“Urge acelerar a sensibilização das consciências”

A temática da diversidade tem na Sonae uma história de longa data, muito relacionada com a própria evolução, crescimento e diversificação dos nossos negócios. Acreditamos, de forma genuína, no valor acrescentado que traz às nossas lideranças e às nossas equipas se formos verdadeiramente capazes, não só de a integrar, mas de dar resposta ao difícil desafio de a incluir e gerir. Ela é, sem dúvida, um potencial driver de dinamismo, inovação, criatividade e performance.

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Na Sonae MC, falar de diversidade ultrapassa dimensões tangíveis como género ou etnia. É para nós um conceito substancialmente mais lato, versando sobre a pluralidade de perfis, experiências, crenças, estilos de aprendizagem e liderança. Numa organização com mais de 32.500 colaboradores, com modalidades e formatos de negócio muito diversificados, incluir e gerir esta diversidade é o grande desafio que se põe às nossas lideranças e onde estamos cientes ter ainda um longo caminho a percorrer.

O mundo do trabalho e a sociedade em geral estão atualmente imersos numa profunda mutação, fruto do impacto da evolução tecnológica: a inteligência artificial, a automação, a robótica e a digitalização vieram alterar a forma como encaramos as relações e os processos, e, consequentemente, influenciar o desenvolvimento social. Cada vez se torna mais relevante conseguir assegurar o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, disponibilizar as melhores condições para a realização do trabalho e valorizar e reconhecer o desempenho individual e de equipa.

Atenta a toda esta mudança, a Sonae MC tem envidado ao longo dos últimos anos vários esforços na vertente da igualdade de género, consubstanciados em acordos com diferentes entidades e ações concretas no terreno:

em 2013 a Sonae subscreveu a Women Initiative da European Round Table of Industrials (ERT), promovendo targets para maior diversidade de género em órgãos de gestão e decisão, bem como em posições de senior e middle management; potenciando o nosso envolvimento, e indo mais além de mero reporte de resultados, apostamos na promoção de workshops para apresentação e partilha de práticas implementadas nas empresas com assento neste fórum, denominados ERT Diversity Task Force;

em 2015 assinou um compromisso com o governo de Portugal, no sentido de manter acima de 30% o nível de representação do género sub-representado no conselho de administração, reforçando-o com planos de desenvolvimento de carreira (aos vários níveis de liderança) que assegurem o cumprimento deste compromisso nos anos vindouros; no decorrer deste mesmo ano, envolvemo-nos na network europeia LEAD (Leading Executives Advancing Diversity), onde recentemente integrámos, na área do retalho alimentar, uma iniciativa piloto para estudo do portefólio de competências que permitirá uma diferenciação positiva das mulheres em cargos de direção e gestão de loja;

em 2018 a Sonae MC implementou um Plano de Igualdade de Género, complementando-o de seguida com uma Política de Igualdade, assumindo assim, perante todos os seus colaboradores, a sociedade civil, e as entidades com as quais se relaciona, um compromisso de tratamento justo e apropriado para cada situação, sustentado em critérios de ponderação equilibrados e equitativos, numa perspetiva constante de aprendizagem e melhoria.

Muito embora a lei da paridade tenha vindo reduzir o fosso entre homens e mulheres na liderança das empresas, regulamentando um sistema de quotas para as empresas cotadas em bolsa, a verdadeira mudança só poderá acontecer quando as empresas colocarem o tema da igualdade no topo das suas agendas, ombro a ombro com as demais linhas estratégicas que definem os caminhos e constroem as soluções que darão corpo a resultados e a crescimento. O sistema legal pode, certamente, ajudar a traçar o início do caminho, mas este deverá ser percorrido com foco no bom senso, no mérito, no valor e na justiça.

Na sociedade em que vivemos a discriminação em função do género continua, todavia, a gerar situações de diferenciação injustificáveis, impedindo-a de caminhar para o verdadeiro e equilibrado progresso e desenvolvimento social e económico. Mas acredito que a quantidade e qualidade das mulheres que se estão a formar nas universidades vai, com toda a certeza, levar a uma seleção natural no futuro. Urge, porém, acelerar a sensibilização das consciências e a disponibilização de mecanismos para que tal aconteça com maior brevidade: a História mostra-nos que ao longo do tempo esta evolução tem sido lenta e difícil!

No que às empresas privadas diz respeito, se para atingirmos mais rapidamente determinados patamares de paridade, inclusão e diversidade, for necessário implementar, desde que com critérios de razoabilidade, um sistema legal de imposição de quotas, esse poderá ser um meio justificável com vista a um bem maior. Sem prejuízo (e como em tudo na vida), deve imperar o bom senso, não podendo o estado ter a tentação de se substituir ao acionista com critérios rígidos, que  constituam ingerências abusivas na gestão privada.

As empresas têm de colocar estes temas no topo das suas agendas, através de um sistema de autorregulação com planos e políticas de igualdade acionáveis e percecionadas como uma realidade junto das suas colaboradoras e colaboradores. Aquilo que hoje se traduz num esforço, numa meta para a qual temos de caminhar, quando estiver enraizado e, nessa medida, se confundir com a cultura de determinada organização, será percecionado como algo natural e intrínseco, um dado adquirido.

E é essa a inspiração e o legado que queremos deixar às gerações futuras, que serão o espelho daquilo que hoje lhes oferecemos.

Opinião de Marta Azevedo, Diretora de relações laborais da Sonae