Serviços de urgência com longos tempos de espera e dificuldades no acesso a cuidados de saúde primários na doença aguda são problemas que todos nós – utentes e profissionais do SNS – conhecemos de experiência própria ou através de familiares ou amigos.

Embora não sirva verdadeiramente de consolo, sabemos que estes cenários se repetem noutros países – também naqueles que entre nós frequentemente são apontados como “mais evoluídos”.

Na Alemanha, por exemplo, o país em que estudei medicina e em que, nos anos 90, no início de carreira, fiz os primeiros bancos de urgência, era muito raro um doente não vir referenciado pelo seu médico de família ou através do sistema de emergência pré-hospitalar. Quando isso acontecia era quase certo que se tratava de um “sem-abrigo” à procura de ser acolhido durante as noites frias de inverno.

Entretanto, dos 38 milhões episódios de urgência registados na Alemanha em 2015, 45% foram atendidos em hospitais[1]. A percentagem de autorreferenciação subiu para 37% – 50%. Os episódios de urgência hospitalar têm crescido 4-9% por ano, enquanto os episódios atendidos em cuidados primários têm descido. De dez doentes atendidos nos serviços hospitalares alemães, quatro admitem que não necessitavam de um serviço de urgência hospitalar para o seu problema de saúde.

Em comparação, cerca de 40% dos episódios de urgência hospitalar em Portugal são classificados pela Triagem de Manchester como pouco urgentes ou mesmo não urgentes. É a este grupo de doentes que a telessaúde pode oferecer soluções.

Vejamos dois exemplos: a Dinamarca e a Suíça:

  1. O exemplo dinamarquês: Um estudo[2] recente analisou a eficiência do serviço de triagem telefónica executado pelos médicos de família durante o período em que os cuidados de saúde primários estão encerrados. Este serviço encontra-se a funcionar em quatro das cinco regiões da Dinamarca. O estudo conclui, que 59,2% das chamadas terminam com uma teleconsulta. Em apenas 40,8% dos casos os doentes são triados para uma observação presencial. É de salientar, que em regra o médico que atende não é o médico de família do doente em causa.

  1. O exemplo suíço[3]: O sistema de saúde suíço está assente num modelo de seguros. Dependendo do seguro de saúde a telemedicina pode ser a primeira via de acesso a cuidados de saúde. A empresa Medgate, que surgiu em 1999, é o maior prestador teleconsultas na Europa. Assistiu 900 000 doentes na Suíça em 2016. Metade dos casos (50%) foram totalmente resolvidos à distância – sem necessidade de consulta presencial.

Portugal já dispõe de um serviço de telessaúde que se dirige à população com doença aguda: o Centro de Contacto do SNS – SNS 24.

Em 2018, os seus enfermeiros atenderam mais de 1 milhão de chamadas de utentes que procuravam orientação por um problema agudo de saúde. Através do número 808 24 24 24, em regra, em menos de 20 segundos, qualquer cidadão tem a oportunidade de falar com um profissional de saúde que o ouve, aconselha e acompanha com chamadas de seguimento. Quando necessário, encaminha para cuidados de saúde presenciais no centro de saúde ou hospital. Atualmente, cerca de 30% dos casos são orientados para autocuidados. Números da Holanda[4] indicam que esta percentagem talvez ainda poderá aumentar para 40%.

Mas podemos ambicionar ser mais resolutivos e aliviar a pressão nas urgências e centros de saúde. Como? Evoluindo para um modelo semelhante ao suíço ou dinamarquês. Na triagem pelos enfermeiros do SNS 24 poderão ser identificadas as situações passíveis de resolução, com segurança clínica, através de uma teleconsulta médica. Sabendo que as teleconsultas consomem habitualmente menos tempo que as presenciais, podemos ainda aumentar a capacidade de resposta do SNS. Teremos assim uma oportunidade real de finalmente reduzir a afluência inapropriada aos Serviços de Urgência e permitir que as suas equipas dediquem toda a atenção aos casos verdadeiramente urgentes.

[1] Aqua-Gutachten-Notfallversorgung, AQUA – Institut für angewandte Qualitätsförderung und Forschung im Gesundheitswesen GmbH, 2016

[2] Telephone triage by GPs in out-of-hours primary care in Denmark: a prospective observational study of efficiency and relevance; Br J Gen Pract 2016; DOI: 10.3399/bjgp16X686545

[3] Telemedizin in der Schweiz – das Beispiel Medgate,  Dtsch med Wochenschr 2017; 142(05): 334-339 DOI: 10.1055/s-0042-111357

[4] InEe https://ineen.nl/assets/files/assets/uploads/ InEen-Benchmarkbulletin-huisartsenposten-2014.pdf