O António considera que o Estado português dá a importância necessária à segurança de informação dos seus dados?

O Estado português segue os standards e guidelines da União Europeia. Contudo tem estado extremamente focado em problemas económicos, o que é natural. A segurança de informação dos seus dados, deverá estar obviamente acautelada, pois, felizmente, e ao contrário do que alguns possam pensar, apesar de sermos um país pequeno temos profissionais extremamente competentes nos Serviços de Informações, Forças de Segurança e outras instituições-chave.

Por exemplo, no campo da cibersegurança já vemos algumas empresas a investir na prevenção mas ainda são muito poucas. O próprio Gabinete Nacional de Segurança e o Centro Nacional de Cibersegurança têm feito ações de sensibilização nestas matérias não só para o setor público mas também para o privado. Formações estas sem qualquer custo. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer…

Julgo que o Estado português coloca os interesses dos portugueses em primeiro lugar. Prova disso é que, felizmente, ainda não sofremos nenhum atentado terrorista ou situações extremamente danosas para as instituições e economia portuguesa como o roubo de dados em setores sensíveis como o da segurança, defesa, saúde, entre outros. O que não significa que estejamos imunes a possíveis ataques futuros e não haja atores com a intenção e a capacidade…

Apesar de ser portuguesa de raiz a IntellCorp ganhou asas e com isso um estatuto internacional. Quais são os países em que atuam?

Sim, de facto foi algo que apesar de esperado não deixa de ser uma constante surpresa. A receção foi tão positiva que colaboramos já inclusive com alguns dos maiores grupos e empresas de Informações e/ou de Segurança e os seus clientes, muitos das Fortune 50 e Fortune 500 em due dilligence e vetting de empresários e empresas lusófonas.

Por uma questão de respeito para com os Estados onde atuamos e os nossos clientes, não podemos revelar onde operamos seja passado presente ou futuro. Bastará talvez dizer que não temos qualquer barreira geográfica para a nossa atuação.

Os países lusófonos partilham vários pontos em comum, como a língua. Que importância tem este aspeto no trabalho que realizam junto de países que falam português?

Pensamos nos Estados da CPLP e nas suas empresas e empresários menos como “irmãos” e mais como aliados. Na IntellCorp, consideramos o termo “irmão” como um termo que se poderá apenas aplicar ao facto de termos uma língua comum. Em tudo o resto, os Estados que constituem a CPLP são soberanos e merecedores do respeito que se confere a um “igual” e Portugal não é o “mais velho” mas apenas um dos Estados da CPLP.

Nesse quadro, a IntellCorp beneficia sem dúvida da língua comum mas acima de tudo do facto de Portugal ser um país especial numa localização geográfica muito especial. Estando no meio de três continentes, temos surpreendentemente e de forma competente conseguido manter-nos relativamente afastados dos problemas de outros big players.

Mas para não fugir ao tema [sorri], sim, são sem dúvida importantes os pontos em comum – em especial a língua portuguesa – que partilhamos com os países em questão, mas mais importante ainda é o potencial de investimento que esses Estados representam para a comunidade internacional e que será desenvolvido apenas com a participação de quem consegue ver para além da língua comum, das afinidades culturais e históricas.

Como é lidar com diversas legislações dos países em que trabalham?

Portugal, para além de pertencer à União Europeia, tem aliados importantíssimos cujas legislações e postura em geral, em diversas matérias de Informações e Segurança são extremamente avançadas e deveriam ser estudadas, adaptadas e aplicadas não só pelo Estado português mas também pelos empresários nacionais.

A IntellCorp enquanto empresa portuguesa de projecção internacional e com clientes em todos os continentes, tem o dever e a obrigação de não só aprender com os melhores, como de se adaptar e respeitar a legislação onde actua. Esse dever e obrigação é não só uma demonstração de respeito para com os Estados onde operamos mas também uma forma de protegermos os nossos clientes, resolvendo os seus problemas e não agravando os mesmos.

Cada vez mais se fala em proteção e segurança a vários níveis. Começamos a assistir a uma mudança de comportamento por parte dos empresários, instituições, organizações governamentais, ONG’s… ou há ainda um longo caminho a percorrer nestas temáticas?

Ainda há um longo caminho a percorrer no que toca à segurança! Sendo a IntellCorp uma empresa completamente desligada de grupos de interesse ou alinhamentos partidários é de realçar a nova postura da classe política no que toca à segurança do Estado português, que se refletiu por exemplo na questão do acesso aos metadados por parte dos Serviços de Informações. Por outro lado, e realço novamente a postura apolítica da empresa, a escolha para Ministro da Defesa de alguém com uma clara postura diplomática e vocação e conhecimentos nas áreas das Relações Internacionais, Defesa e provas dadas nas relações com os diversos Estados da CPLP veio confirmar a vontade do Estado português de apostar numa nova forma de ver o mundo; mais jovem, mais dinâmica e mais proativa.

Atualmente, tanto Portugal como as instituições e empresas portuguesas são um verdadeiro “terreno de caça” para interesses externos. Esses interesses externos têm-se aproveitado e continuarão a aproveitar-se da “ingenuidade” portuguesa e da postura típica do “não acontece nada” para explorar vulnerabilidades mais ou menos óbvias, muitas já conhecidas dos profissionais dos setores em questão. Para citar apenas algumas das vulnerabilidades que se arrastam há dezenas de anos e se têm agravado, recordo a falta de adequação orçamental dos Serviços de Informações, Forças de Segurança e a Defesa; vencimentos adaptados à realidade para os profissionais destas áreas e legislação apropriada ao combate às velhas e novas ameaças. Tudo isto contribuiria muitíssimo para um combate efetivo às atuais vulnerabilidades.

Assim, a realidade é que empresas que são reconhecidas como estratégicas e em setores vitais se encontram neste preciso momento sob forte ataque…

Como explicar que na prevenção é que está o ganho (no que diz respeito à segurança de informação e assuntos similares) e não numa atuação reativa?

Prevenção começou há muito tempo na vacinação com Jenner e Pasteur! [ri-se] Muitos optam por não apostar na prevenção porque acham que só acontece aos outros ou porque conseguem assim reduzir custos contudo não imaginam os danos e prejuízos que podem sofrer por não estarem devidamente protegidos – esses danos terão custos muito superiores ao do investimento na prevenção.

Vivemos num mundo muito mais perigoso do que muitos possam imaginar e desvalorizar ou por ignorância ridicularizar tem sido, infelizmente, o comportamento de muitos…

Não, os portugueses não investem o suficiente na prevenção ou em segurança e muito menos em Informações como forma de antecipação e acabam sempre por ter de reagir (muitas vezes já demasiado tarde) e em cima do joelho… Lembre-se que o seguro morreu de velho mas o desconfiado ainda está vivo!

antoniobrasmonteiro@protonmail.com

António  Brás Monteiro

é Licenciado em ‘Ciências da Comunicação’ pela Universidade Católica Portuguesa e conta com vários cursos pós-graduados de: ‘Gestão de Crises’ pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, ‘Contraterrorismo’ também pelo ISCPSI, ‘Cibersegurança e Gestão de Crises no Ciberespaço’ pelo Instituto da Defesa Nacional, ‘Common Security and Defence Policy Course’ pelo European Security and Defence College e conta também com uma série de certificados desde a Delft University of Technology ao Gabinete Nacional de Segurança. Foi-lhe atribuída também a credenciação de segurança NATO SECRET pela Autoridade Nacional de Segurança.

Nos últimos anos António Brás Monteiro foi Liaison Officer na SolvX, uma empresa também dedicada à área de intelligence e segurança baseada em Bruxelas e desde 2017 é Consultor de Business Development na fabricante de drones portuguesa Tekever. A sua paixão são as viagens e os Land Rover e já foi Diretor de publicações dedicadas a estes temas. Para relaxar dedica-se ao tiro desportivo e sonha com uma expedição pela rota de David Livingstone.