependência.

Moçambique é a porta de entrada das mercadorias importadas por quatro países na região que não têm acesso ao mar (Reino de Eswatini, Zimbabwe, Zâmbia e Malawi). Moçambique vende energia eléctrica de Cahora Bassa aos seus vizinhos da região e este já é um dos principais produtos de exportação do país.

O que não quer dizer que a África do Sul não tenha uma importância muito grande. É uma das principais origens de investimento em áreas críticas como a agricultura e a agro-indústria. E o seu peso nas importações é suficiente para que se sintam intensamente as flutuações do Metical face ao RAND.

Por vários motivos, Moçambique nunca foi uma prioridade do investimento das empresas sul-africanas, a que não é alheia o contexto da língua e cultura e a situação de conflito em Moçambique durante muitos anos. Há espaço para um grande crescimento da relação com a África do Sul. Como fornecedor de tecnologia mas também como origem de investimento, competências e formação e até mesmo como mercado de exportação para produtos de origem moçambicana.

Numa dinâmica de cooperação entre os países pertencentes à CPLP, o que deveria, na sua opinião, ser prioridade dentro do universo das novas tecnologias?

Educação, educação, educação. Esta deve ser a primeira, a segunda, a décima e a última prioridade da cooperação em matérias de novas tecnologias em Moçambique.

Uma sociedade tecnologicamente avançada e inclusiva requer uma população qualificada na sua utilização, na sua transformação em valor e utilidade, na sua aplicação produtiva nas empresas nacionais e no desenvolvimento de novos produtos e serviços para o mercado, baseados nessas mesmas tecnologias.

Sem acesso a educação, para todos, e a um ensino tecnologicamente avançado, não se podem cumprir as fundadas, mas muito exigentes, expectativas de desenvolvimento e fuga à pobreza da população no país.