KUDUMBA: “Se quisermos ir longe, vamos acompanhados. Se quisermos ir rápido vamos sozinhos”

O provérbio africano tem sido uma das bases perpetuadas pela Kudumba – uma empresa ”orgulhosamente moçambicana” e responsável pelos Serviços de Inspeção Não Intrusiva no país. António Pedro Bonzo, Administrador, explica tudo em entrevista. Não perca!

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A Kudumba é a concessionária de Serviços de Inspeção Não Intrusiva na Republica de Moçambique. De que tecnologias e serviços falamos especificamente?

A Kudumba celebrou com o Governo Moçambicano um contrato de concessão em regime de BOOT-Build, Own, Operate, Transfer dos serviços de Inspeção Não Intrusiva (INI). Nos termos do referido contrato a Kudumba fornece os equipamentos e toda a infraestrutura dos serviços de INI nas fronteiras terrestres, marítimas e aeroportuárias e, complementarmente, nas linhas ferroviárias relevantes em termos de importação e exportação. Os nossos serviços têm ainda que garantir a permanente operacionalidade dos referidos equipamentos, incluindo a sua manutenção e substituição.

O conceito de INI é muito abrangente e inclui tecnologias diversas, desde os chamados scanners de contentores, detetores de radiações, sistemas de CCTV, câmaras de vigilância sob os veículos, sistemas de reconhecimento de placas de matrícula, etc. Em termos aeroportuários, o sistema implementado inclui scanners de bagagens de porão e de cabine, pórticos de deteção de metais, detetores de metais manuais, sistemas de CCTV com reconhecimento facial, scanners de corpo, detetores de estupefacientes e produtos perigosos, e sistemas biométricos de controlo de acessos.

Trata-se, pois, de uma prestação de serviços ambivalente, com recurso a equipamentos e tecnologia de excelência, que foi desenhada (e é constantemente ajustada) para fazer face às necessidades do Governo de Moçambique.

Quais são os grandes desafios que as fronteiras representam nos dias de hoje?

A INI é de particular importância quer para o controlo das importações e, por consequência, da arrecadação de receita fiscal, quer para a verificação, nas exportações e nos trânsitos, da legalidade das matérias e produtos enviados para outros países.

Adicionalmente, os desafios de segurança atuais, nomeadamente no que se refere ao terrorismo e ao tráfico de estupefacientes, tornam os serviços de INI de particular relevância para a segurança do comércio internacional, assim como, para a própria segurança nacional.

Como tive oportunidade de referir a responsabilidade da Kudumba, no âmbito do contrato de concessão, não é a de efetuar a INI propriamente dita, mas antes garantir que as autoridades, aduaneiras, de segurança, de controlo da fauna e flora bravia e aeroportuária estão dotadas da mais moderna tecnologia para fazer face a estes desafios e que estão devidamente formadas para a sua utilização.

Falou de formação, em que medida a Kudumba contribui para a formação de profissionais Moçambicanos habilitados a operar estes equipamentos?

O contrato de concessão tem dois aspetos particularmente relevantes – a manutenção de níveis de operacionalidade (uptime) acima de 95% e a formação das entidades oficiais, e outras por estas indicadas, para a utilização e operação de todos os equipamentos anteriormente descritos. E refiro estes aspetos porque os mesmos estão intimamente ligados entre si.

De facto, a formação das entidades oficiais, sejam elementos das Alfândegas, da Polícia, dos Aeroportos, ou outras, é permanente, com cursos nas diversas áreas relevantes e que incluem uma componente teórica, uma componente de on-the-job training e uma componente de renovação anual. Adicionalmente, a Kudumba forma os seus colaboradores nas mesmas áreas, bem como na manutenção dos equipamentos, garantindo desta forma uma transferência de know-how muito importante para os serviços de INI no País.

São estes nossos colaboradores, com o suporte último dos fabricantes dos equipamentos, que nos permitem garantir um uptime acima de 98%, numa base anual, o que excede a nossa obrigação contratual de 95% e que é, conjuntamente com o elevado profissionalismo de todos os nossos colaboradores, o nosso maior motivo de orgulho.

A Kudumba é uma empresa Moçambicana que trabalha com equipamentos de tecnologia de ponta. Como é que foi a introdução e adaptação a essa tecnologia?

Somos sim uma empresa Moçambicana, orgulhosamente Moçambicana, como gostamos de dizer, e orgulhosamente porque construímos de raiz uma empresa de standard internacional, com serviços de alta qualidade, cumprindo escrupulosamente as nossas obrigações contratuais e indo mesmo mais longe do que o que nos é requerido. Toda a estrutura de INI presente no país foi idealizada e implementada pela Kudumba, sendo a nossa empresa uma referência neste sector. Construímos um nome assente numa equipa de colaboradores, na sua grande maioria nacionais que, demonstraram o seu comprometimento, quer com o projeto, quer com os objetivos de segurança nacional, no seu sentido mais lato, definidos no contrato de concessão.

Ao longo destes 13 anos implementámos, gerimos e aperfeiçoámos as recomendações da Organização Mundial das Alfândegas, da ICAO-International Civil Aviation Organization e contribuímos, de forma indelével, para que Moçambique, nesta área, tenha o reconhecimento de estar dotado de todas as ferramentas necessárias e adequadas. É, por isso, com enorme satisfação que vemos a Kudumba e o modelo de atividade por nós desenvolvido reconhecido a nível internacional.

Como vê os custos da INI face aos custos suportados pelos operadores económicos?

Naturalmente, que a INI deve ter um custo, tendo em consideração o tipo e qualidade de serviços prestados.

Poderíamos analisar se o custo atual da INI é muito elevado ou muito baixo, mas devolvo-lhe uma pergunta – Quando, há 14 anos atrás, o tempo médio para o desembaraço aduaneiro de um contentor era de 15 dias e hoje é de um par de horas, qual é o ganho efetivo para os operadores económicos da existência da INI?

E com esta pergunta que lhe devolvi, falo-lhe apenas do custo de tempo, mas posso falar-lhe de vantagens competitivas, por exemplo, determinados países exigem que todas as mercadorias por si importadas tenham sido previamente objeto de INI no país de origem, essencialmente por razões de segurança e, quando tal não acontece, essas mercadorias deverão ser objeto de transbordo noutro estado onde essa inspeção possa ser feita. Penso que será clara a vantagem competitiva de as exportações de Moçambique poderem sair do país já com esse selo de “garantia”.

Por último, gostaria apenas de lhe dar mais um exemplo de como o custo da INI na prática se revela um ganho para os operadores económicos – a garantia de que as Alfândegas podem efetuar ações de INI em todas as importações efetuadas e, com base na mesma, realizar inspeções físicas de todas aquelas que apresentem potenciais discrepâncias, garante uma maior equidade entre todos os operadores económicos, reduzindo substancialmente a possibilidade de concorrência desleal por via da fuga às imposições aduaneiras.

Quais são os grandes desafios que a Kudumba enfrenta atualmente?

Os nossos grandes desafios são permanentes e são de natureza eminentemente operacional – manutenção dos níveis de uptime acima dos mínimos contratualmente definidos, por forma a garantir a permanente operacionalidade dos equipamentos, permanente atualização tecnológica e assim permitir mais e melhor serviço (como exemplo, hoje em dia já nos é possível efetuar o scan de um comboio em movimento a uma velocidade entre os 40km/h e os 50km/h), identificação de serviços de valor acrescentado que permitam às autoridades melhor desenvolverem as suas competências de inspeção e de segurança, apenas para mencionar alguns destes importantes desafios que, ao longo destes 13 anos, nos têm acompanhado e permitido reinventarmo-nos para estar sempre na linha da frente da tecnologia, da operacionalidade e da qualidade dos serviços.

Sendo Moçambique parte da CPLP, vê alguma vantagem e/ou possibilidade de expansão da Kudumba nesta Comunidade de Língua Portuguesa?

Se nos fizesse essa pergunta há alguns anos atrás a nossa resposta seria inequívoca, não ambicionávamos fazê-lo, nem na CPLP, nem em qualquer outra região. O nosso objetivo foi solidificar a nossa experiência e conhecimento, criar equipas multidisciplinares que respondessem em tempo útil e de forma eficaz às nossas obrigações contratuais em Moçambique.

Hoje, sabemos que estamos em condições de olhar e explorar oportunidades noutros mercados e, naturalmente, a proximidade linguística será para nós uma grande vantagem; temos os procedimentos, temos a cultura, temos o know-how que nos permite de forma rápida, mas estruturada, replicar as nossas operações em qualquer país.

Tendo dito isto, temos consciência de que as realidades variam de país para país, que os desafios não são os mesmos, que as necessidades diferem, mas sabemos que temos uma longa aprendizagem que nos permite olhar com confiança para esses desafios e, principalmente, sabemos que “se quisermos ir longe, vamos acompanhados; se quisermos ir rápido vamos sozinhos”, como diz o provérbio africano e nós, definitivamente, queremos ir longe e por isso olhamos com muito interesse para o estabelecimento de parcerias com aqueles que melhor conhecem as realidades dos seus respetivos países.

Vemos hoje, por isso, com muito bons olhos estender a atividade da Kudumba para outros países.