José Severino apela aos empresários portugueses a investir em Angola ao invés de verem o país como um destino das exportações. Estão reunidas as condições para o investimento direto?

Os empresários que se remetam sistematicamente à área de conforto perdem oportunidades, e quem as perde corre o risco de ser ultrapassado na competitividade e Angola já mostrou ser um lugar muito aliciante para o investimento até porque o seu mercado tem uma expansão natural para países vizinhos encravados e que somam cerca de 100 milhões de consumidores.

O que muda com a nova Lei do investimento Privado?

O privado estrangeiro deixa de ficar constrangido à obrigação de ter sócios angolanos sendo tal uma opção do investidor, já não há a obrigação do valor mínimo de USD 1,0 milhão.

A condição para as transferências de dividendos tem um regime mais claro bem como há agora legislação para transparência como a da Concorrência e a forte flexibilização de vistos de entrada e de permanência.

O Presidente da Associação Industrial Angolana (AIA) chama, ainda, a atenção para a entrada de Angola na zona de livre comércio da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). Quais são as mais-valias para Angola e para os empresários?

Vendo o importante papel que os investidores estrangeiros podem desempenhar, o nosso alerta é de que o mercado regional e face à livre circulação de bens os que não investirem cá dificilmente sobreviverão com a concorrência de países da região, com destaque para a África do Sul até com custos de transporte muito reduzidos pela proximidade e num regime, em muitos casos, de camionagem “porta a porta”. Claro que também perde a possibilidade de se inserir nesse mercado de USD 250 milhões de consumidores.

José Severino tem-se demonstrado preocupado com o futuro da economia em Angola por falta de micros, pequenas e médias empresas. Por onde pode ou deve passar a mudança? O que deve ser feito?

Nenhuma economia se desenvolve de forma sustentável sem as empresas e por isso a coerência do Executivo ter aceitado as nossas propostas atrás referidas (embora tardiamente) e colocadas logo à nascença da então lei e aqui a eliminação da obrigação do mínimo de USD 1,0 milhão. Para isso, e no domínio interno, o Executivo está a implementar uma série de medidas no domínio do Crédito.

Que relação gostaria de ver entre Portugal e Angola, a par de um maior investimento por parte dos empresários?

Os empresários portugueses, em quem reconhecemos méritos, verão a sua influência económica minimizar-se a médio prazo e, consequentemente, perda de influência geopolítica na região.

Angola, bem como os restantes países-membros da CPLP, está a aproveitar devidamente o potencial da comunidade no que diz respeito à cooperação económica e empresarial?

Negativo, mas ainda assim os líderes políticos deverão trabalhar muito mais na análise das vantagens comparativas que os seus recursos naturais, suas posições geográficas e os seus mercados oferecem.

Devia ser feito mais por parte da CPLP?

Sim, mas sem sobranceria dos ditos mais fortes e sem complexos de ditos menos fortes, pois isso são questões meramente subjetivas, onde por vezes o que parece poder oferecer menos, será um gigante propulsor das vantagens dos demais.