Francisco Silvestre de Oliveira, Presidente do Conselho de Administração da Águas do Ribatejo

A Águas do Ribatejo assume responsabilidades na área de sete municípios que serve, sendo, portanto, um importante pilar no que concerne à qualidade da água desses locais. No sentido de contextualizar o nosso leitor, como é que a Águas do Ribatejo tem vindo a perpetuar um serviço assente em pilares como a qualidade e a excelência da água? 

A Águas do Ribatejo (AR) é uma empresa intermunicipal, com capital 100% público, detido pelos Municípios de Almeirim, Alpiarça, Benavente, Chamusca, Coruche, Salvaterra de Magos e Torres Novas. Garantir a segurança e a qualidade do abastecimento de água e do tratamento de águas residuais, com uma gestão sustentável dos recursos, são premissas fundamentais para a AR. Resultado desta preocupação é a construção de 11 Estações de Tratamento de Água e a construção e requalificação de mais de 30 ETAR e respetivos sistemas, dotando a região de uma cobertura de qualidade. Durante os primeiros 10 anos de gestão dos sistemas foram investidos mais de 130 M€. As obras e aposta em equipamentos inovadores e técnicos dotados de competências e ferramentas adequadas permitiram atingir níveis de cumprimento a rondar os 100%.

Realizamos cerca de 10 mil análises por ano em laboratório certificado e cujos resultados reportamos à Entidade Reguladora, Autoridades de Saúde, Municípios e Freguesias. Toda a informação é disponibilizada aos nossos clientes e consumidores no nosso site www.aguasdoribatejo.com.

Quando se aborda o tema da água, uma das premissas que é amplamente falada passa pela qualidade da água da torneira. É seguro beber água da torneira em Portugal?

Afirmo com total convicção que nunca foi tão seguro beber água da torneira em Portugal. Dispomos de recursos aquíferos de elevada qualidade e existe uma monitorização permanente dos sistemas.

Por outro lado, temos uma entidade reguladora atenta, exigente e rigorosa que atua de imediato em caso de alguma ameaça. Somos talvez, um dos setores mais fiscalizados em Portugal e ainda bem que assim é.

De que forma é que as Águas do Ribatejo promovem essa qualidade e segurança e porque podem os 150 mil habitantes dos municípios abrangidos pelos vossos serviços estar tranquilos sobre a qualidade de água da torneira?

A AR tem a vantagem de gerir todo o sistema de abastecimento desde a captação à entrega da água nos locais de consumo e ao ciclo completo de recolha e tratamento de águas residuais. Apenas numa parte do concelho de Torres Novas adquirimos água à EPAL, proveniente da Barragem de Castelo de Bode, cuja qualidade é, também de excelência. Como referi, foi feito um enorme investimento na construção e requalificação dos sistemas de abastecimento e saneamento. Temos um quadro técnico e operacional de qualidade que está em permanente formação e atualização e apostamos também na inovação e na partilha de conhecimento com as universidades e centros de investigação.

Sente que Portugal tem vindo a ganhar consciência da importância da água de uma forma natural? Acredita que faltam campanhas de sensibilização no sentido de consciencializar os portugueses para a poupança deste recurso?

Portugal tem feito nos últimos anos uma abordagem muito séria e responsável desta matéria. Já se começam a ver resultados. Existe uma maior preocupação com o uso eficiente da água e com as ameaças da seca extrema. Todavia, os resultados são graduais e teremos de continuar esta aposta e se possível intensificar.

De que forma é as Águas do Ribatejo têm vindo a promover essas ações de sensibilização? Começar pelas escolas é fundamental?

Desde 2010 que estabelecemos protocolos e parcerias com entidades como a Quercus, DECO, Direção Geral de Saúde, APDA, universidades e escolas. Realizámos centenas de ações de sensibilização e formação que permitiram sensibilizar mais de 15 mil participantes. A AR promoveu e apoiou concursos, eventos desportivos, culturais e sociais onde foi vincada a preocupação com o uso eficiente da água e as boas práticas ambientais.

A AR foi também uma das pioneiras na instalação de fontes de água ligadas à rede pública de modo a promover o consumo da água da torneira por ser mais saudável, mais amiga do ambiente e mais económica. Felizmente, hoje existem fontes deste tipo por todo o país.

Têm componentes de educação ambiental e de responsabilidade social fortes, como funcionam ambas? Que investimentos têm sido realizados pela Águas do Ribatejo?

A AR tem como únicos acionistas sete municípios. Todos os resultados positivos alcançados desde 2009 têm sido canalizados para investimento nos sistemas, nos recursos humanos, na investigação e na responsabilidade social.

Temos um tarifário que é dos mais económicos da região e dispomos de tarifário social para famílias economicamente desfavorecidas e para famílias numerosas. As autarquias e instituições sem fins lucrativos têm também um tarifário socialmente responsável.

O que pensa sobre a implementação de projetos de reutilização de águas residuais? Os portugueses vêm o tratamento e a reutilização da água como algo positivo?

No universo da AR há vários exemplos de aproveitamento de águas residuais tratadas para regas e lavagens nas instalações da empresa. Está também a ser estudado o potencial de alargamento desta reutilização. Contudo, temos de ter presente que a viabilidade destas soluções passa por uma análise criteriosa dos investimentos necessários e da existência de procura para essa água, sob pena de estarmos a desperdiçar recursos que fazem falta noutras áreas.

A gestão eficiente e ambientalmente sustentável dos recursos hídricos passa por…? A inovação é fundamental neste desiderato? Como têm aproveitado as valias da inovação na vossa orgânica diária?

A boa gestão da água é uma questão essencial. Num quadro em que a pressão sobre os recursos hídricos será cada vez maior, por força das alterações climáticas, exige-se uma abordagem integrada e transversal a toda a sociedade. A sustentabilidade do recurso Água implica uma visão de médio e longo prazo e, nessa medida, deveria ser objeto de uma discussão e reflexão profundas, envolvendo todos os stakeholders, particularmente a sociedade civil. É necessário que os cidadãos tenham consciência da importância desta matéria, se envolvam neste processo e que depois acompanhem a implementação das medidas e das políticas.

No caso da AR, sempre valorizámos o conhecimento e a competência. Temos um quadro técnico jovem e motivado que se interessa pela investigação na sua área de atuação. Estabelecemos parcerias com várias universidades e entidades nacionais e estrangeiras no sentido de promover a partilha do conhecimento e a oportunidade de estarmos sempre na linha da frente. Abrimos com frequência as portas das nossas infraestruturas e equipamentos para investigações científicas e estudos no terreno.

Quais são, na sua opinião, os grandes desafios que Portugal enfrenta na boa gestão da água?

Em primeiro lugar, e tal como referi, penso que é essencial que exista um maior envolvimento e consciencialização da sociedade sobre a importância deste tema. A redução das perdas de água é, também, uma das grandes prioridades. Há locais em Portugal onde a água não faturada é 70% da produzida. É um drama económico e ambiental. No caso da AR estamos a trabalhar para reduzir as perdas para 20%. Em 2009, quando começámos, o valor era superior a 52%. Hoje, apesar de ainda estarmos ligeiramente acima dos 30%, acreditamos que estamos no bom caminho. É imperioso garantir um abastecimento de água e um tratamento de águas residuais de qualidade mantendo tarifários socialmente justos. Não podemos manter a injustiça de tarifários com diferenças de 100% em função do concelho onde se vive.

Na área do tratamento de águas residuais, quem tem sistema de recolha à porta tem de se ligar. A AR, tal como outras entidades, tem feito enormes investimentos para ampliar os sistemas de saneamento, e dotar a região de infraestruturas modernas e eficazes. Ora, esses sistemas precisam de ter utilizadores para serem viáveis e sustentáveis. Estou em crer que a resposta a estes desafios passa por uma gestão proativa e eficaz dos sistemas, por parte das entidades gestoras, em estreita articulação com as autoridades competentes em matéria ambiental e de gestão dos recursos hídricos, com o poder político e com um envolvimento cada vez maior da sociedade na gestão deste recurso tão valioso, que a todos pertence.