Teresa Ferreira, Diretora de Espaço na GMV Portugal

Teresa Ferreira é Diretora de Espaço na GMV Portugal. O que é mais desafiante nesta área? O que a motiva e inspira diariamente?

O espaço é inerentemente um fator de inspiração, um mistério ancestral, fonte de mitos e de crenças, morada de deuses e titãs, foi sempre um desafio para a nossa imaginação. Para além da ciência, da tecnologia e da organização empresarial, a aventura humana está aqui sempre presente. Deparamo-nos diariamente com desafios novos e somos levados a empurrar os limites do que conhecemos. É verdadeiramente inspirador saber que o nosso trabalho tem um reflexo direto no dia-a-dia das pessoas, na mobilidade, na comunicação, na sustentabilidade do planeta ou no uso de novas soluções para gerir o território.

Mas o mais motivante e inspirador para mim é ver a tenacidade das pessoas que me rodeiam a gladiarem-se com estes desafios, os debates improváveis e frutíferos que daí decorrem e sobretudo o foco com que trabalhamos na GMV.

A GMV apela à sensibilização da sociedade no geral para a crescente importância do Espaço na economia de um país. Fale-nos um pouco mais sobre esta questão. Qual é o verdadeiro impacto desta área?

Para além da inspiração que o setor suscita – e que não deve ser de todo menosprezada pelo impacto que tem na educação e atração de novos talentos para o campo das ciências – o setor Espaço tem um impacto enorme na economia. De facto, é um setor que gera emprego altamente qualificado, é exportador e tem um dos maiores retornos de qualidade para o país. O setor Espaço envolve múltiplas disciplinas e assenta na ligação ciência-tecnologia. Por último, os investimentos feitos em Espaço têm um elevado efeito de arrastamento tecnológico para outros setores (como é o caso do velcro).

Acima de tudo, as tecnologias Espaciais trazem enormes benefícios para as pessoas, aqui na Terra. É de facto nas aplicações e produtos oriundos de recursos espaciais onde se encontra o maior valor do negócio. A nossa economia atual está absolutamente dependente de sistemas de navegação por satélite tais como o GPS Norte-americano ou o Galileo Europeu, que controla sistemas energéticos, dita os tempos de transações e aberturas/ fechos de bolsas e nos guia no mar, na terra ou no ar. Usamos tecnologia de satélites na observação da Terra, não só para fins científicos, mas também para medir alterações climáticas, dar apoio à agricultura e gestão de água e florestas, caraterizar o território, avaliar recursos mineiros e controlo do bem-estar ambiental.

Por outro lado, alertam para a importância de se ver reforçada a educação e formação neste setor onde é ainda difícil encontrar recursos. No entanto, Portugal está no bom caminho no que diz respeito ao ensino e formação? Em que patamar nos encontramos?

A alta qualidade da educação e formação em Portugal é sem dúvida um dos fatores mais atrativos para as empresas. Como exemplo, o curso de Aeroespacial do Instituto Superior Técnico atrai os melhores alunos do país e tem muitas vezes das médias de entrada mais elevadas. Dito isto, o setor Espaço é por definição multidisciplinar e requer muitas competências diferentes em áreas como a física, matemática aplicada, telecomunicações, ciência de dados, eletrotecnia, mecânica ou informática.

As universidades Portuguesas estão absolutamente integradas nas redes internacionais e são uma referência em muitas das suas áreas de especialização, o que é fundamental para fomentar o ecossistema. Os alunos cada vez mais aparecem com projetos interessantíssimos e ideias fora da caixa mostrando um espírito de iniciativa muito atrativo para as empresas. Comparando com outras realidades, gostaria de ver as universidades a investirem mais em ações práticas, tanto dentro como fora do âmbito curricular.

A GMV tem assumido um papel de liderança no setor espacial a nível internacional, mas também em Portugal. Quais são as principais áreas em que a GMV opera no mercado nacional?

Para além da área de Espaço, a GMV opera nas áreas de aeronáutica, defesa, segurança, transportes, saúde, telecomunicações, tecnologias de informação e ciber-segurança. Na área do Espaço, a GMV Portugal pauta-se pela liderança da contribuição nacional aos principais programas institucionais e comerciais europeus ao nível internacional. No mercado espacial nacional, uma das áreas de enfoque da GMV é o fornecimento de aplicações e produtos de tecnologia espacial. Seja no mercado de segurança, no acompanhamento da atividade agro-silvícola ou sistemas de transportes inteligentes.

Finalmente, a GMV é um ator ativo nas iniciativas nacionais emergentes relacionadas com o Espaço tais como a construção, desenvolvimento e operação de um porto espacial e o sistema de Vigilância e Rastreio de objetos espaciais (SST: Satellite Surveillance and Tracking) que será instalado na Madeira e nos Açores.

Entre os diversos projetos de Espaço em que a GMV participa, poderia salientar aquele(s) que considera relevantes no momento?

Gostaria de realçar os seguintes projetos a decorrer neste momento na GMV:

1.A GMV está a desenvolver o sistema de controlo automático para o módulo orbital do vaivém espacial Europeu – Space Rider – cuja exploração comercial está prevista para 2025. Para além do módulo orbital (que ficará alguns meses a orbitar a Terra), o módulo de reentrada do Space Rider irá aterrar nos Açores.

2.Na área de New Space, a GMV especializou-se em tecnologia com vista a uma exploração comercial, verde e segura do Espaço, nomeadamente na área de micro-lançadores e remoção de lixo espacial.

3.A GMV tem um papel de destaque na missão HERA cujo destino vai ser decidido em novembro na próxima reunião ministerial da ESA – na qual se definem as políticas e financiamento do próximo triénio. A missão HERA está articulada com a missão DART da NASA e visa o sistema binário de asteroides constituído por Didymain (780 m de diâmetro) e Didymoon (160 metros de diâmetro). Numa primeira fase, a sonda DART da NASA irá colidir com o Didymoon. A sonda HERA da ESA irá em seguida analisar a cratera, constituição do asteroide e desvio da órbita provocado pelo impacto. Será a primeira vez que a humanidade conseguirá alterar a trajetória de um asteroide de forma artificial. Um precursor para a defesa planetária.

4.A GMV tem em Portugal das maiores equipas europeias a fornecer serviços baseados em deteção remota. A nossa equipa participa em dois dos seis serviços do Programa Europeu Copernicus: Serviço de Segurança (Vigilância de fronteiras para FRONTEX e Suporte às ações externas para SATCEN) e do Serviço de Emergência (Mapeamento Rápido).

5.Gostaria ainda de destacar a contribuição da equipa portuguesa para os programas de navegação por satélite europeus (EGNOS e Galileo) não só no segmento de controlo e na área da ciber-segurança, mas também no segmento de missão e do utilizador (incluindo aplicações e serviços).

Quais serão os verdadeiros desafios, num futuro próximo, no que diz respeito ao setor espacial?

O futuro da Investigação em Portugal no domínio do Espaço está estreitamente ligado ao grau de participação do país na estrutura da ESA, o principal promotor do desenvolvimento dos projetos espaciais na Europa, na resposta dos potenciais compradores, empresas e atores institucionais, aos estímulos do mercado e na constante qualificação dos quadros técnicos e investigadores, a principal “matéria-prima” deste negócio.