“Moçambique tem vantagens muito importantes com Portugal que devem ser aproveitadas nos negócios”

Nelson Muianga é o acionista maioritário e Presidente do Conselho de Administração do Grupo NEF. É igualmente PCA da CETA desde 2012 e da RIBEMOZ desde 2013. Tem mais de 20 anos de experiência profissional e desde 2012 que abraçou a gestão de topo de empresas do cluster de construção e de investimentos e gestão de participações. Em entrevista à Revista Pontos de Vista, falou sobre o potencial de Moçambique em matéria de negócios, da relação do país com Portugal e ainda sobre o que há a fazer para que Moçambique com quase três mil quilómetros de costa e milhões de terras aráveis deve fazer para alavancar toda a sua capacidade.

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Nelson Muianga esteve em Portugal como participante num evento que uniu Portugal e Moçambique através de treze acordos de cooperação em diferentes setores. A assinatura dos documentos marcou a segunda visita de Filipe Nyusi a Portugal.

Sobre a relação entre os dois países o nosso entrevistado ressalvou alguns pontos que considera como desafiantes mas necessários. “Neste momento há questão fulcral em Moçambique: a recuperação e posicionamento das empresas. Isto é essencial porque muitas fecharam e precisam de ser reativadas com estímulos e projetos concretos. Acredito que deva ser desenhado um modelo de recuperação de empresas com objetivos concretos. As empresas devem estar preparadas para os desafios mais próximos decorrentes dos projetos e oil & gas e recursos minerais e para o feito devem apostar na certificação. Este é que vai ser o grande input para o futuro. Temos de ter uma abordagem de parceria estratégica dentro e fora de Moçambique. Criar um bom cluster por sectores de atividade para mostrar que estamos organizados”.

Prova de que acredita nesta mudança de paradigma é a própria resiliência do Grupo NEF que desde a sua formação tem contribuído para o desenvolvimento do país. “Quando fizemos a aquisição foi com o propósito de crescer e robustecer a indústria de construção em Moçambique. Aprendemos que ser resilientes era a única hipótese. Avaliámos o que correu mal e instaurámos um novo modelo de gestão e de governance. Os novos cenários de perspetiva da economia acreditarmos que possamos resistir. Estamos a fazer os possíveis para mostrar que vamos conseguir”, refere Muianga.

Em 2015, um conjunto de gestores da CETA e RIBEMOZ propuseram ao anterior acionista maioritário das empresas uma operação de MBO (Management buy Out) para adquirir 77.97% do capital social da CETA – Engenharia e Construção – e 100% do capital social da RIBEMOZ. Para corporizar esta aposta empresarial, a equipa de gestores criou uma holding, designada NEF – Investimentos e Gestão de Participações Sociais, SA.

A operação da aquisição das participações sociais da CETA e da RIBEMOZ, efetuada em sessão especial de compra na Bolsa de Valores, foi concluída a 30 de Setembro de 2016. Para além das participações sociais já adquiridas, este novo grupo, integralmente constituído por moçambicanos, pretende expandir o cluster de construção, criando mais unidades de negócios, fortalecendo deste modo a integração das operações.

“Os próximos anos  serão fulcrais”

O empresário acredita que “os próximos três/quatro anos serão fulcrais mas não podemos olhar apenas para o setor da construção, temos que explorar outras atividades de logística e serviços e assim diversificar o portfólio em áreas complementares. De facto, há áreas-chave que o governo moçambicano definiu que são quatro pilares importantes: infraestruturas, turismo, energia e agricultura. Este grupo de prioridades. Na minha opinião, a agricultura e o turismo deverão ser os principais focos porque ambos podem ser massificados pelo país inteiro. A agricultura é a base para o desenvolvimento do país. O turismo é o pilar nevrálgico do país que atualmente é completamente inexplorado e Moçambique tem que apostar forte aí.”

Laços estreitos

O empresário acrescenta ainda que “Moçambique tem vantagens muito importantes com Portugal que devem ser aproveitadas nos negócios. Devemos criar uma parceria de troca de conhecimento. Isto é importante para Moçambique porque pode usar Portugal como hub para chegar a outros países. Os serviços que permitam transações em termos de mobilidade é um fator importante para dinamizar as relações. Devemos continuar a trabalhar em plena sintonia e próximos. Moçambique deve capitalizar o facto de Portugal fazer parte da União Europeia. Para que isto aconteça também é importante que Portugal se abra mais para receber Moçambique, eliminar alguma burocracia que pode facilitar e muito a internacionalização empresarial. Como empresários, temos que reforçar estes laços para criar um dinamismo entre os dois países e criar fluidez.”

A humildade é o fator que mais salta à vista quando se fala de Moçambique. Um país que partilha uma história incontornável com Portugal e que neste momento começa a ver uma luz ao fundo do túnel depois de uma grave crise económica que afetou várias áreas de negócio e por conseguinte a economia nacional.