José Rui Gomes e Bruno Paula Cardoso, respetivamente Presidente da APBI - Associação Portuguesa de Business Intelligence/IT Manager na Universidade do Minho e Big Data & Business Intelligence Specialist @Indra

A Associação Portuguesa de Business Intelligence (APBI) é hoje uma importante referência ao nível da contribuição que tem dado na divulgação do ambiente de Business Intelligence (BI) e do fomentar da sua implementação nacional. De que forma é que este trabalho tem vindo a ser realizado e que análise perpetua em Portugal do BI?

José Rui Gomes (JRG) A APBI pretende estabelecer um canal aberto e neutro, através do qual profissionais de BI, empresários, reguladores, académicos e responsáveis do setor público e governamental podem debater e resolver problemas comuns, visando a democratização do BI. A APBI procura ser a ponte entre os profissionais e o público em geral, esclarecendo dúvidas, traduzindo conceitos técnicos para linguagem acessível e fornecendo uma plataforma valiosa, para a constituição de redes de contatos, geração de oportunidades e trocas de conhecimentos, de modo a valorizar a capitalização e valor dos seus ativos.

De acordo com sua missão, a APBI patrocina fóruns de debate sobre BI, quer nacional quer internacional, onde utilizadores, reguladores e académicos se reúnem para discutir questões críticas. A título de exemplo podemos mencionar o I-data onde somos parceiros e as recentes conversações com 2nd Business Intelligence, Analytics and Data Management Summit on October 22-23, 2019 in Vienna, Austria.

Estamos em algumas das redes sociais (linkedin, Facebook, entre outros) de forma a esclarecer questões que nos são apresentadas. Pretendemos demonstrar o valor da informação para empresas e economias nacionais, servir como recurso de divulgação de padrões, tendências, desenvolvimentos tecnológicos e melhores práticas do setor.

Na era da informação, um problema que atinge muitos empresários é o excesso de dados disponibilizados sobre uma diversidade de assuntos que chegam até eles. Assim, o que é que as empresa podem ganhar com o Business Intelligence?

Bruno Paula Cardoso (BPC) O principal objetivo de uma boa solução de Business Intelligence é dotar os empresários de um novo poder: o poder do conhecimento e sua valorização. Atualmente uma pequena ou média empresa, faz investimentos substanciais em sistemas operacionais, para registo de dados. Ora, há uma grande diferença entre dados e informação. Os dados em bruto, só por si, não têm qualquer utilidade. O que o BI faz é transformar esses dados em informação valiosa, para suporte à tomada de decisão. O BI evidencia os pontos fortes e fracos de cada negócio, permite detetar riscos e oportunidades, e tem inúmeras aplicações, desde o desenvolvimento de campanhas de marketing dirigidas, a uma eficaz gestão de stocks, passando pelo controlo da produtividade e redução de custos. No mundo atual, extremamente competitivo, já não é possível gerir negócios com base na intuição, o conhecimento dos factos é crucial para o sucesso das empresas.

Sente que hoje o empresário português tem maior consciência e recetividade para as vertentes relacionadas com as mais valias do BI ou continua a trabalhar mediante o modelo da tentativa e erro, desperdiçando assim o seu tempo e dinheiro?

JRG O tecido empresarial português, tem mudado muito nos últimos anos e tem rejuvenescido. Atualmente há uma enorme procura de analistas de dados, sendo já uma das profissões mais requisitadas. Como consequência dessa procura, o número de licenciaturas na área, tem aumentado exponencialmente e a média de entrada nas universidades mais conceituadas, está ao nível de medicina.

A verdade é uma, o desenvolvimento tecnológico não pode ser travado e quem não evoluir, será irremediavelmente ultrapassado pelos concorrentes. Os hábitos de consumo mudaram, e se antes a relação produtor-distribuidor-cliente estava mais que consolidada, atualmente o consumidor está cada vez mais ativo e independente. Consegue alcançar e adquirir um produto, qualquer produto, de forma quase autónoma, em qualquer parte do mundo, sem grande esforço. A esta realidade, junta-se todo um mundo novo, onde as informações pessoais e desejos de cada consumidor estão acessíveis e a indústria, aplica este conhecimento no desenvolvimento de produtos cada vez mais direcionados para o gosto individual.

Neste contexto, a única forma de ter um negócio de sucesso, é implementando mudanças significativas, que valorizem o capital humano e que, sobretudo, consigam superar as expetativas de cada consumidor, da forma mais personalizada possível, quase exclusiva. Nada disto se faz sem informação e este é um facto que as empresas portuguesas começam a entender, ainda que lentamente.

Para onde pode e deve caminhar o Businesse Intelligence?

BPC As tendências tecnológicas em rápida evolução, como machine learnig e cloud storage management, terão grandes impacto nas soluções de BI, bem como a tendência para a democratização do acesso a estas tecnologias.

O BI convencional será substituído, por um serviço que deteta automaticamente os dados relevantes e interessantes, através da conjugação de técnicas de machine learning e inteligência artificial. Por outro lado, os utilizadores procuram, cada vez mais, soluções de self-service BI. Num futuro a curto prazo, qualquer pessoa, independentemente da sua capacidade técnica, poderá utilizar confortavelmente o BI.

A forma de armazenamento dos dados também irá mudar a curto prazo. A ascensão do Big Data – conjuntos de dados extremamente grandes que precisam de ser organizados e analisados – e a mudança para tecnologias móveis, conduzirão, inevitavelmente ao cloud storage. A incrível escalabilidade e o baixo custo do cloud storage associado ao aumento da velocidade das comunicações com o 5G, são perfeitamente adequados aos desafios impostos.

Este panorama aporta também uma realidade, ou seja, a escassez que ainda existe ao nível de profissionais relacionadas com Big Data e Gestão de Informação, cenário que o universo empresarial necessita. De que forma é que a APBI tem vindo a cooperar a criar no sentido de promover a existência destes profissionais?

JRG A APBI aposta na colaboração, entre as empresas e o ensino superior. De facto, houve um grande aumento do número de cursos de ciência de dados nas universidades, e, na nossa opinião, as empresas devem estabelecer relações de trabalho com o mundo académico, sempre que possível.

A APBI estabelece relações com os diretores de departamento e professores das universidades, e ajuda a descobrir e encaminhar para as empresas jovens promissores. Também é importante promover junto das empresas estratégias robustas de recrutamento e uma cultura de parcerias, que valorizem os futuros profissionais, aumentem a qualidade da formação ministrada nas universidades, adequando-a à procura do mercado e contribuam para captar mais jovens para este setor profissional.

Quais são os grandes desafios de futuro que prevê para a APBI?

JRG A APBI continuará a promover o estudo e a utilização de Business Intelligence, por meio de programas de divulgação, desenvolvimento profissional, e redes de profissionais, investigadores e utilizadores finais. A aproximação entre o mundo académico e o mundo empresarial é uma forte aposta da APBI.

Por outro lado, num mundo cada vez mais complexo, em que são usados indiscriminadamente chavões como “business intelligence”, “machine learning”, “big data”, “inteligência artificial”, é crucial esclarecer as empresas e os potenciais utilizadores das tecnologias, sobre o seu real significado. Pretendemos, portanto, reforçar o nosso papel como “tradutor” isento. A APBI é a instituição à qual as organizações poderão recorrer para identificar a melhor solução, para o seu caso específico.

Pretendemos também ser uma plataforma de apoio para os novos profissionais da área, que serão alvo de uma pressão de mercado sem precedentes. Pretendemos contribuir para a divulgação das oportunidades formativas e ofertas de emprego, mais aliciantes, assumindo um papel fundamental na valorização profissional desta classe de profissionais.