De Lisboa para o mundo”. É assim que se pauta a FCB Glocal, uma rede de escritórios com ADN internacional. E o que levam, de facto, de Lisboa para o mundo? Quais são as caraterísticas do vosso ADN?

Apostámos em Angola e em Moçambique e, dessa aposta, nasceu em 2017 a FCB Glocal, uma aliança entre três sociedades de advogados que trabalham em colaboração: a FCB, a EVC Advogados em Angola e a AG Advogados em Moçambique.

É assim que partimos de Lisboa para o mundo, acompanhando sempre os nossos clientes nos seus desafios internacionais – o facto de fazermos parte de networks internacionais também contribui para esta internacionalização.

Uma das nossas principais preocupações é acompanhar os nossos clientes como um parceiro, muito além da mera assessoria jurídica, e por isso acompanhamos os nossos clientes na internacionalização. Foi assim que surgiu a vontade de estarmos presentes em Angola, no ano em que entrei na FCB, e, mais tarde, em Moçambique.

Hoje vemos clientes que iniciaram a sua atividade em Angola e Moçambique, com os escritórios locais da FCB GLOCAL, expandirem a sua actividade para o mercado europeu e fazerem esse caminho connosco, beneficiando do nosso conhecimento do seu negócio e da nossa experiência local.

Levamos para o mundo a experiência, um conhecimento profundo das áreas de negócio que trabalhamos, uma especialização acentuada que nos permite estar sempre em constante atualização, antecipar dificuldades e pôr ao serviço do cliente a experiência e também, porque não, alguma criatividade em encontrar soluções à medida.

A atuar em diferentes jurisdições e com “um mundo de soluções”, qual tem sido o foco da FCB? O que não pode deixar de ser evidenciado no vosso modo de atuação?

O que nos distingue, e que temos conseguido transportar para outras latitudes, é o facto de para nós ser indispensável conhecer por dentro a atividade dos nossos clientes, pois só assim conseguimos antecipar problemas, entender o que é pretendido a cada momento, propor as melhores soluções e manter o cliente informado sobre o que pode ter impacto na sua atividade.

Mais do que procurar ganhar notoriedade da forma tradicional, gostamos de deixar os clientes falar por nós e para isso focamo-nos no conhecimento, no rigor e em trabalhar os projetos em que sabemos que podemos ser uma mais-valia e que nos trazem a experiência para a cada dia sermos melhores que no dia anterior.

Margarida Roda Santos entrou na FCB em 2005 e é sócia desde 2017. Enquanto sócia que marca quer deixar? E na área do Direito?

O rigor, a organização e o foco em ser sempre uma mais-valia para o cliente. Sou intransigente com o facilitismo e com o desleixo procurando com a minha equipa sempre chegar ao melhor. Isto sempre conjugado com um equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, porque a vida é feita de ambas as realidades e sem o equilibro certo não funciona. Eu própria tenho três filhos ainda pequenos e não abdico de estar presente quando acho que é fundamental estar e incuto o mesmo na minha equipa. Estamos quando é preciso, substituímo-nos quando assim é necessário, mas também estamos ausentes quando a vida pessoal assim nos exige.

Nesta profissão o que me realiza é saber que com o meu trabalho faço parte da equipa do cliente e  o ajudo a crescer e a fazer sempre melhor. Sentir que faço parte desse processo é um desafio muito gratificante.

É Coordenadora dos Departamentos de Propriedade Intelectual, Consumo e Life Sciences da FCB. O que é mais desafiante para si? O que a fascina mais neste mundo?

Os maiores obstáculos destas áreas acabam também, em certa medida, por ser o que mais me fascina.

O elevado nível de conhecimento técnico que se requer a um advogado destas áreas, a constante atualização, as normas técnicas que vão muito além do direito e que se cruzam com áreas totalmente diferentes, requerem valências, estudo técnico e curiosidade que nos obrigam a manter focados e motivados.

São áreas onde a criatividade e a inovação estão sempre na ordem do dia, onde o diálogo com os clientes tem toda uma linguagem própria – quase em código – que leva o seu tempo a enraizar e onde o advogado acaba por dar um contributo. Fazer parte desta constante inovação torna o meu dia-a-dia um constante desafio.

Por outro lado, o que a preocupa mais nestas áreas do Direito? A que verdadeiros desafios os advogados têm de responder, atualmente, no que diz respeito ao universo do Direito e da Justiça?

Não é de agora, mas é um passado relativamente recente, que um dos principais desafios a que os advogados e juízes têm que responder é a velocidade com que as leis são alteradas e remendadas, muitas das vezes com pouco critério. Isto gera insegurança jurídica; hoje é quase impossível estar a dar uma opinião, sobre algo em que não se mexe há 6 meses, sem se ir verificar se não terá havido alterações, pois o mais provável é ter havido.

Por outro lado, a proliferação de regulamentação, que muitas vezes se cruza e duplica, obriga a um esforço de enorme “descodificação”. Tenho um cliente que usa a expressão “advoguês”, para descrever o quão complexo é o nosso emaranhado de leis que obrigam necessariamente à sua interpretação por advogado, que acho que diz tudo.

Mas o Direito não se faz apenas de leis, mas também de execução no dia-a-dia e, não obstante algumas melhorias claras em áreas específicas – o simplex na área dos registos foi seguramente uma delas -, a máquina do Estado é pesada e muito burocrática e isso é transversal.

Conta já com uma vasta carreira profissional. Enquanto mulher, numa área associada até há bem pouco tempo, maioritariamente, ao sexo masculino, teve de lidar com questões relacionadas com a desigualdade de género?

Na verdade, não. Tenho a carreira que sempre quis e nunca senti qualquer discriminação, quanto muito se existe é pela positiva. Se me pergunta se os meus sócios e colegas me tratam por igual, não hesito em dizer que sim, mas se me perguntar se a presença de uma mulher numa sala de reuniões torna as coisas algo diferentes, diria que sim, pois modera-se a linguagem, mas a isso chamo educação e não desigualdade.

Não diria que o Direito é até há bem pouco tempo associado ao sexo masculino. Quando eu entrei para a faculdade em 87, no curso diurno já eramos em número muito idêntico. Hoje claramente as mulheres são a maioria.

Há que ter em conta que, porventura ao contrário de outras áreas, no mercado da advocacia, o mérito é o factor essencial para o sucesso profissional.

Na magistratura, desde 2007 que se encontram mais mulheres que homens, sendo que em 2018 as mulheres eram quase o dobro dos homens, segundo os dados Pordata.

Porque é importante (ainda) evidenciar o papel das mulheres no mercado de trabalho, em geral, e nas áreas do Direito e da Justiça, em específico?

O que importa assegurar é que homem ou mulher que tenha um desempenho superior a outrem que tem a mesma função é devidamente compensado e premiado pelo seu mérito.

A advocacia é uma área muito exigente onde no percurso profissional podem por vezes surgir desequilíbrios entre a vida profissional e a vida pessoal ou familiar, mas isso cabe a cada um gerir e identificar quais são as suas prioridades e procurar o equilíbrio que precisa.

As mulheres estão devidamente evidenciadas e estou em crer que não necessitam de ajuda para se destacar e liderar, sempre que as suas qualificações, mérito, empenho e compromisso, tal como as dos homens, assim o determinem.

É autora de artigos em Propriedade Intelectual, Tecnologias da Informação, Proteção de Dados e assuntos relacionados com as Life Sciences. Conceitos como inteligência artificial, transformação digital ou simplesmente as novas tecnologias vão ditar o futuro da advocacia? De que forma?

Já estão a ditar, mas com moderação. De resto a tecnologia e a inovação, se excluímos os desastres naturais, sempre foram o motor das maiores alterações na humanidade.

O mundo da advocacia viveu, nos últimos 20 anos, a massificação do e-mail, e agora também o WhatsApp ainda mais imediato (quando até então se vivia entre cartas e faxes), a digitalização dos processos e as plataformas como o Citius. Salvo muito raras excepções, os advogados souberam adaptar-se à nova realidade, sob pena de também em termos pessoais perderem a evolução do mundo que passou a ser digital.

Na FCB entendemos a tecnologia como uma ferramenta e não como um capricho ou um desígnio prioritário.

Já estamos a implementar ferramentas de inteligência artificial na nossa prática e têm, efetivamente, nos últimos tempos, surgido soluções muito úteis.

Há muito que na advocacia se usam ferramentas de gestão documental e processual. A FCB não é diferente e conta com os seus parceiros tecnológicos para investir e implementar no que faz sentido e traz valor acrescentado.

A tecnologia teve historicamente impacto no mercado de trabalho e é potencialmente eliminadora de necessidades de recursos humanos. Não obstante, na FCB entendemos que não existem organizações sem pessoas e são estas que fazem a diferença.

Não é novidade para ninguém que o Direito está longe de ser uma ciência exata, e quer-me parecer que ainda vamos precisar de bons advogados (humanos) durante muito tempo.